Emil Brunner e Marcha pra Jesus

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Marcha para Jesus e Emil Brunner

Por Luiz Leite

Texto publicado pela Revista Eclésia (coluna Pastoral), edição de Dezembro 2009

Muitos acham que a parada gay é uma manifestação acintosa. Os evangélicos, particularmente, consideraram uma provocação o fato de que a tal parada tenha acontecido exatamente no mesmo dia em que se realizou a Marcha para Jesus.

Fernando de Barros e Silva, em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, escrevendo sobre o evento que anualmente mobiliza milhões de religiosos na capital paulista disse que, “há um ar de família entre a marcha dos evangélicos e a marcha política”, fazendo clara referência ao senador e bispo Marcelo Crivela, bem como a um deputado do baixo clero, e também pastor, presentes no evento em demonstração de apoio ao casal Hernandes, líderes de uma grande igreja e recentemente envolvidos em vários episódios constrangedores.

Muito embora a parada gay tenha tido apoio e participação de políticos de peso como o governador do estado Sergio Cabral e o prefeito da cidade do Rio de Janeiro Eduardo Paes, não se fez nenhuma crítica mais séria à presença dos figurões da política carioca salvo uma piadinha aqui e ali. Uma parcela paranóica poderia interpretar o artigo como perseguição aos evangélicos. Prefiro crer que não seja.

O articulista da Folha apontando para o conluio de pastores e políticos e pastores políticos, conclui seu artigo com uma precisa e dorida estocada: “Diante da coalizão entre Jesus e Judas, querer legalidade hoje no país parece até coisa do Diabo.” Eu que já estava com dificuldade para dormir, num vôo da Air France para Paris, fazendo o mesmo trajeto do vôo que caiu no Atlântico dias atrás, perdi o sono de vez.

É lógico que a construção de Fernando de Barros e Silva, da maneira colocada, tem a intenção óbvia de provocar. Entende-se, todavia, que não é apenas uma provocação gratuita. A referência a Jesus e Judas, trata do relacionamento entre a igreja e a política. Uma modalidade de relação espúria, não oficial, escondida; ainda que se suspeite que naquele mato tenha coelho, as partes envolvidas não confirmam nem negam. Sem compromisso de “papel passado”, o relacionamento prossegue enquanto houver interesse para as partes. Mundano como qualquer outro contrato de “gaveta”.

Não sei se ficam claras para voce as dimensões da tragédia, mas quando o autor do texto desiste das aspirações por legalidade, causa uma impressão não apenas de desencanto, mas também de desespero; Não se pode desejar legalidade num país onde aqueles que deveriam ser os guardiões do estado de direito conduzem as coisas de maneira torta. Em sua análise perde-se a esperança de legalidade, de decência, quando pastores fazem do púlpito seu palanque e dos fieis seu eleitorado, e pior, utilizam-se das massas e de sua fé ingênua para realizar suas manobras.

Há alguns anos eu propus aos meus amigos uma campanha cujo lema era: “Salve o seu pastor. Não vote nele!” Talvez seja esta a hora de ativá-la. Ninguém deveria fornecer munição para que a igreja fosse assim atacada, muito menos os sacerdotes! Não seremos poupados nem mesmo andando no direito, quanto mais errando para alem de suas fronteiras.

Emil Brunner, um dos grandes teólogos do século XX ao lado de Karl Barth, disse em sua Teologia da Crise: “A humanidade tem sempre diante de si uma dupla tarefa: Esquadrinhar o conteúdo e esquadrinhar as expressões de sua fé.”

A marcha para Jesus é, seguramente, uma forma de expressão da fé de milhões de cristãos evangélicos. Como disse Brunner, esta expressão de fé precisa ser esquadrinhada. Antes, entretanto, de esquadrinharmos a expressão da fé, deveríamos esquadrinhar seu conteúdo, pois é o conteúdo que transforma, modela e dá as medidas da expressão pública da fé.

O problema é que ninguém quer esquadrinhar nada. Este trabalhoso e enfadonho exercício de reflexão é por demais pesado; Deixem-no para os pensadores, resmungam os praticantes da religião irrefletida. As massas querem apenas uma fé sentida. Ficam, por causa dessa superficialidade, a mercê daqueles que, especialistas em identificar e manipular anseios conduzem-nas em uma experiência religiosa questionável e pior, absurdamente rasa.

Pois se não refletirmos e esquadrinharmos o conteúdo e expressões da nossa fé, ficaremos encalhados nos bancos de areia de uma religiosidade desinformada e que inevitavelmente poderá vir a ficar deformada também. É preciso sim, como disse Emil Brunner, esquadrinhar nossa fé, ainda que este exercício possa trazer respostas que não desejamos ouvir.

Antes de Brunner, o apostolo Paulo nos chama a esse exercício de reflexão quando escreve aos Coríntios, uma igreja tristemente marcada por muitos escândalos e desvios de percepção doutrinária. Diz o apostolo: “Se julgássemos a nós mesmos, não seriamos julgados” (I Co 11.31). A orientação do apóstolo Pedro, por sua vez, chama a atenção para uma vida cristã refletida quando insta que “pela prática do bem” façamos “emudecer a ignorância dos insensatos”.

Os insensatos dizem em seu coração que não há Deus. Se aqueles que sustentam o testemunho de Deus continuarem municiando os incréus com uma postura carregada de poses suspeitas, veremos frustrado o esforço daqueles que labutam de sol a sol nessa seara imensa. Esse exercício de exame da fé em seu conteúdo e expressão poderá sem dúvida nos poupar de muito vexame, nos ajudando a evitar não só o mal, como até mesmo sua própria aparência.

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7 comentários sobre “Emil Brunner e Marcha pra Jesus

  1. Prezados.
    Parabenizo pelo o Teor da matéria.concordo plenamente, precisamos de reflexão,precisamos como Igreja, nós arrependermos, voltarmos para Deus, e, resgatar a autorida da Igreja. Preccisamos viver umaq vida coerente com nossa fé em Cristo. Quer o Senhor tenha misericordia, visite seu povo e transforme este guadro lastimável que nos encconteamos.
    Clamemos por isso.

  2. é verdade pr jurandir… que Deus tenha misericordia de nós e nos restaure para sua glória.

  3. Pingback: O que andam dizendo do Dedo de Prosa « um dedo de prosa

  4. Como gostei de conhecer seu blog! Muito!

  5. Obrigado… como é bom saber que os meus rabiscos estão edificando alguem…

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