Os Santos da Minha Época

 

Os santos da minha época

Por Luiz Leite

Admiro Beda, o venerável, inglês de boa memória que fez história entre 672 e 735  a.D. São Beda distinguiu-se não só pela espiritualidade mas também pela erudição em um tempo de poucas letras quando a Europa encontrava-se invadida por hordes bárbaras após a queda de Roma (476 a.D.). Como uma tocha acesa na escuridão espiritual e intelectual da idade chamada das trevas surge Beda. Só para começar o próprio nome, “beda”, do saxônico, significa “oração”. Uma frase dele foi suficiente para me cativar. “Vivi  bastante, – disse ao aproximar-se da morte – e Deus tem disposto bem da minha vida.” 

A frase chama a atenção num tempo em que a fé precisa de reflexão. Os santos da minha época não vão à igreja para servir a Deus, mas antes para servir-se Dele. Movidos por ambição de sucesso e projeção e munidos da convicção de que Deus deve satisfazer-lhes os desejos, não hesitam em apresentar ao Altíssimo suas demandas e “direitos”. Quando a sorte lhes acena, correm deslumbrados para as luzes, travestidos de risível deslumbramento e afetada importância.

Beda, quando convidado pelo papa Gregório II para mudar-se para Roma, não se permitiu seduzir pelo sorriso traiçoeiro da fama e suplicou ao sumo pontífice que lhe permitisse permanecer na simplicidade de seu mosteiro em Jarrow. Essa atitude de santos de verdade é ilustrada, entre outros, na vida de Ildefonso (606-667 a.D.), que tendo sido escolhido pelo clero e demais fiéis para assumir o bispado de Toledo, Espanha, escondeu-se tendo que ser conduzido sob escolta para a consagração episcopal.

Enquanto alguns maquinam e até conspiram para aparecer e capitalizar seus minutos de fama ao lado de pessoas de prestígio, outros se esforçam na direção contrária. Ildefonso como Beda, não cairam no flerte com a vaidade pelos cargos e posições de enganosa famosidade. Não precisavam disso. Teriam aprendido essa desastrosa tecnica de marketing pessoal com Jesus que geralmente insistia com as pessoas que não espalhassem o milagre nelas operado por intermédio dele?

Os santos da minha época são diferentes… Amam as oportunidades de aparecer, de projetar seus egos inflados e mostrar quão importantes são… É óbvio que há excessões, mas essas tais são raras. Os santos da minha época amam os primeiros lugares na sinagoga, disputam posição e atenção, e não hesitam em puxar o tapete de quem ameaça seu projetinho de poder. É claro que há excessões, mas repito, são raríssimas… Os santos que fazem sucesso na minha época são estrelas e empresários bem sucedidos. Falam bonito, e ainda que rasos em erudição, são capazes de eletrizar audiências inteiras com discursos inflamados, mas sem quebrantamento, pois os santos da minha época não sabem o que é isso… É uma geração de olhos secos. Sinto-me estranho e deslocado nesse tempo; Acho que nasci na época errada! 

 

 

10 comentários sobre “Os Santos da Minha Época

  1. Gloria Deus pela sua vida Pastor.
    senti-me muito emocionado ao ler este post e lembrei da frase de David Brainerd, quando já doente, foi convidado a assumir o pastoreio de uma igreja na cidade e desfrutar do conforto e comodidade, ele não apenas rejeitou, mas disse:

    “Eis-me aqui, Senhor, envia-me a mim até os confins da terra; envia-me aos selvagens do ermo; envia-me para longe de tudo que se chama conforto da terra; envia-me mesmo para a morte, se for no teu serviço e para promover o teu reino…”

    Sabe, as vezes me dá um certo senso de inutilidade no serviço do reino que chego a ficar meio abatido, mas quando olho para os luzeiros que foram antes de mim e alguns que ainda alumiam a escuridão, encontro não só coragem para continuar, mas um desejo ardente de viver para Ele que me rasga a alma.

    Que Deus continue usando seus luzeiros.

    Obrigado Pr. Luiz

    Abraços

  2. Prezado Luiz a intelectividade do texto em tela introduz gota a gota o prazer da leitura, tornando-se por isso mesmo um veículo para consolo de muitos que ministram em simplicidade e sinceridade. Além da prefalada capitalização do prestigio, ainda, nos espanta o pitiatismo atual enganosamente denominado “poder de Deus”.
    O poder de Deus é exteriorizado pelo evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo que infelizmente não se encontra mais em grande parcela dos que afirmam crer; parece-me que vivemos o ocaso do cristianismo bíblico.
    Atualmente o que é chamado de cristianismo parece-me, sinceramente uma “MATRIX” d’onde somente escapam os que optam pela pílula vermelha oferecida por Cristo.

  3. caro Carlos como sempre enriquecendo o debate com comentarios excelentes… parabéns!

  4. Eduardo voce está fazendo um excelente trabalho aí em SP e estou muito contente de ter
    gente como voce neste ministério… Prossigamos nos guardando da sedução da teologia enviesada…
    tenho saudade do Deus dos antigos!

  5. Certa vez ouvi de um pastor:

    O povo pergunta: “Onde está o Deus de Elias?”
    Ao que Deus responde: “Onde estão os Elias de Deus?”

  6. Sinto o mesmo pastor, vivo longe e penso muito como será se um dia voltar aos púlpitos brasileiros. Me sinto no tempo e no espaço errados. Obrigada por falar por tantos de nós.

  7. Graça e paz pastor,

    tudo bem? Achei você. O seu Blog é muito interessante e li com prazer alguns artigos. Convido o senhor a visitar o meu blog que não é muita coisa tambem por falta de tempo. Já fui na sua Igreja para te visitar uma quinta-feira que eu não estava lecionando,mas voce estava viajando….quem sabe que um dia eu não consiga dar um pulo…Deus te abençõe.
    http://www.matteoattorre.blogspot.com/
    Matteo Attorre

  8. que realidade meu caro , precisamos rever o “cristianismo”de nossos dias , faço minha tuas palavras quando disse que nasceu em epoca errada.
    que DEUStenha misericordia de nós!!!

  9. Um sujeito antigo que atendia pelo nome de Descartes considerava o bom senso ou a razão, ou ainda, o raciocínio límpido como a melhor coisa a ser compartilhada no mundo. O prefalado senhor creditava a tal premissa a capacidade de facultar a todos a vigorosa capacidade de discriminar o verdadeiro do falso tornando todos os homens, independentemente de sexo, cor ou religião, iguais. A razão é formalmente igual em todos, os que os distingue é a sua aplicação, porquanto essa tinha seu nascedouro nos costumes, na religião, nos conhecimentos adquiridos. A razão iguala, as opiniões diferenciam os homens. Eis por que Descartes laborou profundamente no intuito de estabelecer um método que possa ser seguido por todo e qualquer homem, independentemente de nacionalidade, crenças sexo, etc. Esse nosso amante da sabedoria expõe a sua experiência de vida como uma experiência filosófica, que possa ser analisada e imitada por qualquer um no livre ato do uso de suas faculdades de descriminar o verdadeiro do falso. Trata-se, por tanto, emular o livre uso da razão.
    Pr. Luiz Leite ler seus artigos faz-me bem, sinto-me tomando um café com “leite” na companhia de um Luiz Descartes. Que Deus lhe capacite com mais e mais inteligência espiritual.
    Abraços.

  10. obrigado Carlos pelas palavras generosas… seus comentários me fazem bem e sempre acrescentam. abração fraterno.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s