Convite a uma viagem

Gostaria de convidar meus leitores e amigos  a participarem de uma viagem através do meu livro mais recente – A PEDAGOGIA DO DESERTO –  que resolvo publicar aqui em trechos ao estilo Folhetim. Boa leitura! Boa viagem!

  

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (a)   

 

 A VIDA NO MUNDO

 

“Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” 

(Raul Pompéia – O Ateneu) 

Vais encontrar o mundo… coragem para a luta.

O desafio de encontrar o mundo é grande demais. Tão grande quanto o próprio cosmo!  O mundo é vasto. A vida é ampla. Vastidão e amplitude de todo e de todos desconhecidas!

Ainda que incompreensivelmente vasto, o conceito de mundo é objetivo. Geograficamente localizável, num primeiro momento o mundo é a casa, que está numa rua, que fica numa cidade de certo país, que por sua vez localiza-se numa das porções de terra a que chamamos continentes…

As fronteiras deste nosso mundo, entretanto, já não se limitam à geografia da belíssima esfera azul onde estamos temporariamente radicados. Nossa imensurável curiosidade aliada a um avanço tecnológico inquieto e sempre crescente, tem nos levado a lançar o olhar para além do nosso quintal, como que movidos por uma estranha angústia, por uma fome por respostas para as quais nem mesmo formulamos bem as perguntas. O resultado deste movimento de inquirição frenética pelo espaço ao redor têm dilatado cada dia mais os nossos horizontes.

Nosso mundo tornou-se mais abrangente. Sabe-se hoje que aquilo que um dia se imaginou ser uma superfície plana apoiada sobre o dorso de elefantes, na verdade é um globo, de proporções mui humildes dentro da escala das grandezas celestes. Longe de ser a vedete e protagonista da trama cósmica, como já se creu, com os astros todos gravitando em torno de si, descobrimos para o nosso próprio espanto, que Terra não é o centro fixo do universo, antes, move-se, juntamente com milhões de outros atores num passo elegante e sincronizado numa imensa e estonteante ciranda.

O conhecimento empírico, baseado na experiência fornecida pelos sentidos, de que a Terra era plana e fixa provou-se enganoso e equivocado. Não deveríamos, todavia, ridicularizar o enorme erro de cálculo dos antigos pois, quem, a partir da simples observação, poderia dizer que a Terra não é plana? Ou que é esférica e se move? Parece que estamos imóveis em nosso lugar, mas, contrariamente à informação fornecida por nossos sentidos, movemo-nos a uma velocidade espantosa de milhares de quilômetros por hora em nossa órbita em torno da estrela que nos capturou em seu poderoso campo gravitacional.

As concepções equivocadas que nos fizeram crer, por séculos, que estávamos no centro, hoje desbancadas, são lembradas como motivo de riso. Temos endereço cósmico bem definido. Aprisionados pela inexorável lei da gravidade em uma órbita inescapável, com localização fixada com precisão, nos movemos, juntamente com nossos vizinhos imediatos, em torno do nosso sol, que por sua vez também gravita ao redor do centro de sua galáxia, que faz parte de um grupo de galáxias vizinhas, que também se movem, num movimento de aparente expansão…

 O Centro Místico

Permanecemos, todavia, no centro místico, sentindo-nos de alguma forma especiais. O princípio antrópico, que afirma que o planeta Terra foi propositadamente preparado para ser um berçário para diversas espécies e especialmente para o ser humano, aponta vários detalhes que parecem confirmar o fato de que a vida como a conhecemos por aqui não seria possível se o planeta não tivesse sido meticulosamente calibrado para tanto.

A menção da Terra, em destaque, na criação do universo, tem sido motivo de milenar discussão entre teólogos e filósofos. A teologia católica, adotando as concepções de Aristóteles (384-322 a.C) e Ptolomeu (90-168), colocou a Terra como centro do universo e em torno dela fez gravitar os astros todos… Sem instrumentos para verificar a veracidade do dogma, engoliu-se o fato forjado, a seco e sem contestação. Não se pode questionar o dogma!

Mas o mundo dá voltas, meu caro! E após tantas revoluções, apareceu Galileu (1564-1642) ameaçando a ordem modorrenta da sua época, afirmando que as coisas não eram exatamente como se pareciam… O homem da luneta ousou questionar o secular equívoco científico e teológico. A Terra não apenas se movia, afirmou, para escândalo dos seus minúsculos inquilinos que a queriam imóvel como uma múmia, como também não era a vedete universal como queriam as autoridades religiosas.

