Diários – Paquistão

 

Diários – Paquistão (Nov 2009)

Por Luiz Leite

Cheguei, finalmente, ao Paquistão, a “terra dos homens santos”. Como não encontrei vôo direto da Índia, resolvi viajar até a cidade mais próxima da fronteira e fazer a travessia a pé. Tomei um trem em Nova Delhi com destino a Amritzar e parti. Ao entrar no meu vagão, olhei para os lados e me senti absolutamente estranho no meio daqueles rostos morenos e cabeleiras negras. Era o único cara pálida naqueles cantos, pensei. Qual não foi minha surpresa ao avistar um europeu vindo em direção ao lugar onde eu estava. Checando a passagem e o número da poltrona, dirigiu-se a mim em inglês, pedindo licença para assentar-se.

A viagem, que tinha tudo para ser longa e cansativa, acabou resultando agradável e rápida. O companheiro de viagem era um jornalista espanhol, de Barcelona, a caminho do Paquistão, com a finalidade de cobrir os conflitos na região. Viajava sob o “disfarce” de professor, uma vez que jornalistas não são bem vindos nesses dias por lá. Conversamos longamente por horas a fio enquanto o trem percorria as intermináveis planícies daquela parte da Índia. Percorremos os domínios da história, filosofia, religião, economia e política…

O espanhol, ateu, teve dificuldade de entender minhas razões para visitar o Paquistão. Não cabia em seu entendimento o que um missionário cristão tinha a acrescentar numa situação como aquela! Nossas posições experimentaram momentos de impasse e turbulência até que apresentei-lhe alguns textos bíblicos. Teve a humildade de confessar-se impressionado com alguns dos textos apresentados e reconhecer que desconhecia aquelas palavras… Forçou-me a dar garantias que tais e tais coisas estavam mesmo escritas na Bíblia. Como a Palavra não volta vazia…

Chegamos, depois de horas de burburinho e desconforto, à Amritzar. A cena era idêntica a tantas outras em qualquer grande centro urbano na Índia. Gente, muita gente, para todos os lados, e um assédio infernal ao turista por parte dos taxistas e ambulantes. Depois de muito cansaço e stress conseguimos finalmente chegar a um acordo com um dos taxistas e tomamos a estrada em direção à borda. Inimigos jurados, Índia e Paquistão vivem em estado de alerta e a tensão se faz sentir de modo especial na região fronteiriça.  A tarde caía quando finalmente deixei a terra exótica e descontraída dos muitos deuses para adentrar o recinto grave da  república islâmica.

A passagem de um lado para outro foi algo tensa, mas por fim, vencidas todas as etapas, lá estava eu, em território paquistanês, sentado numa cadeira empoeirada em uma barraquinha nas proximidades do posto da fronteira, compartilhando com um enxame inacreditável de moscas um chá com leite;  Senti uma melancolia milenar enquanto, sentado naquele fim de mundo, observava um pôr de sol marcado pela cantiga chorosa de um mulá que do alto de minarete qualquer fazia sua prece. O fato de estar em um dos países mais explosivos da terra não me preocupou. Estava absolutamente tranquilo. O espanhol, preocupado com a noite que caía, disse que não correria qualquer risco esperando naquele ermo. Convenci-o a esperar pelo contato que viria me buscar pois íamos para a mesma cidade. Ficou, e ali à mesa de uma barraca de beira de estrada, nos confins de um país estranho, esperamos, sob os olhares curiosos dos locais que certamente se perguntavam o que estávamos fazendo ali.

Qualquer estrangeiro que chegar ao distante e desconhecido Paquistão nestes dias possivelmente levará na bagagem certa desconfiança nutrida pela imagem mal construída de um país encoberto pelas nuvens sombrias do terrorismo. Essa noção desencontrada, todavia, estará prestes a ser desmantelada. Será surpreendido em, basicamente, todos os aspectos. É verdade que o Paquistão é um país pobre. O turista que chega por lá (muitíssimo escassos atualmente, em razão da turbulência política pela qual estão passando) não vai encontrar as amenidades comumente encontradas no Ocidente bacana. Ainda que não seja um país completamente atrasado, o Paquistão carece de muito daquilo que no ocidente é sinônimo de ordem. Ainda que não se identifique imediatamente um padrão de organização que atenda às exigências ocidentais, o observador mais atento, não o turista casual, encontrará e respeitará logo o modo paquistanês de ordenar sua sociedade.

