Veni. Vidi. Vici!

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Artigo publicado pela Revista Eclésia edição abril 2009

Veni. Vidi. Vici!
Por Luiz Leite

É mundialmente famosa a frase de Júlio César após a vitória sobre Farnaces II na batalha de Zela (47 a.C.). Exclamou exultante: “Veni. Vidi. Vici” (Vim, vi e venci!) Notável! O poder de síntese com as palavrinhas revela nessa mensagem enviada ao senado em Roma, o pragmatismo desse senhor da guerra por excelência. A máxima deixa clara a determinação do obstinado guerreiro romano ao tomar, de maneira devastadora, o Reino do Ponto, que vinha posando resistência à hegemonia romana na região.

Muita brincadeira já foi feita usando a frase do célebre general romano, como aquela feita pela empresa de computadores Apple, “Veni. Vidi. Codi.” Vim, vi e codifiquei. A versão chinesa, em relação à tecnologia ocidental, seria algo tipo: “Vim, vi e copiei…” Mas, brincadeiras à parte, o que teria dito o batedor da legião de Júlio César, que foi à frente espiar e mapear o terreno? Se César disse: “Vim, vi e venci”, o batedor teria dito: “Vim, vi e voltei”. É óbvio que nem de longe surte o mesmo efeito, mas pelo menos deveria ter uma notinha de reconhecimento no rodapé da história.

O canto de vitória de muitos omite deliberadamente o crédito aos preciosos cooperadores das grandes conquistas. Algumas empreitadas são simplesmente grandes demais para serem levadas a cabo pelo visionário apenas. Certos projetos de poder nunca são fáceis de serem executados. Envolvem uma série tão grandes de detalhes que não é incomum perder-se nos labirintos das manobras necessárias para torná-los factíveis. Não está em questão, portanto, o fato de que para realizar qualquer grande projeto o elemento humano será um componente chave. Daí, entretanto, a utilizar-se do homem como mero “dente de engrenagem”, é uma estória diferente.

Os exemplos de valorização do elemento humano nas Escrituras são abundantes. A Bíblia dá importância a gente que não seria mencionada em outras narrativas, fazendo questão de registrar-lhes os nomes. Às vezes em apenas uma linha, é verdade, mas não deixa de reconhecer o mérito daqueles que, de alguma forma, participaram ativamente, ainda que desenvolvendo apenas papeis diminutos, mas em momentos decisivos.

Se seguíssemos o ensino de Jesus quando teve que intervir em uma pequena polêmica entre os seus discípulos acerca de posição e status, talvez não tivéssemos egos tão inflados e tampouco cometeríamos as injustiças comuns verificadas na ascensão de muitos. Disse o Mestre:
“(…) Sabeis que os que são reconhecidos como governadores dos gentios, deles se assenhoreiam, e que sobre eles os seus grandes exercem autoridade. Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.” (Mc 10.42-44)

É absolutamente estarrecedor ver no meio cristão, líderes religiosos que se assenhoreiam dos seus liderados como os inescrupulosos caciques do mundo secular, usando-os como massa de manobra, numa ciranda ensandecida que combina pietismo (ou fanatismo) religioso com poder político e financeiro! O mercantilismo capitalista, como metástase, invadiu todos os campos da atividade humana no ocidente. A igreja não escapou. Mercadeja-se de tudo nessa grande feira, desde as almas dos homens aos favores de Deus. O pastor americano Richard C. Halverson (1916-1995) resumiu a situação numa frase, Disse: “No início, a igreja era um grupo de homens centrados no Cristo vivo. Então, a igreja chegou à Grécia e tornou-se uma filosofia. Depois, chegou à Roma e tornou-se uma instituição. Em seguida, à Europa e tornou-se uma cultura. E, finalmente, chegou à Ámérica, e tornou-se um negócio.”

Igrejas e currais eleitorais, para citar um exemplo, tem sido fato corriqueiro na historiografia evangélica brasileira recente. Uma espécie de “coronelismo” religioso se processa em muitos segmentos denominacionais, bem aos moldes daquele fenômeno da velha e viciada política brasileira. Nesse exato momento articulações e alianças estão sendo alinhavadas pelos mercadores de almas nos bastidores dos poder nos palácios de Brasília. Satanás é convidado. Vade retro!

