O Desatino da Toga

O Desatino da Toga

Por Luiz Leite

Dia desses acordei sobressaltado com o som desagradável do meu interfone que berrava escandalosamente nas primeiras horas do dia.  Ao atender, a voz do outro lado mencionou meu nome por completo, buscando saber se se encontrava em casa o referido senhor. Confirmei que sim. Era eu o dono do nome. 

Oficial de Justiça! Carteirou de lá a voz, infomando que havia uma intimação para mim. Algo atarantado, ainda meio sonolento, desci as escadas vasculhando minha memória recente em busca da razão possível para tal intimação. Não encontrei. Certa aflição procurou assumir o controle do redemoinho interno e capitalizar o incerto, mas logo o oficial de justiça esclareceu a razão da intimação. Acalmei. Havia sido citado como testemunha em certo caso litígioso.

Como nunca havia estado em situação parecida, aguardei o dia da audiência e lá fui, cumprir a ordem do juíz, sob pena de prisão e multa por não comparecimento. Chegada a data e hora daquela agenda compulsória lá estava eu no forum como um cidadão exemplar para cumprir com aquela desagradável obrigação. Dirigi-me à assistente do juíz para me certificar de que estava no lugar certo. A moça confirmou dizendo que sim mas havia um porém: Aquela audiência fora cancelada. Ali teria início uma audiência não agendada.

Sentindo-me absolutamente desrespeitado disse:

– Como é? Voces me visitam com uma intimação para comparecer a uma audiência sob ameaça de prisão pelo não comparecimento, alteram meu itinerário, atropelam minha agenda, e nem se importam em me comunicar qua a tal agenda foi cancelada?

A moça tentou argumentar sem argumentos. Infeliz  empreitada é esta quando tentamos justificar o erro recorrendo a argumentos sem sustentação sólida. Fazemos assim por que é muito difícil para nós nos humilhar, pedir perdão, reconhecer o erro e nos dispormos a reparar o prejuízo do outro.  Enquanto isso, o juíz conversava com dois advogados  e ao mesmo tempo ouvia minha conversa com a sua assistente. A moça disse:

– A audiência foi cancelada porque as partes entraram em acordo.

Eu retruquei:

– Que bom, mas, e eu? eo o meu tempo, deslocamento, custos?

Ela disse:
-Neste caso podemos emitir um atestado para o senhor…

Ao que respondi:

– Um atestado não resolve esta situação…

Neste momento o juíz entrou na cena com a truiculência de um quarter back de futebol americano e bradou:

– E o senhor queria que eu fosse em sua casa lhe informar é?

Respondi impaciente:

– Bom seria, pois isto é uma falta de respeito!

O juíz, bufando por sentir-se contestado, coisa com que não deve estar acostumado, revelando um profundo despreparo emocional, já foi me ameaçando com voz de prisão, dando um show ridículo de abuso de autoridade. Disse:

– Veja lá como o senhor fala aqui na minha corte pois posso te dar voz de prisão!

Os ânimos nessa hora estavam aquecidos. Ao invés de me intimidar a fala do juíz causou-me indignação ainda maior. Respondi com veemência:

– O quê??  O senhor sabe muito bem que isto é errado. Eu me desloquei até aqui para cumprir sua ordem judicial. Do mesmo como esta casa me intimou para vir deveria me comunicar do cancelamento da audiência, me liberando desse encargo.

O homem da toga, visivelmente transtornado me mandou sair de sua sala e mandou vir os seguranças para me conduzirem. Nisto, eu que já ia me retirando retornei um pouco mais revoltado e disse para o magistrado:

– O senhor sabe bem que estou no meu direito e que apenas reivindico respeito para com a minha cidadania. Isto é um flagrante desrespeito a mim como cidadão.

Mais uma vez ele se alterou e ameaçou me prender pra valer. Eu ainda me sentindo ultrajado disse:

– Há quatro testemunhas nesta sala que sabem que em nenhum momento eu desacatei o senhor. O desacato aqui é dessa casa para com este  cidadão!

Nisto ele deu um sorriso amarelo, sem graça, como que percebendo que não estava lidando com um qualquer que ignora seus direitos fundamentais e disse:

– Peço ao senhor que tenha a gentileza de sair da minha sala.

A isto respondi:

– Agora o senhor falou certo… de acordo. Agora eu vou.

E sai chocado com a falta de controle daquele a quem comumente tratam como “V. Excelência”. Com isto fiquei mais uma vez convencido que capacidade intelectual nada tem a ver com maturidade, refinamento, sabedoria. Ficou clara a impressão de que estava diante de um péssimo representante da classe. Talvez esta tenha sido uma pequena amostragem daqueles que enxovalham o judiciário, matando de vergonha aqueles que verdadeiramente tem a nobreza necessária para receberem a deferência com que devem ser tratados. Infelizmente há sim cartas marcadas, sentenças compradas, juízo iníquo, parcialidade na balança, dois pesos e duas medidas ferindo o princípio mais fundamental deste nobre ofício  que deveria ser tido como sacerdócio por aqueles que o abraçam.

Neste quadro, por conta de alguns, o juízo é distorcido, a verdade enterrada; os poderosos se safam, os pequeninos são penalizados, a lei é burlada e a justiça capenga. Como falou Miquéias: “As suas mãos fazem diligentemente o mal; assim demanda o príncipe, e o juiz julga pela recompensa, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles tecem o mal.” 

Um comentário sobre “O Desatino da Toga

  1. Infelizmente, essa é a índole dos nossos magistrados!

    Bem dizia o poeta:

    “Que País é esse?”

    Mas vamos lá, como Igreja de Cristo na Terra traremos a Espada de dois Gumes e desferiremos golpes na injustiça desta terra.

    Que o Senhor Reine sobre nós!

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