Condenado, retratou-se, mas a Terra nunca mais seria a mesma. Foi deposta. O sistema geocêntrico estava com os dias contados. Aos poucos descobriríamos que, por mais de mil anos, havíamos crido numa inverdade tão imensa quanto as suas pretensões! Destronada de sua tão grande importância cósmica, destinaram-lhe o humilde lugar que lhe cabe, num logradouro distante na periferia do grande tabuleiro de galáxias e corpos celestes…

Ainda que o progresso das ciências tenha avançado para muito além das regiões da fantástica ilusão mítica, parece que nada consegue dissuadir a criatura humana de um senso de importância que a faz sentir-se aparentada com o próprio Criador. Nada poderá mover o homem do centro.

Decifrando Mistérios

Apesar das grandezas e distâncias, o mundo, pra todos os efeitos, é concreto, mensurável, tangível, de magnitudes verificáveis. Numa marcha firme e resoluta, embora não tão rápida quanto gostaríamos, aos poucos vamos investigando e decifrando seus “mistérios”. Temos feito progresso. Não somos mais embalados por fábulas.

O fantástico gradativamente tem dado lugar ao científico. As três principais avenidas do saber, das chamadas ciências exatas, humanas e biológicas, hoje estão muito mais movimentadas do que há um século. Incrementada por novas disciplinas, a ciência tem especialidades para tudo. Já não há lugar para especulações da imaginação, senão nos livros dos ficcionistas.  Marchamos cada vez mais livres da névoa mística, com a firme resolução de destrinchar o mundo.

Demos um salto gigantesco nesses últimos tempos. Uma expectativa eletrizante de um verdadeiro salto quântico está tomando corpo no ambiente acadêmico; as possibilidades reais de conquistas que há tempos eram tidas como produtos de ficção, estarão dentro em pouco invadindo as vidas e prateleiras do cidadão comum, o que certamente vai alterar dramaticamente o modo como as coisas hoje são conhecidas.

A impressão que se tem é que já não haverá limites para tudo quanto intentarmos fazer, mas essa é apenas uma impressão. Mesmo que se tenha por certo que continuaremos avançando no controle dos expedientes do mundo, manipulando a matéria com nosso gênio criativo, ainda esbarraremos no mistério fundamental que é o enigma indecifrável da vida.

Mundo, substantivo concreto

O mundo pode ser quantificado, submetido a equações científicas, explicado por meio de fórmulas. Matematicamente exato, tudo ao nosso redor está numérica e elegantemente organizado! Os números e as fórmulas enquadram o mundo numa moldura e o tornam lógico. É substantivo concreto e por essa razão descritível.

Há um padrão de ordem no universo que despacha a necessidade de qualquer espécie de contorcionismo para explicá-lo. As leis químicas, físicas e demais, nos proporcionam os fundamentos que tornam o mundo racionalmente compreensível.  Não há lugar para o subjetivismo. É verdade que muito ainda não está satisfatoriamente explicado por nossas teorias. São departamentos sob constante e densa neblina. Mas isto é apenas uma questão de tempo, garantem os apaixonados e insones decifradores de enigmas. Continuaremos avançando e decifrando o que um dia foi “mistério”.

É inegável que temos progredido, e muito. A ciência aos poucos vai desvendando os segredos do micro e do macrocosmo. O projeto Genoma, uma das mais fantásticas conquistas da ciência em séculos, segue fazendo revelações surpreendentes do código genético. As possibilidades da engenharia genética, em virtude dessas descobertas, tornam-se inimagináveis. A mecânica quântica, por sua vez, segue fazendo descobertas não menos surpreendentes no campo das partículas subatômicas. A compreensão da estrutura esquemática da matéria orgânica e inorgânica está gradativamente lançando luz sobre o mundo ao nosso redor.

Os livros da natureza que, selados, escondiam os “mistérios” da criação, estão sendo abertos. Avança-se, rápido, em todos os campos. Compreendemos cada dia mais e com mais detalhes, como as coisas funcionam, todavia, não conseguimos esmiuçar o porquê de as coisas funcionarem dessa ou daquela maneira. Ficamos barrados na fronteira entre o mundo e a vida. É-nos permitido acessar os domínios do mundo, mas permanecemos sem a senha que permita adentrar os recintos reservados da vida.

Até o próximo trecho.

Obs. Se voce deseja continuar a leitura desse livro em trechos deixe seu comentário aqui expressando seu interesse. De acordo com o retorno dos leitores o projeto terá continuidade.

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17 comentários sobre “Convite a uma viagem

  1. Eduardo Miranda disse:

    Maravilhoso!

