Duas Leituras

Caros Leitores, segue mais um trecho do livro. Os textos aqui publicados são escolhidos do livro A PEDAGOGIA DO DESERTO – Um convite ao desconforto. Boa Leitura! 

 

Duas Leituras

O nosso mundo, no que respeita ao planeta, está dividido em duas grandes porções geográficas distintas que chamamos de Oriente e Ocidente. Os termos que se referiam a regiões geográficas acabaram se tornando sinônimo de mentalidades. O Oriente é místico e por essa razão mais espiritualista; o Ocidente, por sua vez, é lógico e materialista. O materialismo ocidental apresenta-nos o homem que supervaloriza o mundo, em sua acepção material, e entrega-se ao hedonismo nas suas mais variadas versões. O misticismo oriental apresenta-nos um homem mais despojado, espiritualizado, com certo desprezo em relação às coisas materiais, espiritualizando a vida em todas as suas formas.

Encontramos, todavia, no oriente, a influência materialista do ocidente, e no ocidente a influência mística do oriente. O ocidente produz ciência, e o oriente produz religião. É praticamente impossível para o homem do ocidente compreender a “lógica” do homem oriental quando, por exemplo, um monge budista ateia fogo ao seu próprio corpo, ou um guerreiro muçulmano entrega a sua vida num ataque suicida, convicto de que a recompensa que o aguarda vale o sacrifício. Esse desprezo e desapego para com a vida no mundo aponta para a importância sobremodo enfática que o homem oriental deposita no além.

De igual modo, quando os orientais observam a leviandade dos modos do ocidente, escandalizam-se em face à maneira tão materialista com que os ocidentais vivem no mundo. Estamos situados em dois extremos. As leituras que fazemos do mundo e da vida são tão diferentes que não parece haver possibilidade de conciliá-las.

Há muitos séculos Aristóteles já divergia profundamente de seu pupilo Alexandre na arena da política externa. Achava o “Intelecto”, alcunha pelo qual Platão o chamava, que não era possível helenizar o mundo oriental como sonhava Alexandre. Era inútil tentar impor a cultura grega sobre o oriente. A distância entre um e outro é intransponível. Alexandre, que mais tarde se tornaria, o Grande, não acatou o ensino do ilustre mentor e, em seu apetite desenfreado por poder investiu contra as terras do oriente, conquistou-as, e até tentou ocidentalizá-las, mas não teve êxito. Ainda que o mundo conhecido de então estivesse sob o controle de Alexandre, a vida não estava. Morreu o homem e com ele sepultou-se também o sonho.

Temos visto em nossos tempos a mesma tendência. O ocidente, capitaneado pelos EUA, tentando impor a democracia e os valores ocidentais no Oriente Médio, pelos meios da força bélica. Certamente Aristóteles ainda deveria ser ouvido neste quesito. Aquilo que o Intelecto percebeu há mais de dois milênios atrás permanece oculto aos poderes ocidentais que insistem em uniformizar as mentes de mundos em conflito.

Esses dois blocos que formam o nosso mundo funcionam quase que exatamente como os dois hemisférios do cérebro humano. Segundo o que hoje é fato, resultado dos avanços da neurologia moderna, o hemisfério esquerdo do cérebro seria o responsável por gerenciar os fatos a partir de uma lógica racional, linear, enquanto o direito administra vida com os recursos da intuição, produzindo compreensões desvinculadas da lógica. São as duas faces, por assim dizer, de uma mesma moeda, dois aspectos fundamentais na composição da mente, os quais fazem da mesma, uma unidade completa e complexa.

Supervalorizar a lógica racional desprezando o valor e lugar da intuição, e vice versa, é um erro grosseiro de juízo. Ambos são importantes para nos providenciar uma conceituação completa do mundo e da vida. Quando desprezamos um e supervalorizamos outro, empobrecemos nossa cosmovisão e nos tornamos reféns do preconceito. E este tem nos matado.

