E agora Camus?

E agora Camus?

Por Luiz Leite

Albert Camus revela em seu clássico O Mito de Sísifo a tensão existencial por ele experimentada entre o tempo e a eternidade. Como que diante de uma encruzilhada, baseado na prerrogativa existencialista do livre-arbítrio, toma a decisão soberana quando diz: “Consciente de que não posso me separar do meu tempo, resolvi ser unha e carne com ele.”

Para algumas pessoas é absolutamente difícil conciliar os dois conceitos sem se sentirem divididas. O dilema, que geralmente toma proporções dramáticas, faz com que a criatura humana experimente uma angústia que desnorteia, pois afinal onde está seu domicílio, neste mundo e neste tempo, ou no porvir? Este desgaste leva muitos a abraçarem os extremos. Camus é daqueles para quem não há meios de equilibrar-se sobre esta corda.

Entre a história e o eterno escolhi a história porque gosto das certezas. Pelo menos estou certo, e como negar esta força que me esmaga?”

Declara que a história lhe mune de seguranças, ao passo que a eternidade nada tem para oferecer. Está certo da sua existência, da concretude do corpo, o continente real;  para ele a história é a referência única de terreno seguro e possibilidade única de qualquer certeza. Afirma: “Mesmo humilhada, a carne é minha única certeza. Só posso viver dela. A criatura é minha pátria. Eis porque escolhi esse esforço absurdo e sem perspectiva.”

A conjectura da Fé lhe é  intragável. Confirma o postulado fundamental do existencialismo que concede importância absoluta à existência, àquilo que é tangível e manipulável, e dispensa a essência como coisa de somenos,  por ser esta de natureza éterea demais. Não existe nada além; Para se existir tem que se estar presente no presente, chafurdado no agora. Diz mais: “Há Deus ou o tempo, essa cruz ou essa espada.” Em outras palavras, é um ou outro.

Admite que alguns conseguem viver no tempo e ao mesmo tempo esperar pelo eterno, mas descarta, veementemente, tal possibilidade em sua própria experiência dizendo: “Sei que se pode transigir e que se pode viver no século acreditando no eterno. Isto se chama aceitar. Mas esta palavra me repugna, e eu quero tudo ou nada.”

Partir para o tudo ou nada é um gesto próprio da adolescência afoita e inconsequente. O pensamento de Camus é especialmente apreciado por aqueles que, ávidos pelo prazer, movidos por um hedonismo voraz, desejam gratificar seus instintos aqui e agora, enquanto há tempo. A eternidade é besteira, julgam… e se não há Deus, porque se apoquentar?

Camus, bem como tantos outros, decidiu não valer a pena esperar. Apostaram todas as suas fichas no tempo e ridicularizaram o eterno; Elegeram a existência e desprezaram a essência, a criatura em lugar do Criador; O homem é o centro e o que existe é o que se toca, se verifica, aqui, agora… Dezprezaram completamente as palavras dos profetas, tratando como non sense o legado dos santos de todas as eras. Declara ousadamente:

“Sim, o homem é seu próprio fim. E é seu único fim. Se quiser ser alguma coisa, é nesta vida. Agora eu o sei de sobra.”

Agora o sei de sobra”. Sua conclusão é que não há nada do outro lado. Na verdade, não há o “outro lado”, e disto ele está absolutamente certo, sabe de sobra. Outro pensador, de estatura incomparavelmente maior, com todo o respeito (estou certo de que ele mesmo jamais ousaria se comparar a Sócrates) disse milênios antes que sabia apenas uma coisa: “que não sabia.” É o encontro constrangedor entre o cúmulo da moderação e o cúmulo da arrogância filosófica.

Ao passo que o velho Sócrates morreu na velhice, entrado em anos, Camus morreu com apenas 47 anos e, possivelmente, diante da morte que nivela os homens, se viu confrontado pela afirmação atrevida. Será que agora, onde quer que esteja, diria a mesma coisa? Ou será que, como Jó, humildemente reconheceria sua estultície e diria:

“(…) Falei do que não entendia; coisas que eram maravilhosíssimas e que eu não compreendia…(…) Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” (Jó 42.3,6)

Infelizmente, como néscio, procurou agarrar-se ao tempo, mas este se esvaiu e agora já não há como retratar-se… E agora Camus?



6 comentários sobre “E agora Camus?

  1. Que texto. Um teste. Quem passará? Que o Senhor Jesus sempre ilumine seu coração, amado. Não tenho estas suas letras tão precisas, mas como preciso delas…

  2. voce sempre generosa comigo… obrigado.

  3. É, como existem muitos camus vestidos de crentes, não é?
    Engraçado, como a eternidade é esquecida e que na verdade, esta vida, como neblina, é apenas um ensaio do que há por vir.
    E agora camus? E agora Eduardo? A quem é que estás priorizando, o tempo, o agora, ou o Senhor tanto de um como do outro?
    Belas palavras Pastor Luis, ainda mais na comparação entre Camus e Socrates.
    Engraçado ver que enquanto um ganhou o prêmio da insensatez achando que sabia mais que podia o outro tornou-se mais sabio que os sabios ao dizer que nada sabia.

    Abraços

  4. valeu eduardo. belo comentario.

  5. “Agora eu o sei de sobra.”
    Me arrisco a conceituar isso como os extremos de falta de humildade e excesso de ignorância.
    Nem ouso pesquisar mais sobre este homem.
    E aí Camus? E aí hedonistas não mais presentes entre nós?

  6. É isso mesmo ana… ousar dizer que se sabe tanto é sinal de grande altivez…

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