Um exemplo a ser seguido por todo líder em ascensão é aquele dado por Davi, quando alguns de seus soldados arriscaram suas vidas, rompendo o arraial do exército inimigo, para buscar água para o seu certamente cansado e sedento comandante. Ouviram-no suspirar e dizer do seu desejo de tomar um gole da água da cisterna que estava junto a Belém. O texto bíblico diz: “Então aqueles três valentes romperam pelo arraial dos filisteus, tiraram água da cisterna que está junto a porta de Belém, e a trouxeram a Davi; porém ele não quis bebê-la, mas derramou-a perante o Senhor;” (II Sm 23.16)

Não é por menos que Davi é conhecido como um homem segundo o coração de Deus. Com surpreendente nobreza recusou-se a tomar da água que poderia ter custado a vida dos seus fiéis comandados. Discerniu com grande clareza a linha que delimitava o abuso do uso de suas prerrogativas como líder. Por falta desse discernimento, muitos, deslumbrados com o sucesso e alçados aos pedestais da fama, se esquecem que foram elevados até ali para servirem a partir daquela posição, e não para se servirem dos privilégios que a posição oferece.

Em meio a tanta tietagem, é impossível não pensar em Paulo e Barnabé recusando veementemente as honras cabidas a Mercúrio e Júpiter, deuses com os quais foram confundidos. Ao ouvir o povo dizer: “Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens e desceram até nós…” (Atos 14.11) Os dois não hesitaram em recusar tais honras e imediatamente rasgaram as suas vestes, transferindo a glória ao único que é digno. Se fossem como alguns espertalhões que temos visto por aí, sem dúvida teriam aceitado a badalação e administrado em proveito próprio a superstição e ignorância imensa da turbamulta.

Graças a Deus, Paulo não era um narcisista, e muito menos o discretíssimo Barnabé. Os narcisistas geralmente superfaturam o seu valor e caem facilmente diante da cantiga pegajosa dos aduladores. Quando um líder se rende ao culto de sua personalidade, acaba precipitando-se num estrelismo insuportável. Portam-se como pequenos deuses que vêem nos seus ajudadores apenas um séqüito de mucamas e lacaios, e não sentem qualquer necessidade de compartilhar com esses o crédito de suas conquistas. À exemplo de Júlio César, trombeteiam suas vitórias, sem reconhecer que a mesmas custaram o sacrifício de muitos, e que sem a colaboração dos tais, não teriam sido possíveis!

Imagino que Jesus, diante da querela dos discípulos que, no texto citado, vadeavam pelos salões de perigosa ambição, tenha disparado com firmeza e em tom gravíssimo, a advertência: “Mas entre vós não será assim!”. E que se registre, sempre, mesmo que através de simples nota de rodapé, o crédito do batedor!

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4 comentários sobre “Veni. Vidi. Vici!

  1. hamilton secondino disse:

    Este desejo e vontade que existe na nossa mente é uma mentalidade do homem caído; esta vontade incontrolável de conquistar o poder e de ver pessoas nos louvando e nos colocando numa posição superior, tudo isso é parte da semente do pecado em nós. O diabo é assim , ele é criatura e quer a gloria e o louvor do criador. Hoje se olharmos as religiões vamos ver vários irmãos nossos sendo vitimas de alguns líderes, por falta de conhecimento da palavra ou por não ter a revelação de DEUS. Minha oração é que o Senhor não me deixe cair nesta área. Precisamos ser discipulos de JESUS PORQUE ELE TRANSFERIU TODA A GLORIA PARA O PAI

  2. luiz leite disse:

    É verdade Hamilton… esse comportamento tem a ver com a semente que o diabo semeou no coração do homem lá no Éden. Deus nos livre dessa tendência….

  3. Olha..isso ai está ótimo!! “Mas entre vós não será assim”! Creio sinceramente que essa afirmação do Cristo foi levada a sério pelos seus ouvintes originais,e, até mesmo hoje ela se estabelece como um princípio inalterado do verdadeiro cristianismo. O que se observa no meio “gospel” atual, não é na verdade o cristianismo, mas uma maldita forma secular de tirar proveito da predisposição humana de predomínio sobre a fragilidade de outrem.

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