Duas Palavras e um Abismo

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Duas Palavras e Um Abismo

Por Luiz Leite

Ao ouvir uma entrevista do jovem Piquet dando esclarecimentos acerca do seu desempenho no grande picadeiro do circo da Fómula Um, uma palavrinha me chamou a atenção. Perguntado pelo entrevistador sobre o que gostaria de dizer para o público brasileiro, ele respondeu: “Gostaria de pedir desculpas…”

É curioso como é fácil pedir desculpas… difícil mesmo é pedir perdão! São duas palavrinhas que se parecem tão próximas, mas ao mesmo tempo podem distar anos luz uma da outra. Um pedido formal de desculpa, como o do jovem piloto, é tão vazio e questionável quanto o choro sem lágrimas, uma vez que são estas que caracterizam aquele, ainda que nem sempre brotem sentidas na proporção exata do dano ou da fraude cometida.

Para pedir desculpas não é necessário rasgar o coração; admite-se um erro, mas não se chora por ele… Um pedido de perdão, entretanto, não sai espontânea e suavemente dos lábios de ninguém; vem sempre através de um trabalho de parto difícil que envolve contrações e muita dor.

Um pedido de desculpa é comum no mundo dos homens civilizados; faz parte do protocolo das boas maneiras, mas não carrega em si dor alguma, lamento algum, e por essa mesma razão, ainda que sob o verniz da etiqueta social, não produz homens melhores.

Há um verdadeiro abismo entre os dois vocábulos. Se ao pedir desculpas eu reconheço um erro, ao pedir perdão eu reconheço um pecado. Um erro ocorre como resultado de imperícia, imprudência, desatenção… Pecados, por sua vez, são maquinados na mente, gestados no coração e por fim executados a partir de uma malignidade, negada, mas intrínseca a todos os  homens.

Numa prece antiga da igreja romana conhecida como Confiteor (Eu confesso) os fiéis rezavam dizendo: “Confiteor Deo omnipotenti (…) quia peccavi nimis cogitatione verbo, et opere: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa…” “Eu confesso Deus onipotente que tenho pecado em palavras e atos… Minha culpa, minha máxima culpa.”

É relativamente fácil pedir perdão a Deus. Difícil é pedir perdão ao próximo. Coisa mole é se humilhar diante de Deus numa prece chorosa; Dureza, entretanto, é humilhar-se diante do outro e conceder que ele está certo. Justificamos enquanto podemos, mesmo quando sabemos que delinquimos. Assim muitos vão vida a fora, qual delinquentes existenciais, reincidindo, incorrigíveis…

Reconhecer que erramos não exige esforço demasiado; falseamos bem estas coisas. além do mais, como já ventilado, um erro pode ser atribuido a um acidente qualquer, de cálculo, seja aritmético, geométrico ou trigonométrico… Assim conclui-se o por que da ponte que caiu, do prédio que caiu, do avião que caiu…

Admitir o pecado, todavia, é levantar o hábito da suposta santidade e expor-lhe as vergonhas. Por que o casamento caiu? por que a parceria ruiu? por que…? bem, nestes casos, não foi por conta de uma conta mal feita; Não cabe aí pedidos de desculpa. O elemento que faz ruir relacionamentos, que rompe alianças, que violenta a sociedade e defenestra as almas se chama pecado!

Não há pedido de desculpas que possa expiar a culpa pelo pecado. Enquanto o jovem piloto, e todos nós com ele, não aprendermos esta lição, continuaremos sendo um fracasso, ainda que cobertos pelo falso brilho que inebria a tantos no grande picadeiro deste circo imenso.

Qual seria o resultado se, ao invés de tentarmos esconder nossas vergonhas com as folhas de parreira da desculpa, viéssemos à público e confessássemos: “Tem misericórdia de mim porque pequei contra ti!”

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7 comentários sobre “Duas Palavras e um Abismo

  1. Os ucranianos ortodoxos têm, entre suas rezas, uma que diz: Senhor de misericórdia, de misericórdia, de misericórdia, de misericórdia, tenha misericórdia de mim. De acordo com a tradição ucraniana, essa é a primeira oração do dia, antes mesmo de abrir os olhos, feita muitas vezes da cama. Deixando de lado todo o preconceito às vãs repetições e analisando fria e profundamente a oração, conseguimos subtrair o que de mais genuíno ela nos revela: quão miseráveis somos! E como é grandioso percebermos isso. E não é grandioso para nós, mas grandioso para Deus, como misericordioso e galardoador. É Ele que merece a glória da nossa percepção do nada. Quando percebemos quão miseráveis somos, quão dependentes somos da misericórdia de Deus, devolvemos a Ele tudo o que um dia acreditávamos termos direito: nosso orgulho, nossa altivez, nossa soberba. E Deus, ao nos ver quebrantados diante da Cruz e sob o Sangue, nos levanta por seu Amor, Misericórdia e Graça. Chegamos ao estado da Graça em que Paulo chegou, ao se ver impregnado em seus membros pelo pecado: Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo dessa morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado. Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. (Rom.7:24-8:1). Viver a Graça é admitir de forma contrita a miserabilidade humana e carnal, mas viver sob a misericórdia de Deus e a Graça de Jesus.

  2. uauuu! regina!! que comentário maravilhoso!! obrigado… quem ler vai entender bem melhor o rico tema da misericordia.

  3. Excelente!! Realmente, o abismo que há entre estas duas palavras é muito maior do que imaginamos… tão grande que pode levar o homem a peder muito mais que sua propria dignidade, pois o perdao de Deus, só é dado a quem realmente admite que necessita e clama por ele. O perdão e o conserto existem e estão disponiveis, mas somente para aqueles que sabem que necessitam. Não adianta alguma coisa ser oferecida a quem acha que não precisa dela…
    Acho que podemos comparar estas duas palavras ao remorso de Judas,que o fez devolver o dinheiro e suicidar e o arrependimento de Pedro, que o levou a ser perdoado.

  4. é isso Denise… bem lembrado sobre o remorso e o arrependimento…
    Graça e paz!

  5. É verdade,o perdão é algo em que o ser humano tem a maior dificuldade. Perdoar é algo que devemos aprender, pois realmente o perdão está além de uma simples desculpa, o dar e liberar perdão só é para os que foram curados na alma, e infelizmente são poucos os que querem ser curados, pois este mal para muitos é um mal necessário, pois é melhor desculpar-se em vez de perdoar, o convivio é mais facíl na desculpa. É um aqui, e outro ali.
    Uma frace que tenho deixado na igreja a respeito do perdão.
    PERDOAR É, ESQUECER A OFENÇA, ESQUECER A OFENSA E CONVIVER, CONVIVER É AMAR, E AMAR É DOM DE DEUS.
    Que nessa vida possamos aprender a dar e liberar o verdadeiro perdão.
    Graça e Paz.

  6. É difícil mesmo mas Deus dá graça… abração!

  7. Pingback: O que andam dizendo do Dedo de Prosa « um dedo de prosa

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