Um convite à reflexão

Um convite a reflexão

Por Luiz Leite

Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno, os seus pensamentos e se converta ao SENHOR, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR. Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.” 

O que aconteceria se pudéssemos pensar um pouco mais como Deus pensa? Seria possível tal coisa? Talvez isto seja complexo demais. Que tal então se conseguíssemos pelo menos “pensar”? Maravilho-me diante dos desdobramentos desta aparentemente tola conjectura! Se observarmos bem descobriremos que a maioria simplesmente não pensa. Os que se esforçam um pouco para pensar acabando se perdendo nos labirintos dos processos mentais e mal se dão conta da inconsistência de seus próprios “pensamentos”. Alguém poderia dizer: “Mas como não pensamos? Vê quanta coisa temos criado? É verdade, mas pensar para construir máquinas e prédios, não é a mesma coisa que pensar para construir a vida, e é disto que tratamos aqui.

Não pensamos. Quando o fazemos, fazemos de modo errado. Nossa lógica nos trai constantemente. Esta é a verdade crua que fere como uma navalha a pretensão homo sapiens sapiens. Os filantropos protestarão enraivecidos. Que absurdo! Entretanto, a nota de protesto, ouso dizer, não terá sido construída a partir de uma reflexão inteligente. Terá sido apenas uma reação a esta provocação. É isto. Geralmente agimos por instinto! Não pensamos. Simplesmente reagimos às provocações da vida, e isto fazemos sem pensar! Quando pensamos, pensamos numa frequencia baixa, mal elaborada, frequentemente influenciada por emoções erradas…

O convite do Senhor em Isaias é: Deixe o ímpio seu caminho e o homem maligno seus pensamentos e se converta ao senhor… É como se o Senhor estivesse dizendo: Abandona esse seu jeito de fazer as coisas e pensar os processos! Seu modo de fazer e pensar estão equivocados e por isso voce se aflige tanto. Tenho um modo de agir e pensar que vai revolucionar sua vida. Converta-se. Setecentos anos mais tarde vamos encontrar o eco deste convite nas palavras de Jesus.

“Então, disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me; porque aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?”

Temos uma dificuldade imensa em lidar com esse texto. Talvez este seja um dos momentos mais poderosos e também mais mal compreendidos de toda a bíblia. Negar-se a si mesmo… Como o ego é dotado de um instinto apuradíssimo de sobrevivência, esse convite soa no mínimo indigesto. Entretanto, o convite e desafio é uma das mais fascinantes propostas que alguém poderia receber.

Negar-se a si mesmo significa abandonar o caminho ímpio e os pensamentos malignos aos quais Isaias se refere. Talvez alguém diga: “Mas não sou ímpio e muito menos homem perverso; isto não se aplica a mim.” Ainda que isto seja verdade, do ponto de vista teológico, é possível que nosso modo de agir e pensar ainda obedeça aos padrões do homem velho, ímpio e perverso.

A maioria recua ante o desafio de negar-se a si mesmo para seguir Jesus. Em verdade, no contexto da religião cristã um número imenso de pessoas não sabe o que é isto de fato. Permanecem ainda tendo suas vidas regidas por um ego doente e cheio de inconsistências. Negar-se a si mesmo é inteligente. É exonerar a “banda podre”, é demitir a porção deste ego, que  na cadeira de primeiro-ministro tem desenvolvido uma gestão marcada pela inépcia administrativa. Os recursos de que dispomos tem sido utilizados de maneira errada e desleixada, deixando-nos cada vez mais empobrecidos. Como um daqueles governantes ditadores de países que são verdadeiros desastres economicos e administrativos, que fazem-se onipresentes por todas cena através de estátuas e quadros grandiosos, projetando uma falsa idéia de importância, assim opera nosso ego.

É exatamente aí que Jesus vem trazer este ensino pouco compreendido e duramente resistido sobre negar-se a si mesmo! Sob a gerência ditatorial deste péssimo primeiro ministro conheceremos o desastre. Pense e reflita. Não sinta e reaja. Jesus incomoda por não revidar as provocações dos seus algozes. Em nenhum momento encontramos um Jesus desequilibrado em face às circunstâncias. Jesus simplesmente não permite que as provocações de homens ou demônios determinem o seu modo de ser e agir. Jesus é um homem que pensa.

Diante do dificílimo exercício de dar a outra face ao agressor, andar uma segunda milha, entregar a tùnica ao que pede a capa, perdoar as impossíveis setenta vezes sete situações ultraje, vemo-nos atordoados… Não conseguímos assimilar suavemente tal padrão de comportamento. De saída julgamos impossível na prática. Pois o que Jesus intenciona com esse ensino é nos levar a pensar. Em outras palavras: Não reaja. Pense primeiro. Não conceda ao outro, ou às circunstâncias, o direito de conduzir seus atos. Reaja e seja um capacho de homens. Pense e seja um agente ativo de sua própria história!

Deixe o ímpio seu caminho e o homem perverso seus pensamentos e converta-se ao Senhor… Eis o caminho da vida, da libertação, da vitória plena!  Quando nos desvinculamos desse ego desequilibrado e cheio de medos, podemos entao tomar nossa cruz e seguir Jesus. Em seu caminho tudo é radicalmente diferente!

