A Razão Bifurcada

A Razão Bifurcada

Por Luiz Leite

A razão, dádiva que segundo Agostinho de Hipona nos faz superiores, não deveria nos atrapalhar a vida. Fato é, entretanto, que muito conflito nasce por conta dos princípios equivocados utilizados nos processos mentais responsáveis pela formação de argumentos considerados “razoáveis” pelo indivíduo. Como a verdade é a verdade do sujeito, o que significa que cada um tem a sua, a desavença e o conflito são inevitáveis. Os homens se atritam diariamente na disputa para estabelecer por força do argumento ou pela violência das armas, quem está certo.

Esta boa razão supostamente deveria mitigar a tensão nos impasses e trazer harmonia ao caos. Seria bom se fosse assim tão simples. Complicamos tudo quando assumimos a mediação da razão como suficiente para nos assessorar. Erramos trágica e pateticamente ao nos apoiarmos unicamente sobre ela pois comumente é essa mesma razão que freqüentemente acaba emprestando a fagulha que precipitará a combustão

Esmeramo-nos na estruturação dos nossos argumentos para enfrentar nossos problemas e negligenciamos o mais sutil e fundamental elemento: a sabedoria. Entre uma e outra há um abismo imenso. A razão é bastante pragmática, linear, exata. Esse é o seu grande benefício mas também o seu grande problema. Sem o conselho da sabedoria a razão comete loucuras pois segue uma lógica implacável que esmaga impiedosamente a todos os que se lhe opõem.

A lógica adotada pela sabedoria a princípio é estranha à razão. Por essa causa nem sempre se harmonizam.  A sabedoria tem algo de místico e utiliza-se da fé como recurso para se orientar. Fato é que tanto uma como outra dependem de uma teoria da verdade para se sustentar. Como a verdade do homem fragmentou-se em mil cacos e cada um tomou para si um desses fragmentos julgando ter posse da melhor e mais completa porção é evidente que jamais chegarão a um consenso.

Estabelecer o que é a verdade é o ponto de partida para a solução dos problemas. Jesus, quando interrogado por Pilatos disse para aquele que viera ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos perguntou-lhe:  O que é a verdade? Se o tom foi solene, sincero ou jocoso jamais saberemos. Fato é que o questionamento de Pilatos revela uma dúvida milenar. Foi exatamente em razão dessa dúvida atemporal que muitas teorias da verdade foram desenvolvidas. Quando Jesus veio ao mundo basicamente as maiores e mais importantes teorias já haviam sido concebidas.

Para os empíricos a verdade é apreendida através da experiência prática sendo percebida objetivamente por meio dos sentidos. Os racionalistas por sua vez sustentam que a verdade é alcançada por meio da razão, uma espécie de órgão inato onde estão armazenados todos os conhecimentos necessários para explicar o mundo. Os místicos, entretanto, contrariando os primeiros, apontam para outras fontes que estão além da empeiria (experiência) ou racionalidade humana. A verdade, dizem, só pode ser acessada através da revelação, trazida por uma entidade espiritual procedente daquela dimensão onde reside a realidade e explicação última das coisas.

Ainda que empíricos e racionalistas façam concessão uns aos outros nesse ou naquele aspecto acerca do acesso à verdade, ambos torcem o nariz às razões dos místicos, deixando assim a razão bifurcada. Partindo de pressupostos tão diferentes acerca do mesmo objeto é natural que tenha conclusões também distintas. A religião sempre suspeitando da razão e com um forte discurso sobre a sabedoria está sempre a acenar para a criatura humana convidando-a a abraçar a fé e partir para uma aventura para além dos domínios da razão e da experiência sensual. Uma vive a desdenhar da outra.  A fé ri-se da razão e a razão e esta por sua vez não é menos cruel com aquela.

Assim, a crendice, discursando sabedoria preciosa e oculta arrasta o homem para os domínios da mística; a incredulidade dos ímpios, apoiada sobre a razão, esforça-se para tirá-lo de lá, num movimento constante como se numa disputa de “cabo de guerra”, com a diferença de que neste caso não se trata apenas de um recurso lúdico para passar tempo. Esse é jogo é, literalmente, um jogo de guerra.

Se perguntarmos por que não existe a possibilidade de harmonizar esse binômio conflituoso, encontraremos respostas na velha e boa bíblia. É lógico que esse parágrafo vai fazer o incréu protestar. Existe uma lógica divina e outra satânica. A lógica divina assenta-se sobre princípios que não se adequam aos padrões da razão natural. Desferindo golpe letal a toda forma de materialismo, a lógica divina deposita uma ênfase especial sobre o outro. A lógica diabólica por sua vez busca os seus próprios interesses, princípio sobre o qual se fundamenta todas as versões de violência que aprisionam o homem em cadeias de eterno conflito.

Qualquer observador da trama social pode identificar essa dualidade sem muito esforço. A doutrina do ego (egoísmo) baseada sobre aquela velha e inexorável razão linear, e a doutrina do outro (altruísmo), estabelecida sobre os pilares de uma lógica que não produz as vantagens esperadas numa disputa. Ficam  estabelecidas aí de modo perfeitamente claro o lugar exato onde a razão cindiu-se em dois ramos conflitantes. A razão divina obedece a uma lógica diferente daquela que encontramos regendo as relações humanas de modo geral.

Todos seguem um padrão de comportamento que revelam o fundamento ético que dirige suas ações. No fim das contas, o que vale mesmo não é o discurso, a menos que esse seja revestido de carne e sangue na arena prática da vida diária. Para assegurar consonância entre o discurso e a praxis Jesus orientou: Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mt 7.12) Eis a sabedoria da lógica divina.

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