O Brasileiro e o Livro

Por Luiz Leite

Hoje, ao cair da tarde, pedalando pela praia, observava as pessoas e fazia um levantamento estatístico. De cada grupo de cem pessoas encontrei no máximo duas com um livro na mão. Admiro-me com o número tão inexpressivo de livros na praia. Tá bom, é verdade, praia é lugar de jogar peteca, deitar-se numa esteira ou numa cadeira, tomar sol e relaxar… Concordo. Mas a ausência do livro me incomoda também no ônibus, no avião, no metrô…

Recentemente, viajando para passar as festas de fim de ano com minha família, como sempre, observei no meu vôo duas ou três pessoas apenas com um livro na mão. Noutra ocasião, no metrô em Sã0 Paulo, notei um número proporcionalmente menor ainda de pessoas flagradas com essa que é sem dúvida uma das melhores companhias.  Essas observações, ainda que pareçam tolas para alguns (que não gostam de ler), revelam a cultura de um povo. Será que o brasileiro não aprecia o livro?

Talvez alguém proteste e diga: Isto não é verdade! Temo que as estatísticas provem o contrário. Tempos atrás fiquei chocado com um artigo que li acerca da relação do brasileiro com o livro. O texto informava que há mais livrarias na grande Paris, na França, do que em todo o território brasileiro! Lembrei-me então que durante os anos que morei na Europa sempre me impressionava com o número de pessoas lendo dentro de um ônibus ou trem. Em muitas viagens encontrei livros deixados para trás como que propositadamente para que outros pudessem ter o que ler.

O fato, pode-se argumentar, é que livro no Brasil é caro. Esta é uma verdade constrangedora. Deixa-nos numa sinuca: O brasileiro não lê porque o livro é caro! ou, O livro é caro e por isso o brasileiro não lê! Tudo nesse país é muito caro, talvez extorsivamente caro… Revolto-me todas as vezes que entro numa livraria nos EUA. Como o americano pode comprar livros por um preço melhor que o nosso? Bom, esse assunto e essa revolta não cabem aqui. Ficarão para outro artigo.

Em uma pesquisa feita pelo Instituto Pró-Livro, Retratos da Leitura no Brasil, os dados constrangem.

(…) Declaram-se não-leitores 48% (não leram um livro nos três meses anteriores à pesquisa). Essa proporção desce para 45% se forem considerados os que não leram um livro no ano anterior. 33% dos não-leitores são analfabetos e 37% têm até a 4ª série, faixa em que as práticas de leitura ainda não estão consolidadas.

A maior parcela de não-leitores está entre os adultos: 30 a 39 (15%), 40 a 49 (15%), 50 a 59 (13%) e 60 a 69 (11%). O número de não-leitores diminui de acordo com a renda familiar e de acordo com a classe social. Quase não há não-leitores na classe A e há apenas 1% de não-leitores quando a renda familiar é de mais de 10 salários mínimos. Isso pode levar à conclusão de que o poder aquisitivo é significativo para a constituição de leitores assíduos.

As dificuldades de leitura declaradas configuram um quadro de má formação das habilidades necessárias à leitura, o que pode decorrer da fragilidade do processo educacional: lêem muito devagar: 17%, não compreendem o que lêem: 7%, não têm paciência para ler: 11%, não têm concentração: 7%. Todos esses problemas dizem respeito a habilidades que são formadas no processo educacional.

As alegações para a ausência de leitura no ano anterior à pesquisa evidenciam problemas de várias ordens: falta de tempo: 54%, outras preferências:

34%, desinteresse: 19%, falta de dinheiro: 18%, falta de bibliotecas: 15%. Assim, 33% das alegações dizem respeito à falta de acesso real ao livro e 53% dizem respeito ao desinteresse pela leitura. Se considerarmos a falta de tempo uma questão de opção na organização da agenda pessoal, o índice de desinteresse pela leitura cresce muito.

Tais informações parecem configurar um ambiente em que a leitura não é socialmente valorizada, em que o livro não tem um lugar assegurado. Tanto é que 86% dos não-leitores nunca foram presenteados com livros na infância, enquanto no universo dos considerados leitores esse índice cai para 48%. Outra informação importante diz respeito às práticas familiares de leitura.

Nos lares dos não-leitores, 55% nunca viram os pais lendo. Se considerarmos que a maior influência para a formação da leitura vem dos pais (principalmente das mães). No entanto, dado o quadro de que os pais dos entrevistados não têm instrução alguma (23 %), cursaram até a 4ª série do ensino fundamental (23%) ou têm fundamental incompleto (15%), enquanto as mães sem qualquer escolaridade são 26%, 22% fizeram até a 4ª série e 16% têm fundamental incompleto, torna-se muito difícil a inculcação pela família do valor da leitura.

Nosso sistema educacional consegue a façanha de posicionar-se entre alguns dos países mais pobres do planeta, nós que hoje circulamos orgulhosos no circuito seleto das maiores economias mundiais. Se, como disse Monteiro Lobato, um país se faz com homens e livros, receio que tenhamos que caminhar muito ainda até que nosso povo faça do livro uma companhia inseparável.

3 comentários sobre “O Brasileiro e o Livro

  1. Engraçado mesmo não é?
    Hoje recebi uma pessoa em minha casa e quando ela viu o punhadinho de livros que tenho ficou admirada pela quantidade de livros em minha estante e disse: “Nossa, quantos livros”!
    Verdade é que tenho menos de 100 livros em minha estante. Isso serviu-me para refletir sobre o assunto. Ela ainda ressaltou e disse: “Ah, eu não tenho pacienência para ler livros”!
    É lamentável ver como o brasileiro não se interessa pela leitura. Aliás, o reflexo disso está nas redes sociais, resultado, uma péssima escrita. Infelizmente, vivemos na época da morte do infinitivo. Todas as frases no infinitivo são feitas: Eu vo come, vo fala, vo joga. Infelizmente, este é o reflexo deixado por uma geração que não ama a leitura.
    Eu ainda estou penando. Falando verdade, aprendi o que era uma óxitona, proxitona, silaba tônica, essas coisas, apenas após minha conversão em Cristo. Antes disso minha mente era bombardeada com garotas, videogame, drogas e baladas. Graças ao Senhor pela Redenção!!!

    Bom, vo continua orano pelos nossos jovis.

    Abraços meu querido irmão e pastor!

  2. situação preocupante, pois vejo que quando somos familiarizados com a cultura literaria, quer seja ela cristã ou secular, nos tornamos mais seletivos com as demais formas de cultura e nossa visão de sociedade muda para melhor.

  3. espero anciosamente nossa biblioteca

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s