Como qualquer viajante pode facilmente verificar, a influência poderosa da globalização se faz perceber em qualquer esquina dos grandes centros urbanos do país, exatamente como acontece com quaisquer outras cidades ao redor do mundo. Entretanto, apesar da ocidentalização crescente do mundo, aprende-se de saída que o Paquistão é um país suficientemente exótico. Tudo é muito diferente, e é exatamente nesta diferença que se pode encontrar a beleza paquistanesa. Quem desejar a previsibilidade deve buscar destinações mais pasteurizadas e seguras como a Disneylândia ou Paris.

A “terra dos homens puros” (significado do nome do país) que até a bem pouco era desconhecida para a maioria, tornou-se uma espécie de vedete na mídia internacional; Exibida, exaustivamente, em ângulos desconcertantes, a república islâmica do Paquistão tem sido desenhada no imaginário popular como um lugar sem lei onde loucos correm soltos a explodir carros e homens bombas nos mercados de suas cidades. O conflito paquistanês, entretanto, tem proporções mais profundas e dramáticas do que aquilo que os folhetins eletrônicos revelam. É verdade que a situação política do país é absolutamente complexa, que os radicais fundamentalistas são movidos por uma lógica que não se explica, que o comportamento de partes de sua população chega às raias da selvageria, mas essa é só uma parte da verdade. Nem todos por lá são loucos, fanáticos e extremados.

Há no Paquistão o homem de bem, de família, pacífico, cordato, hospitaleiro… Estive no meio deles e pude conhecer um Paquistão que a mídia não nos deixa conhecer. Incrível que pareça, pelo simples fato de ter feito contato com o aspecto saudável do Paquistão, aprendi a ter misericórdia da sua banda apodrecida pela loucura e pelo pecado. Nem tudo está por lá! Tenha um olhar mais complacente para com eles da próxima vez que vê-los na TV pois certamente a pose não será das melhores.

6 comentários sobre “Diários – Paquistão

  1. Que Deus o abençoe e o use poderosamente nessa jornada pelo Paquistão. Abs Thais Profeta

  2. É muito bom ler seus diários de viajante!
    Se Deus quiser, um dia conhecerei e analisarei tbm esta “terra dos homens puros”!
    E o espanhol, sobreviveu ao medo?
    Sinceramente, quando li que o senhor não tinha preocupação por estar ali, num lugar considerado tão perigoso, senti uma confiança não somente na cultura não compreendida do povo, mas tbm uma grande confiança em Deus. Essa certeza é sensacional…

  3. essa é a única certeza ana… abraço.

  4. Luiz Leite, um bem aventurado além das fronteiras.

  5. Que fazscinante esse seu diario sobre sua passagem pelo Paquistao,certamente se lancares uma pregunta tal como qual paiz do mundo vc queria conhecer,certamente esse nao seria um dos mais citados,justamente pelo que vc relata sobre a midia e a imprensa mundial que de certa forma contribui cada dia mais pela falencia desse territorio,e nao relatao em seus telejornais e revistas ou coisas do genero,que naquela terra tambem existem homens e pesoas em geral de bem,e que alem de tudo existen criancas e jovens que serao amanha o futuro daquela terra,e por isso Deus ten levantado homens como vc,que nao entra escondido ou disfarcado como um professor mais entra sim coma coragem e as estrategias que Deus nos da para cumpri o Ide,,parabens pelo seu trabalho pela sua viagem e por compartilhar conosco um pouco de sua vida missionaria que muito nos orgulha e nos enche de esperanca,,,profunda consideracao e respeito que tenho por vc desde o dia em que lhe conheci,pode ter certesa que estarei aqui na cidade de Hudsom em Masschussets nessa igreja linda que Deus me deu junto do meu pr Junior sempre intercedendo por vc onde quer que estejas,,,pq afinal de contas somos amigos e bem mais chegados…Paz Deus o bencoe sempre…

  6. Obrigado Elias. Suas palavras encorajam e me dao disposicao para continuar… abracao!

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