Solidão Improvável – diários

 

Solidão Improvável – diários

Por Luiz Leite

A solidão completa não é algo fácil de se alcançar. Geralmente só a consigo de forma parcial. Recolhido neste ermo faço-me acompanhar por um mundo de outros seres que compartilham comigo o mesmo espaço. Venho para este lugar para estar só mas sempre me vejo cercado de muita “gente”. Não chegam a ser um estorvo; são bichinhos de todas as espécies, formiguinhas, borboletas, libélulas, garças, bem-te-vis, patos selvagens, aranhas… Não consigo me colocar à parte; sou parte inseparável deste todo, disso tudo… Sem palavras verbalizadas, em silêncio, ainda assim ouço vozes… não compreendo o código dessa comunicação frenética mas sei que estão “conversando”; do que falam?

Platão dizia que a filosofia começa com a admiração, Aristóteles, por sua vez, sustentava com que é com o espanto. Não vejo razão para bifurcar essa estrada. Tanto me admiro como me espanto diante do quadro que envolve a minha solidão improvável neste canto de jardim onde regularmente me refugio, num exercício de fuga e confronto de mim e para comigo. A cena bucólica transmite uma beleza pacífica, harmônica, mas a amostragem desse Éden não resiste por muito tempo aos olhos da observação do homem embasbacado que torno-me nesses momentos de contemplação. Enquanto removia com movimentos gentis ou um sopro pequenas formigas que , curiosas, subiam por minhas pernas e braços, observei com espanto uma cena predatória das mais chocantes.

Uma aranha grande explorava uma parte da minha perna; ao invés de enxotá-la fiquei por um pouco observando maravilhado o movimento grácil das suas muitas perninhas; logo em seguida notei que outra aranha menor, desavisadamente se dirigia rumo à grande. A grande a percebeu e lentamente foi ao seu encontro. Eu observava curioso para ver o que se passaria em seguida. Certamente, pensei, vamos ter uma saudação amistosa como aquelas que acontecem entre as formigas… Engano. Não imaginava que estava diante de uma caçada. A aranha grande aproximou-se da pequena e… devorou-a diante dos meus olhos assustados. Um entomologista teria esperado pelo desfecho desse encontro trágico sem qualquer surpresa, mas o leigo… ao leigo resta o choque, a perplexidade, subprodutos da ignorância.

Essa tragicidade, porém, é relativa. O elemento trágico só poderia existir na leitura daquele que foi devorado; como não podia entrevistar a presa, uma vez que a mesma já não podia fornecer qualquer impressão sobre o evento, restava apenas ouvir a opinião da predadora. Esta certamente daria uma versão absolutamente animada do acontecido; desceria aos detalhes, e em minúcias descreveria o prazer extraído da sensação de sucesso alcançado em sua caçada. Eu que sou filho de um caçador, lembro-me bem das histórias e estórias ouvidas ao redor da fogueira em uma infância distante, quando meu pai e seus amigos relatavam com imensa satisfação suas caçadas bem sucedidas.

A natureza é bela, mas pode ser tanto pacífica quanto violenta, tanto inspiradora como chocante… Lições preciosas tomadas aqui neste seminário fantástico de um homem só revelam que há algo de muito errado neste mundo… A cena que acabara de assistir levou-me a questionamentos que não estavam na pauta do meu banho de sol à beira do lago. Aquilo que deveria ser um exercício de meditação suave, transformou-se num turbilhão feroz de pensamentos. Pude, enfim, aprender algo. Enquanto apenas contemplava a natureza ao meu redor, experimentava uma sensação de unidade com o Criador. Concluí que a observação contemplativa da natureza conduz à teologia; já a olhar investigativo leva à filosofia. Quando a observação investigativa parte para uma abordagem descritiva faz-se a ciência. Destas três tenho uma quedinha especial pela filosofia, pois de todas é a única que ri de si mesma. Os próprios filósofos definem do seguinte modo o seu nobre labor: “Filosofia é a ciência sem a qual ou com a qual o mundo seria tal e qual.”  Não é mesmo engraçado?!

8 comentários sobre “Solidão Improvável – diários

  1. Leite… Leite… te ler é ter-te sem lei. hehe.

    Ah… posso pegar esta foto para colocar na minha postagem? Vai caber direitinho.

    Um abraço

  2. Rosa, voce ja é uma quase dona do meu blog… fique a vontade…

  3. Um prosador do Arcadismo? rs
    Olha só… Que texto mais doce de ler!
    Sempre supreendente.

  4. Eu quase dona de seu blog? Ai Meu Deus!!! kk

  5. Mente doce mente, aos pensadores cabe mostrar as coisas que nós simples leitores não conseguimos ver.
    ISTO É INCLIVEL.

  6. na verdade todos podem ver, mas nem todos tem disposição para observar… valeu pastor!

  7. Amei pastor! Lembrei-me de um quadro, em tempos idos, que dizia: “Uma pausa na dança”, pessoas com vestes específicas, assentadas no chão, simplesmente alí, paradas; Ao contemplar aquele quadro, pude perceber o “movimento” da própria vida… enfim, as vezes temos que parar para percebermos a “dança”…
    Aquele momento marcou de uma forma fantástica a minha vida, e eu soube que seria, e foi, um “divisor de águas”… mas naquele “exato momento” pude então compreender!
    Abração!

  8. é isso mesmo sueli. temos que parar, sair da cena… só assim podemos compreender algumas poucas coisas aqui e ali… abração.

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