A Chave Hermenêutica

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A Chave Hermenêutica

Por Luiz Leite

Fausto, o personagem central do grande poema de Goethe, num desabafo que denota profunda exaustão existencial exclama:

Estudei ardentemente tanta filosofia, direito e medicina e infelizmente muita Teologia (…) e chego ao fim de tudo ignorante de tudo!

Depois de tantos estudos, geralmente a conclusão a que o sábio chega é que nada sabe. O acúmulo de conhecimento, ainda que útil em vários aspectos, não é suficiente para saciar aquela estranha fome que devora a alma humana. O conhecimento, por si, pode alvoroçar a alma do homem, torná-lo arrogante, irrequieto e até destrutivo.

O poema de Goethe parece ser, a princípio, uma paródia do livro bíblico de Jó. Como no grande clássico bíblico, Mefistófeles, o diabo, numa espécie de disputa com o Senhor, põe-se a infernizar a vida do já angustiado Fausto. O desenrolar dos fatos, entretanto, toma um rumo bem diferente daquele observado na narrativa da vida de Jó.

O personagem de Goethe interage com o anjo caído por toda a estória e flerta com o diabo como se este fora totalmente inofensivo. Diferentemente do personagem bíblico, que é apresentado de início como um homem bem-sucedido, vivendo uma vida próspera e pacata, o Fausto de Goethe é, de saída, encontrado numa profunda crise, como que envolvido por um turbilhão inescapável de conflitos e experimentando tédio insuportável.

Muito letrado, Fausto deparou-se com o desencanto na rota para o suicídio:

“Eu acreditava ser a imagem de Deus, muito incerto,

Ser o espelho fiel da vera eternidade!

(…) Mas um tufão me mostrou o que sou na verdade.

Após adquirir tanto conhecimento, Fausto se viu aturdido, confuso, sem resposta para a aguda crise interna, a crise da auto-imagem. Quem sou? O que sou? Ter respostas parciais para essas questões não resolve. Um imenso acervo de conhecimento desse mundo e dos mecanismos que o movem não é suficiente e não provê garantia de libertação dos cárceres da angústia. Fausto experimentou o desencanto mesmo depois de acumular tanto saber dessa natureza.

Em conversa com o pretenso Wagner que ansiava saber tudo diz:

“Será o pergaminho essa fonte sagrada que a nossa sede de saber eterno acalma?

Alívio não acharás nessa dura empreitada se a fonte não jorrar dentro da própria alma.”

Conhecer o mundo ao nosso redor é importante. Saber seus segredos é estimulante. Aprender, aprender, aprender deveria ser o lema da criatura humana, posto que a vida é curta e a arte é longa! Mas a angústia será certa se nos limitarmos à curiosidade concernente ao mundo da matéria.

O Sábio Salomão já há três mil anos havia chegado a essa conclusão dizendo que “quem aumenta ciência aumenta enfado”. A ciência não tem todas as respostas. Para piorar a inquietação nas almas dos inquiridores, como já se disse em algum lugar, quando o homem acha que encontrou a resposta, Deus muda a pergunta!

Kant foi possivelmente quem melhor percebeu a charada e concluiu que a razão, ainda que importante, não seria suficiente como muro de arrimo para conter o peso insustentável das questões que pressionam, demandando respostas que o intelecto não pode dar. O conhecimento científico, empírico explica o mundo em parte. Muito embora seja de grande valia obter o conhecimento, esse tipo de informação não nos proverá com as respostas para questionamentos de outra ordem.

Kant opõe-se ao racionalismo iluminista que sustentava que a razão humana seria perfeitamente capaz de decifrar os enigmas do mundo natural, de nós mesmos e do próprio Deus. Para ele, as incansáveis investigações do labor científico não conduzirão o homem a lugar algum além do campo imediato dos fenômenos. O conhecimento que a ciência pode proporcionar descreverá o fenômeno, mas não penetrará naquilo que ele chamava de “a-coisa-em-si”.

Existe algo para além do fenômeno, há uma outra esfera para além daquilo que se pode ver, tocar, mensurar. Lá reside a-coisa-em-si. Assim, ainda que o conhecimento intelectual seja absolutamente importante para responder as demandas da mente racional e por conseqüência emprestar certo sentido ao mundo que nos cerca, esse conhecimento apenas jamais poderá responder aos anseios da vacuidade espiritual que todos, sem exceção, experimentam.

A Inteligência do Evangelho arranca o homem do seu  estado de perplexidade diante do absurdo e apresenta-lhe Jesus, a chave hermenêutica que decodifica o enigma e proporciona a possibilidade de suspirar aliviado por fim e poder dizer: “Ah! agora estou entendendo!”

Trecho do livro “Inteligência do Evangelho” de Luiz Leite

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Um comentário sobre “A Chave Hermenêutica

  1. A chave hermenêutica a pergunta que fiz para consulta.Estudei no Itesc por 4 anos e descobri que nada aprendi.Minha conclusão assemelha-se aos personagens de seu texto.Uma excelente exposição. Por isso me cadastrei e aguardo recebimento de novos artigos. Gde abraço.

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