Antes de Irmos ao Púlpito

 

 

 

 

 

 

Antes de irmos ao púlpito

Por Luiz Leite  (Artigo publicado na coluna pastoral da Revista Eclésia, edição Mar/2011)

Dia desses recebi um daqueles muitos emails repassados que diariamente enchem nossas caixas de correio eletrônico e que nem sempre abrimos por serem tantos e por não termos tempo para dar atenção a todos. Trazia um título explosivo: “Troque um parlamentar por 665 professores!” As razões apresentadas no panfleto eram suficientes para justificar o brado de revolta. Lembrei-me da antiga canção do Vandré, convidando a juventude para uma revolução… Essa não é a primeira “campanha” que vejo circulando por aí nesse imenso forum virtual que a internet propõe. É decepcionante observar que, apesar de denunciarem práticas que suscitam indignação e repúdio, os revoltosos que à primeira vista pareciam absolutamente resolutos a trasntornarem a ordem, logo deixam a causa pra lá e, qual desertores, abandonam a luta e vão cuidar de sua própria vida.

Lembro-me que em viagem do Rio a Salvador no início dos anos 80, quando mergulhados em uma das muitas crises econômicas pelas quais passamos, mantive uma discussão acalorada sobre política e economia com um alemão que viajava ao meu lado; Na verdade, eu viajava do lado dele. Eu funcionário e ele diretor da multinacional alemã onde trabalhava naqueles dias. Resolvi romper a barreira e iniciar uma conversação. O “Fritz” entrou na conversa. Quando deixei transparecer a orgulhosa veia patriótica ao afirmar que o Brasil seria uma superpotência, o alemão respeitosamente disse que duvidava, e pior, ou melhor, com a fria franqueza germânica apresentou um rosário de motivos que atingiu minha jovem e afogueada pretensão… “Vocês não tem disciplina – dizia ele em seu português claudicante – nem disposição para brigar!

Calei-me diante daquela terrível opinião. Pensei comigo: “Então é assim que nos vêem?” Fiquei remoendo ressentido as palavras do branquelo e a partir daquele dia tomei antipatia por ele (é mesmo assim que costumamos fazer quando alguém ousa nos dizer verdades que incomodam). A conversa logo tomou outro rumo com a intervenção do piloto que anunciava os procedimentos de pouso; dentro de alguns minutos estaríamos aterrissando em Salvador. Quando o comandante mencionou o calor que fazia na capital baiana, desejando aos turistas uma excelente estadia, comecei a sentir uma “leseira” só de pensar nos dias de trabalho duro que teria pela frente… Apertei o cinto e pensei comigo mesmo, “O alemão tem razão, nós não queremos tomar a bastilha coisa nenhuma…Vamos adiar a revolução…”

As vezes ouço pessoas inconformadas dizerem: “Estou cansado(a) desse país!” como se houvesse alguma coisa de errado com nossa querida terra brasilis; Pois garanto que não há! Se alguém quiser sustentar o argumento de que esse país não é maravilhoso, vai fracassar pateticamente diante das provas arrasadoras reunidas por qualquer um que atue como advogado de defesa. O problema nunca foi o Brasil! Esse país é abençoado demais!

Os convites ao levante não surtem efeito porque os brasileiros parecem seguir uma lógica que opta sempre pela lei do menor esforço. Somos explorados da maneira mais vexatória, submetidos a uma carga tributária abusiva, pagamos caríssimo por itens que, não fora a rapinagem legal do Estado, sairiam por muito menos… Juros abusivos, impostos abusivos, serviços de péssima qualidade, direitos descaradamente desrespeitados e ultrajes sem fim, e ainda assim nos calamos.