O Desatino da Toga

O Desatino da Toga

Por Luiz Leite

Dia desses acordei sobressaltado com o som desagradável do meu interfone que berrava escandalosamente nas primeiras horas do dia.  Ao atender, a voz do outro lado mencionou meu nome por completo, buscando saber se se encontrava em casa o referido senhor. Confirmei que sim. Era eu o dono do nome. 

Oficial de Justiça! Carteirou de lá a voz, infomando que havia uma intimação para mim. Algo atarantado, ainda meio sonolento, desci as escadas vasculhando minha memória recente em busca da razão possível para tal intimação. Não encontrei. Certa aflição procurou assumir o controle do redemoinho interno e capitalizar o incerto, mas logo o oficial de justiça esclareceu a razão da intimação. Acalmei. Havia sido citado como testemunha em certo caso litígioso.

Como nunca havia estado em situação parecida, aguardei o dia da audiência e lá fui, cumprir a ordem do juíz, sob pena de prisão e multa por não comparecimento. Chegada a data e hora daquela agenda compulsória lá estava eu no forum como um cidadão exemplar para cumprir com aquela desagradável obrigação. Dirigi-me à assistente do juíz para me certificar de que estava no lugar certo. A moça confirmou dizendo que sim mas havia um porém: Aquela audiência fora cancelada. Ali teria início uma audiência não agendada.

Sentindo-me absolutamente desrespeitado disse:

– Como é? Voces me visitam com uma intimação para comparecer a uma audiência sob ameaça de prisão pelo não comparecimento, alteram meu itinerário, atropelam minha agenda, e nem se importam em me comunicar qua a tal agenda foi cancelada?

A moça tentou argumentar sem argumentos. Infeliz  empreitada é esta quando tentamos justificar o erro recorrendo a argumentos sem sustentação sólida. Fazemos assim por que é muito difícil para nós nos humilhar, pedir perdão, reconhecer o erro e nos dispormos a reparar o prejuízo do outro.  Enquanto isso, o juíz conversava com dois advogados  e ao mesmo tempo ouvia minha conversa com a sua assistente. A moça disse:

– A audiência foi cancelada porque as partes entraram em acordo.

Eu retruquei:

– Que bom, mas, e eu? eo o meu tempo, deslocamento, custos?

Ela disse:
-Neste caso podemos emitir um atestado para o senhor…

Ao que respondi:

– Um atestado não resolve esta situação…

Neste momento o juíz entrou na cena com a truiculência de um quarter back de futebol americano e bradou:

– E o senhor queria que eu fosse em sua casa lhe informar é?

Respondi impaciente:

– Bom seria, pois isto é uma falta de respeito!

O juíz, bufando por sentir-se contestado, coisa com que não deve estar acostumado, revelando um profundo despreparo emocional, já foi me ameaçando com voz de prisão, dando um show ridículo de abuso de autoridade. Disse:

– Veja lá como o senhor fala aqui na minha corte pois posso te dar voz de prisão!

Os ânimos nessa hora estavam aquecidos. Ao invés de me intimidar a fala do juíz causou-me indignação ainda maior. Respondi com veemência:

– O quê??  O senhor sabe muito bem que isto é errado. Eu me desloquei até aqui para cumprir sua ordem judicial. Do mesmo como esta casa me intimou para vir deveria me comunicar do cancelamento da audiência, me liberando desse encargo.

O homem da toga, visivelmente transtornado me mandou sair de sua sala e mandou vir os seguranças para me conduzirem. Nisto, eu que já ia me retirando retornei um pouco mais revoltado e disse para o magistrado:

– O senhor sabe bem que estou no meu direito e que apenas reivindico respeito para com a minha cidadania. Isto é um flagrante desrespeito a mim como cidadão.

Mais uma vez ele se alterou e ameaçou me prender pra valer. Eu ainda me sentindo ultrajado disse:

– Há quatro testemunhas nesta sala que sabem que em nenhum momento eu desacatei o senhor. O desacato aqui é dessa casa para com este  cidadão!

Nisto ele deu um sorriso amarelo, sem graça, como que percebendo que não estava lidando com um qualquer que ignora seus direitos fundamentais e disse:

– Peço ao senhor que tenha a gentileza de sair da minha sala.

A isto respondi:

– Agora o senhor falou certo… de acordo. Agora eu vou.

E sai chocado com a falta de controle daquele a quem comumente tratam como “V. Excelência”. Com isto fiquei mais uma vez convencido que capacidade intelectual nada tem a ver com maturidade, refinamento, sabedoria. Ficou clara a impressão de que estava diante de um péssimo representante da classe. Talvez esta tenha sido uma pequena amostragem daqueles que enxovalham o judiciário, matando de vergonha aqueles que verdadeiramente tem a nobreza necessária para receberem a deferência com que devem ser tratados. Infelizmente há sim cartas marcadas, sentenças compradas, juízo iníquo, parcialidade na balança, dois pesos e duas medidas ferindo o princípio mais fundamental deste nobre ofício  que deveria ser tido como sacerdócio por aqueles que o abraçam.

Neste quadro, por conta de alguns, o juízo é distorcido, a verdade enterrada; os poderosos se safam, os pequeninos são penalizados, a lei é burlada e a justiça capenga. Como falou Miquéias: “As suas mãos fazem diligentemente o mal; assim demanda o príncipe, e o juiz julga pela recompensa, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles tecem o mal.”