Amsterdam

Amsterdam

Por Luiz Leite

Cheguei em Amsterdam cansado e com fome. O inverno, apesar de já estar de malas prontas, ainda fazia sentir o seu hálito frio naquele começo de primavera. Havia saído de Bruxelas com fome pois o dinheiro já andava escasso há algum tempo. Um casal de amigos israelenses que conheci na viagem de Chipre pra Grécia, se dispôs a pagar a minha passagem, quando souberam que eu estava fazendo planos de ir para Holanda mas estava sem dinheiro.

Pois bem, lá estava eu em Amsterdam, sem um tostão e sem um amigo a quem recorrer… Como fazia frio, entrei numa estação de metrô e coloquei minha backpack no chão. Ajeitei o violão cudadosamente sobre a mochila e, sentando-me no chão, encostado numa pilastra, começei a tomar minhas primeiras aulas de holandês, observando as placas, letreiros, bem como as pessoas que passavam conversando em sua língua estranhíssima…

Não tinha a menor idéia do que fazer quando o metrô encerrasse suas operações à meia noite; Teria que sair da estação, disto sabia, mas ir pra onde? Entre um pensamento e outro, enviava ao céu uma pequena oração de vez em quando, dizendo “Senhor, a noite tá ficando fria”.

Já estava quase dando meia noite quando o último trem estacionou na plataforma. Estava tão cansado que nem sequer ligava pras belíssimas holandesas que passavam dando “bola pra mim”. Talvez voce diga, “tadinho, tava sonhando”… Pra dizer a verdade, eu não tava sonhando não, tava delirando mesmo…delirando de cansaço e fome. E a oração subia, fraquinha, tipo, “Senhor…”

Um dos últimos passageiros a descer do metrô se dirigiu a mim em holandês e falou algumas palavras ininteligíveis, pra logo perceber que eu não estava entendendo uma vírgula; de imediato acionou uma tecla minúscula nos circuitos misteriosos do cérebro e passou a falar em inglês como se aquela operação fosse a coisa mais corriqueira do mundo.

Posso ver seu violão? Perguntou-me.

Fique à vontade… respondi

Tirou o violão da capa e começou a cantar um dos meus blues prediletos…

– “summertime when the living is easy… fishes are jumping and the cotton is high…”

Cantou como se diante de uma grande audiência. Éramos eu e ele, sem contar o pessoal da faxina que chegava para a limpeza… Depois de cantar o seu blues e uma outra canção que, como o blues, seria pelo menos trinta anos mais velha que ele, perguntou-me:

Pra onde voce está indo?

Pra lugar nenhum – respondi

Como assim? – perguntou curioso.

É que não tenho pra onde ir – respondi

Não se preocupe não – disse – pegue suas coisas e vem comigo.

Nunca havia obedecido tão prontamente a uma ordem como naquele dia. Levantei-me de um salto e, mochila nas costas, lá fui seguindo o holandês. Preocupado com o que poderia acontecer? Não, nem um pouco. Eu sabia de onde vinha aquele “socorro”

Chegando no endereço olhei para cima e apreciei a fachada antiga do edifício, dando graças a Deus em silêncio pela provisão. Ao entrar no apartamento do holandês, percebi que não havia ninguém no lugar. Como um bom anfitrião, o jovem mostrou um sofá antigo ao canto de uma sala bagunçada o suficiente pra deixar apavorada qualquer mãe… certamente a mãe dele não morava ali. Pediu pra que eu me sentasse e dirigiu-se para o quarto. Sentei-me no sofá e passei a observar, curioso, os detalhes do ambiente.

Logo o rapaz saiu do quarto carregando uma mochila. Disse-me que ficasse à vontade, que iria a certo lugar e que dali a pouco estaria de volta. Despediu-se de mim com um see you later e foi-se… Recostei-me no sofá e esperei o quanto pude…vencido pelo cansaço e pelo sono desmaiei para acordar somente por volta das dez horas do dia seguinte.

O holandês deveria aparecer a qualquer momento, pensei. Esperei, esperei e nada. Passou o dia, a noite chegou, esperei um pouco mais e nada…dormi. E assim sucedeu pelos próximos seis dias.

Depois de uma semana, o moço apareceu; entrou no apartamento sem bater. Será que ele se lembrava de mim? Quando me viu, cumprimentou-me com gentileza, sem nada perguntar… parecia agitado, o que me deixou um pouco sem saber o que dizer ou fazer. Pegou algumas coisas e saiu de novo…desapareceu! mais alguns dias se passaram.

Assim foi que me receberam e me acolheram em Amsterdam. Tive tempo suficiente para encontrar emprego e fazer amigos. Depois de Instalado e já me sentindo à vontade na cidade, o holandês, com muita educação me disse que a namorada estava vindo para passar uns dias com ele… Naturalmente, não precisou dizer mais nada.

E olha que eu que estava numa cidade onde não conhecia ninguém e não tinha um amigo a quem recorrer… Costumam chamar a esse Deus de Jeová Jiré, o Deus da provisão…