Embora o Ocidente seja jovem em termos de civilização, em termos comparativos, uma vez que o Oriente já apresentava civilização avançada enquanto o Ocidente vivia submerso na barbárie, os bárbaros caucasianos ultrapassaram o Oriente no campo das ciências. Hoje, a tecnologia que floresce no oriente, foi transferida para lá pelo ocidente; por outro lado, tudo o que sabemos de religião no ocidente, foi trazido de lá para cá.

A mente ocidental é materialista e linear, e no seu reducionismo cartesiano venera o racionalismo, ao passo que a mente oriental, espiritualizada e holística, preza a intuição e a mística. Por essa razão, o oriente vem ao ocidente buscar tecnologia e este vai ao oriente buscar religião. Não é, portanto, de admirar que todas as grandes religiões tenham o seu berço na porção oriental do mundo e que a maior parte das conquistas tecnológicas aconteçam no Ocidente! É também notável que o Ocidente seja uma usina geradora de prêmios Nobel, ao passo que o Oriente seja uma imensa incubadora de “santos”.

Não deveria existir tal coisa como razão versus intuição. Poderíamos extrair o melhor desses milênios de reflexão e incansável inquirição, e fazer uso mais inteligente de tão grande acervo de conhecimento acumulado. Possivelmente, construiríamos um mundo melhor e desfrutaríamos de uma vida mais equilibrada, mas, infelizmente, parece que temos seguidamente feito a opção pelas águas perigosas do extremo.

Ps.: Deixe o seu comentário expressando o interesse pela continuação.

10 comentários sobre “Duas Leituras

  1. Certamente, precisamos encontrar o ponto de equilibrio. Acho que estou perto de encontrar o veio de “A Pedagogia do Deserto”!

    Ei mano, estamos te esperando em Sampa!

    Abraços

    Até o próximo trecho!

  2. visão interessante, e vamos continuar a viagem!!!

  3. A Igreja enfrenta o maior desafio da sua história. Retirar o capitalismo e o egocentrismo do “homem do ocidente” e o religioso e de cultura milenar pagã do “homem do oriente”. Que Deus tenha misericordia de nós e envie os seus ceifeiros, não somente com sabedoria mas também autoridade (creio que é isso que nos está faltando) para levar o mundo a Ele.

  4. Como se vê Renan, grande é a tarefa! Abração.

  5. Que texto enxuto! Esse livro não só promete,mas registra, e suas porções aqui nos aguça a folhear e buscar mais. Muito bom. .

  6. AH não posso deixar de mencionar sobre as lindas imagens. Show!

  7. EU TB ESTOU ANSIOSO PARA VER O LIVRO PUBLICADO… VEM AÍ ANO QUE VEM.
    ABC

  8. Tô dentro.

  9. Pingback: Questão de opinião « um dedo de prosa

  10. “Supervalorizar a lógica racional desprezando o valor e lugar da intuição, e vice versa, é um erro grosseiro de juízo.”
    “Não deveria existir tal coisa como razão versus intuição. Poderíamos extrair o melhor desses milênios de reflexão
    e incansável inquirição, e fazer uso mais inteligente de tão grande acervo de conhecimento acumulado.”

    Concordo plenamente com seu pensamento Pr. Luiz !
    O ser humano dia após dia tem criado um largo abismo entre a razão e a intuição. O que não deveria existir. E essa escolha tem gerado consequências visíveis á toda humanidade. Frustração é uma dessas consequências ! Eu também preciso crescer muito (evoluir minhas idéias). O Ser Humano, é “bombardeado” diariamente por diversas idéias; Chega-se um tempo, em que várias pessoas, não conseguem discernir qual é a “ideia certa”, qual das “idéias é a verdade”. Predomina-se a manipulação (persuasão) das idéias; Se fossemos instruídos ainda quando criança sobre o equilíbrio entre razão e intuição seríamos pessoas melhores, consequentemente o mundo seria melhor. (Eu agradeceria se eu estivesse crescido em um mundo onde eu fosse instruída sobre o equilíbrio entre razão e intuição… )

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