Reconhecemos que precisamos de uma revolução, mas revolução requer um preço que geralmente não estamos dispostos a pagar: sacrifício. De algum modo sabemos que não existe revolução sem desgaste, desconforto, cansaço, riscos… Se pensarmos bem, necessitamos de revoluções em vários aspectos. Nossa vida pessoal, ministerial, familiar, nacional… Se quisermos ver mudanças reais em qualquer dessas áreas teremos que articular os elementos necessários, mobilizar esses elementos e permanecer firmes no propósito de execução das decisões tomadas. Tudo isso dá muito trabalho. Diante dos desafios não é raro a desistência e deserção. Voltamos para o enganoso conforto oferecido pela mediocridade e nos entregamos à resignação comum aos vencidos. Adotamos a filosofia da indolência que se traduz por algo do tipo:”vamos deixar como está para ver como é que fica.” Protelamos. 

O termo revolução compreendido em seu sentido original trás uma explicação surpreendente. Revolução, do latim ‘revolvere’, de onde temos a palavra ‘revolutio’, é o ato de re-volver, ou seja voltar atrás, retornar ao ponto de origem, voltar ao lugar a partir do qual as coisas perderam o rumo. Não constitui, portanto, um movimento para frente. Isto envolve o duro exercício de nadar contra o fluxo. A bíblia nos apresenta em vários textos um convite à revolução no seu sentido mais original. Uma das mensagens centrais do Evangelho é o arrependimento. Arrepender-se é mudar de mentalidade, voltar atrás na prática do erro qualquer que seja.

Dois textos em especial me vem à memória. Primeiro aquele encontrado no livro do profeta Jeremias. “Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele.” (Jr 6.16) O estado do povo de Israel era tão grave que medidas cosméticas apenas não resolveriam. Precisavam de uma revolução! A solução está em perguntar pelas veredas antigas.

Do mesmo modo o Senhor adverte os crentes de Éfeso, sugerindo a revolução como escape. “Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e volta a pratica das primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres.” (Apoc 2.5)  Se sabemos que as coisas não estão bem, precisamos fazer alguma coisa a respeito. A pergunta é se teremos disposição suficiente para arcar com o preço que as mudanças demandam. Se não estamos dispostos a fazer algo, então é melhor pararmos de sair por aí criticando pessoas e instituições. Não existe entidade problemática, quer seja família, empresa ou igreja; Existem indivíduos problemáticos. Precisamos escolher o nosso papel. Podemos fazer parte do problema ou compor o time da solução. Como o problema passa sempre pelo nível do indivíduo, bom seria se iniciássemos essa revolução lá em casa, antes de irmos ao púlpito ou à tribuna!

6 comentários sobre “Antes de Irmos ao Púlpito

  1. Tõin! Eita cassetaaaada!Eu “gostio dissu, munto”. Huahuahua. Dálhe. Quer dizer, dá-nos. Quem não precisamos aprender???? E o sacrifício não é mamão com açúcar não. kkkkkkk

  2. belo texto, infelizmente nos acomodamos em nosso “berço esplendido” e só nos sentimos encomodados quando nosso time de futebol perde…

  3. Pois é…
    O senhor, com o “seu eu subversivo”, tem alguma dica pra nos dar?

    Bem, eu recebo por email algumas noticias de uma rede chamada Avaaz.
    Segue abaixo a ultima barbarie em evidencia…
    O STF decidiu ontem: a Ficha Limpa só será válida para 2012.

    O Ministro Luiz Fux quebrou todas as expectativas e frustrou a sociedade brasileira ao dar o voto do desempate que liberou os corruptos barrados a assumirem seus postos no Congresso Nacional. Ao ser apontado para o STF, o Ministro Fux elogiou a Ficha Limpa dizendo que ela “conspira a favor da moralidade”. Somente ontem ficamos sabendo do seu verdadeiro posicionamento.

    O voto do Ministro Fux significa que corruptos famosos como Jader Barbalho, João Capiberibe e Cássio Cunha Lima irão assumir seus cargos. É um tapa na cara da sociedade brasileira que lutou árduamente pela aprovação da Ficha Limpa.

