Como nos tornamos o que somos

Por Luiz Leite

Estou no parque onde tomo sol e leio pelas manhãs de sábado. “Como são prazeirosos os dias de sol de inverno,” penso, enquanto me esforço para fixar a atenção no livro. Minha leitura é constantemente interrompida pelos gritinhos das crianças ou latido dos cachorros que brincam alegremente ao meu redor. Não me incomodam. Eu simplesmente observo, sorrio e continuo. Ora lendo, ora escrevendo, ora analisando os registros da primeira infância, que marcarão para sempre a vida desses pequeninos.

Fui arrancado bruscamente do texto pela voz de um pai que esbraveja com a filha, uma menininha de cerca de 3 anos, não mais.

Não Marina! Não suba aí!

Marina, sem compreender direito exatamente porque não podia escalar a mesa de concreto do parque onde brincava com outras crianças, olha para o pai confusa e logo em seguida, como faz toda criança, volta a exercitar seus pequenos músculos na tentativa de escalar aquele objeto que parecia desafiá-la a uma aventura.

O pai, exageradamente estressado para uma manhã ensolarada de sábado, grita histericamente….

– Marina não sobe!

Marina ainda sem fazer sentido do desequilíbrio do adulto (afinal tinha ido ao parque para brincar!) olha para o pai amedrontada pelo tom carregado de ameaça da voz que emenda:

Se voce teimar, nós vamos embora agora!!

A  pequena não sabe ainda o que significa o verbo teimar, nem tampouco faz ideia da engenharia dos termos contidos na frase, mas compreende quase que perfeitamente bem a carga emocional que as palavrinhas carregam. Desiste algo frustrada e confusa do seu projeto de exploração mas não retornará de sua expedição como a mesma  menininha de apenas alguns minutos atrás. Marina está mudando rápido, aprendendo rápido e  agora já é uma nova  pessoa!

Marina agora tem um novo truque no seu modesto repertório de recursos para mover-se no sempre complexo jogo das relações humanas. Teve sua primeira lição de chantagem, esse recurso violento ao qual vez por outra recorremos para conseguir pequenas vantagens sobre os outros.

A chantagem é uma manobra desesperada e desonesta. Opera como desestabilizador das emoções para controlar, exercer poder, influenciar pelo medo… Este e outros artificios utilizados por adultos fracos nas disputas da vida cotidiana são aprendidos na primeira infância, e os mestres, via de regra, são os próprios pais que se utilizam ostensivamente do recurso para controlar os pequenos futuros chantagistas… Afinal, como diz o provérbio sertanejo, “O cavaco não costuma voar pra longe do toco!”

3 comentários sobre “Como nos tornamos o que somos

  1. Pastor esse ‘negócio’ de chantagem não é bom mesmo… infelizmente, já utilizei (e confesso que as vezes utilizo) deste artificio … O problema é quando essa atitude torna-se mania (costume) e infelizmente não percebemos o quanto isto é prejudicial ao próximo e a nós mesmos. Eu tenho que parar com isso rsrsrs o mais breve possível ! Or(AÇÃO) vai me ajudar não é mesmo? (Percebo o quanto eu tenho que crescer e amadurecer nos relacionamentos). Muito bom o texto Pastor. Deus o abençoe sempre. amém.

  2. É realmente assim q nos tornamos o que somos. Temos o hábito da chantagem tão internalizado em nós que fazemos como tanta naturalidade que nem percebemos quão ruim ela é. Eu como pedagoga e professora me pego fazendo isto tantas vezes com meus pequenos, ora por causa do desespero, ora pelo desejo da autoridade (q neste caso a palavra poder se encaixaria melhor) … Isto é um belo confronto para mim. Temos até métodos pedagógicos para está prática, castigo e recompensa, cumpre as regras e será premiado. Afinal, conscientizar da mais trabalho. Triste, mto triste. Preciso mudar e URGENTE… Preciso perguntar mais vezes.. No que se tornarão meu alunos?

  3. Pois é cara pedagoga, pais e mestres são participantes na construção desta colagem confusa em se torna o ser humano… triste condição. parabéns!

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