Membros do Clã

Comofazerumcachorroparardebrigar

Membros do Clã

Por Luiz Leite

Fui para o parque na tarde de segunda para praticar a contemplação, essa disciplina antiga, minha velha companheira. Estava tudo muito calmo. O parque quase deserto. Deitei-me na grama e me pus a contemplar, esse exercício que resume-se a descansar à sombra de uma árvore, observar a natureza ao redor, flores, folhas, pássaros, ouvir seu canto… Meu Deus, há música em tudo!  No meu caso não havia pássaros cantando mas havia árvores, grama e vento… Quando não se tem pássaros mas se tem árvores e vento, então seguramente se ouve música.  Deitado sob a árvore frondosa, absorto pela beleza dos acordes que o vento produzia ao “tocar” a cabeleira farta das árvores, lentamente me ia transportando  para a minha Shangri-lá imaginária.

Quando me aproximava já da ponte que na contemplação separa os homens do burburinho externo e interno, fui bruscamente trazido de volta à realidade crua dos conflituosos companheiros de peregrinação… Gritos! Gritos desesperados feriam o silêncio até então paradisíaco. Levantei-me sobressaltado e ao longe avistei uma jovem senhora que gritava ao ver seu pequeno Poodle atacado por outro cão de porte imenso… A senhora, com custo, ralhando e chutando desesperadamente, tirou seu cãozinho das presas daquele perverso parente… Nisto aparece o dono do agressor e outra batalha tem início… Preparei-me para intervir ao perceber que os ânimos se avolumavam e os elogios se encrespavam… “Seu maldito!”, “Sua louca!” Terminava ali o precioso momento de ambos no parque. Interrompia-se também o meu.

O cão grande de volta na coleira, parecia sorrir de satisfação como quem diz: “Sentiu quem manda aqui, ô Mauricinho?” O pequeno no “colo” de sua dona, ainda “chorava” com ganidos comoventes devido ao susto. A dona, resfolegando com a ira de uma mãe cuja cria acabara de ser agredida, afagava-lhe os pelos impecavelmente brancos e macios, obra de salão e, sussurrando palavras próprias do misterioso coração materno, foi-se, esbaforida, acalantando o seu rebento. Lá fiquei eu, algo estatelado com a cena forte de agressividade envolvendo cães e homens! Depois de 12 mil anos de uma parceria muito bem sucedida, pensei lá com os meus botões: “A cachorrada, definitivamente, já faz parte da família. Qualquer ato de agressão contra um cão vai ser interpretado como uma agressão a um membro do clã!”

Anúncios

2 comentários sobre “Membros do Clã

  1. Sueli Cunha disse:

    “Lá fiquei eu, algo estatelado com a cena forte de agressividade envolvendo cães e homens! Depois de 12 mil anos de uma parceria muito bem sucedida, pensei lá com os meus botões, a cachorrada já mesmo faz parte da família. Qualquer ato de agressão contra um cão vai ser interpretado como uma agressão a um membro do clã!”

    kkkkkkkkkkkk Desculpe o riso, mas foi um riso gostoso… Sozinha aqui, absorta, viajando no texto e contexto, de repente fui surpreendida por uma “possível tragédia” então “familiar…” Sua facilidade em nos transportar para, então, sua contemplação, e de repente nos tirar dela com essa constatação fatídica e verdadeira… Pude imaginar você com aquele ar tipo “caramba!…” rss
    – Preferiria ter ficado no primeiro momento do relato, nessa paz envolvente, mas enfim, é isso que também nos acontece no cotidiano.
    Parabéns por essa habilidade que lhe é peculiar! Você é demais! 🙂

  2. luiz leite disse:

    Obrigado pelo comentário Sueli… Ri ao final quando diz: “Voce é demais!” pensei: “Menos né Sueli! rs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s