    Vamos dizer para o Ministro Luiz Fux o que pensamos, clique abaixo para enviar uma mensagem para ele:

    http://www.avaaz.org/po/mensagens_luiz_fux/?vl

    Cinco Ministros do STF, o Ministério Público Federal e o Tribunal Superior Eleitoral, todos analisaram a Ficha Limpa e concordaram que a sua validade para 2010 é plenamente constitucional. Até a Ministro Fux ser apontado havia um empate de 5 juízes contra e 5 a favor da validade da Ficha Limpa para 2010. Ele deveria ter quebrado o empate favorecendo o povo brasileiro, não os interesses dos corruptos.

    Brasileiros de todos os cantos do país se uniram em uma escala fenomenal e lutaram bravamente para aprovar a Ficha Limpa. No começo poucos acreditavam que ela seria aprovada, mas juntos nós pressionamos os deputados durante todo o trâmite da lei no Congresso, garantindo que a Ficha Limpa finalmente se tornasse lei. E nós vencemos. Mais de 2 milhões de nós fizemos isto acontecer. O entusiasmo pela aprovação da Ficha Limpa tomou conta da mídia e da sociedade, simbolizando uma nova era na política brasileira.

    O Ministro Luiz Fux foi bem recebido pelos grupos da sociedade civil como um “apoiador da Ficha Limpa” porém ontem, ele decepcionou a todos nós.

    Este não é o fim desta história, ainda temos um longo caminho a percorrer para consertar a política brasileira, acabar com a impunidade e finalmente ter políticos decentes nas urnas. Não será fácil, mas este é um movimento do povo brasileiro e com determinação, nós temos o poder de gerar as mudanças a longo prazo que o nosso país tanto merece.

    Com esperança,

    Alice, Graziela, Ben, Laura, Milena, Pascal, Ricken e toda a equipe Avaaz

    Leia mais:
    Presidente da OAB diz que voto de Fux ‘frustra sociedade’:
    http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5025086-EI7896,00-Presidente+da+OAB+diz+que+voto+de+Fux+frustra+sociedade.html

    Validade da Ficha Limpa em 2010 é um ‘acerto’, diz procurador:
    http://www1.folha.uol.com.br/poder/892859-validade-da-ficha-limpa-em-2010-e-um-acerto-diz-procurador.shtml

    Eles estão de volta: Jader, Cunha Lima e os Capiberibes:
    http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2011/03/23/eles-estao-de-volta-jader-cunha-lima-os-capiberibes-370720.asp

    A Avaaz é uma rede de campanhas globais de 5,6 milhões de pessoas que se mobiliza para garantir que os valores e visões da sociedade civil global influenciem questões políticas internacionais. (“Avaaz” significa “voz” e “canção” em várias línguas). Membros da Avaaz vivem em todos os países do planeta e a nossa equipe está espalhada em 13 países de 4 continentes, operando em 14 línguas. Saiba mais sobre as nossas campanhas aqui, nos siga no Facebook ou Twitter.

  4. Paz Pastor,

    Pura e simples verdade… Brasileiro é otimo em reclamar, mas pessimo no agir…
    Trabalho a anos em empresas alemãs e sinceramente da vergonha “dos cara”, eles estão realmente a alguns anos luz de nós. Só ver o tanto de vez que já REconstruiram o seu pai, nem do zero mas sim do negativo. Nós nem ainda construimos um pais decente e igualitário ainda.
    Acho que o maior problema do brasileiro (meu) e a falta de auto-estima, não temos aquela mentalidade de que apenas um pode mudar a historia. Sendo mediocres nos comparamos ao todo, no qual NUNCA fará nada.
    Paz,

  5. Se for pra comentar o artigo eu quero dizer que o Brasil é Colonia. Foi educado para ser passivo. Politicamente orientado para ser colônia. A Independência é duvidosa. A Petrobrás está tentando passar uma visão de soberania, mas só Deus sabe o quanto somos favoráveis às potências. As prefeituras do Brasil,com exceção de algumas poucas, praticam o colonialismo e não constroem comunidade a partir de conscientização. Eu, estou pensando como eu faço em minha cidade para protestar sem colocar minha família em risco. Acho que estou deixando de ser “colônia”. Revolvere!

  6. Mandou bem! deixemos de ser colônia!! Anime-se e comente mais…

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