    Não tenho palavras para descrever a sensação que tive ao ler o trecho deste livro. Como amante da astronomia, não pude deixar de ser levado à Glória das Galáxias, Nebulosas (Sou apaixonado pela Redemoinho, acho que é devivo à Extrutura X que se parece muito com a Cruz de Cristo estampada no centro do universo) e estrelas. O Senhor me levou a meditar em Antares, a super estrela vermelha, 15ª mais brilhante no céu noturno (Pena que nesta época do ano, final de novembro, ela quase não tem visibilidade alguma em nosso emisfério), que é centenas de vezes maior do que nosso humilde planeta localizado na via lactea. Quando vejo a magnnetude do universo, bem como sua diversidade e extesão, fico admirado e completamente estarrecido ao pensar na Glória do Grande Arquiteto e Construtor de tudo isso e, ao pensar no princípio Antrópico, seguido da imposíbilidade do surgimento de tudo pelo acado, noto as mãos e o cuidado do Criador em preparar todas as coisas, milimetricamente bem ajustadas e harmonizadas. Como a mãe, ainda grávida, prepara o enxoval para o mais novo membro da família que está por vir, noto, o amor divino, ao arrumar o estraordinário berço do universo, para a chegada do seu mais novo membro da família, o homem!
    Obrigado pelo momento pastor, despeço-me deixando o ensaio de um coro que certamente será aclamado por qualquer um que ler este texto tão maravilhoso:

    Continua, Continua, Continua…

  2. luiz leite disse:

    Certamente vc é o mais empolgado dos meus leitores até agora! Por vc estou certo que devo continuar… abc

  3. Hercules disse:

    Tenho muito orgulho de ter sido gerado pelos mesmos pais que o colocaram no mundo “cabecinha”, estou imprimindo para lê-lo em casa, mas…. certamente… indubitavelmente está no seu nível ESPETACULAR.

    O próximo estará disponível amanhã ?????????????

  4. luiz leite disse:

    Rsss…. sempre me faz rir amantíssimo cabeça. Os trechos serão publicados regularmente.
    Grande abraço.

  5. donizeti garcia disse:

    Muito bom, é uma leitura que realmente te prende, pois ao ler você tb viaja e a coisa vai ficando muito louca.
    Com certeza deve continuar, afinal de contas quero continuar a minha viagem.

  6. luiz leite disse:

    Caro Donizeti, seu comentário é combustível para a motivação do escritor… vamos continuar sim… Grande abraço.

  7. João G. Oliveira disse:

    Magnífico! Gostaria de continuar recebendo. Parabéns pelo excelente trabalho.

  8. Renan Garcia disse:

    Lindo tio…
    Sou louco por ciências e um dos unicos por aqui (pelo jeito) no mundo das “exatas”.
    Essa linha entre vida e ciência é maravilhosa e creio que sempre será um alvo intransponível pela ciência. Enquanto “eles” se descabelam imaginando os porques, nós damos glorias a Deus pela revelação do seu amor e graça. Assim sabemos que tudo foi feito como um presente, no qual só resta a nós observarmos e nos maravilharmos com o amor, delicadeza, sabedoria e ciência do Criador Supremo.
    Te amamos Senhor!!! Revela-te também mais e mais através da Sua criação, até se esgotarem os recursos dos homens e se renderem a ti como Senhor de todo universo e criação…

  9. Olá!
    Será difícil comentar a altura dos outros comentários [que lindo este do Renan!] ou fazendo jus ao que o texto merece…
    Mas enfim, só expresso meu super pedido de que o senhor continue, afinal, sou suspeita para falar sobre o título deste livro né! rs
    Que tenhamos a honra de continuar apreciando tudo isso e dando uma escapadela de nossas rodas vivas!
    Parabens pelo trabalho!

    Hugs!

  10. luiz leite disse:

    Ola Ana, obrigado pelo feed back… Vamos ver o que o deserto tem para nos ensinar então… grande ABC.

  11. luiz leite disse:

    Olá Alvaro. Bem vindo a bordo. A viagem vai ser longa, talvez cansativa em alguns pontos, mas garanto que será muito boa!
    grande abc!

  12. Sueli Cunha disse:

    Oi, pastor Luiz, teu projeto é maravilhoso!
    É impressionante esse olhar obstinado a capturar a magnitude da Criação, é algo que nos fascina… Me lembro de uma velha e atual frase: “O fascínio da vida é descobrir a nós mesmos, e a magia é saber o quanto nos desconhecemos…” É tão maravilhoso quando temos acesso a paixão dos que se dedicam às descobertas, ou as relatam de forma poética, séria, desvelando-se… próprio do artista. Vejo em tua mão o debulhar habilidoso do escritor, munido de conhecimentos, e a arte de guiar-nos no universo dos pensamentos e sentimentos, da magia dos tempos, dos lugares tão conhecidos e indecifráveis pela mente humana. Prossigamos nessa aventura! Parabéns! Abraço afetuoso.

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