Eu e São João de Deus

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Eu e São João de Deus

Por Luiz Leite

Nossas semelhanças começam pelo aniversário. Nascemos no mesmo dia. O santo e eu somos especialmente lembrados no dia oito de março; ele pelos seus fiéis devotos e eu pelos meus devotos amigos. Mas nossas parecenças não terminam por aí. Com oito anos João fugiu de casa, eu com onze. João, entretanto, não mais voltou. Como ninguém conhecia o menino que como cãozinho sem dono aparecera em Oropeza, simplesmente começaram a chamar-lhe de João; Mas, João de quê? João de quem? Afortunadamente, ao invés de batizarem-no de João Ninguém, resolveram chamar-lhe de João de Deus, que muito mais vistoso, pegou, e caiu-lhe muito bem. Os aldeões de Oropeza não imaginavam que estavam diante de um “santo” e que aquele puto (designação portuguesa para menino) abandonado viria mais tarde entrar na hagiografia da Igreja.

O fujão do João não retornou ao lar. Talvez não o fez por não ter um lar para onde voltar.Talvez tenha fugido para não voltar mesmo, movido por razões que seu juízo de oito anos julgou como suficientemente graves. Eu e João fugimos de casa. É fácil fugir de casa, difícil é fugir do lar. Aqueles que têm um lar sempre acabam voltando. Eu, afortunadamente, tinha. A minha fuga não poderia se sustentar. O meu projeto de revolução contra o governo da D. Carmelita estava seriamente comprometido. Dona Carmelita corrigia energicamente, mas ao mesmo tempo amava intensamente suas crias. Havia me aplicado um daqueles corretivos que mais tarde viria salvar o meu caráter e por extensão a minha vida inteira. Aprendi com ela uma lição: Corrija-se o caráter de uma criança e salve-se a vida de um homem. A psicopedagogia moderna com suas teorias experimentais tem estragado toda uma geração por abandonar completamente essa velha escola.

Fugir de D. Carmelita provou-se uma empresa falida no primeiro dia! A noite, como pesado pano de fundo para o meu pequeno drama, trazia consigo algum medo e insegurança; a fome, que aos poucos aumentava, combinada com as imagens mentais dos quitutes e do amor da mãe que eu tinha (e que possivelmente faltou a João) insistia para que eu abortasse o plano. O meu surto de revolta contra a autoridade aos poucos foi sendo dissipado na medida em que o estômago aumentava o tom de sua inconfundível lamúria. Exausto e faminto tomei o rumo de casa ao entardecer, quando o lusco-fusco já ia produzindo sombras como prenúncio das trevas que em pouco tempo envolveriam a tudo com o seu manto. João, possivelmente, não teve uma mãe como a minha, que o prendesse definitivamente em laços de amor. Se teve mãe, talvez não tenha tido como eu, a felicidade de ter um pai como Seu Vicente, chamado pelos filhos de “o Tronco”, onde nós, vasta prole de raminhos, estávamos ligados e seguros. Por essas coisas sinto por meu amigo.

Eu e João temos muito em comum. Afinidades nos fazem aproximar de pessoas. Nossas idiossincrasias, aquele comportamento peculiar de cada indivíduo, quando se identificam, fazem com que nossas almas se fundam no cadinho de misteriosa empatia. Há, entretanto, os casos dos “santos que não se cruzam”, uma malquerença gratuita que domina o coração fazendo-nos desconfiados de pessoas que nem mesmo conhecemos, mas não quero falar disso, quero falar da minha simpatia por João. Eu e João nos ajustamos harmonicamente, como uma primeira e segunda voz afinadas na execução de um hino de louvor a Deus.

João tinha uma natureza aguerrida, talvez alimentada pela dor de perguntas sem resposta. Enquanto em uns a dor produz uma sensação de desmaio, desarmando e subjugando completamente o espírito, em outros surte efeito contrário. Com João o desfecho da dor foi o fio condutor que o levou a tornar-se um guerreiro. Curiosamente não tornou-se um ser amargo apesar da dieta de fel que certamente teve que sorver em sua existência como menino sem lar, sem calor e possivelmente sem teto. João, depois de labutar pelo sustento de diversas maneiras dispôs-se como mercenário e vendeu suas armas aos exércitos de Carlos V. Tomou gosto pela coisa e depois de sair vitorioso na batalha de Pávia, em 1525, empolgou-se, e foi parar também em Viena (1529) onde participou da defesa da mesma contra o turco Solimão.

Ambos fomos rebeldes. Ele, com causa pessoal, eu, sem… As minhas razões eram ideológicas. Eu queria botar fogo no mundo, contaminado que estava pelas idéias do meu tempo. Por felicidade o meu sonho de tornar-me um soldado da fortuna não se cumpriu. Fui cegado pelo clarão no meu caminho pra Nicarágua. Eu e João de back pack perambulamos pelo mundo. Com algum dinheiro João aventurou-se pela Europa e África. Fui um pouco mais longe que João apenas por causa das facilidades do meu tempo. Se João tivesse as mesmas condições, teria, como eu, visitado os pontos dos quatro ventos desse mundo de meu Deus. Também como eu, João tinha uma paixão. Gostava dos livros. De pastor de cabras, camponês, guerreiro, mascate, João acabou estabelecendo-se em Granada, onde abriu uma livraria. Sim, uma livraria, e isto no século XVI!

A cabeça e o coração de João, entretanto, haveria de sofrer um golpe de proporções dramáticas que mudariam para sempre o curso de sua história. Quando as circunstancias apontavam, depois de tantas aventuras e desventuras, para um final pacato e suave, João viu a Luz, aquela Luz que alumia as trevas dos homens mudando-lhes dramaticamente os rumos. Como Saulo, João teria passaria por uma transformação radical. Vendeu tudo o que tinha, distribuiu aos pobres e foi viver de esmolas. Era assim que a teologia do seu tempo ensinava. Bastante diferente, diga-se, de uma teologia bem torta proposta por aí pelos modernos vendilhões dos templos. Extremos, quão perigosos! João era verdadeiro, ainda que equivocado.

Devido aos exageros de sua fé afogueada, porém mal conduzida, João foi recolhido das ruas como louco e enviado direto ao hospício. Incrível que pareça, o “louco” do João saiu do hospício e acabou fundando um hospital! Que reviravolta! A experiência no hospício revelou uma realidade que João desconhecia: A falta de humanidade com que as pessoas eram tratadas nessas instituições. Sem qualquer preparo formal em medicina, João começou a aplicar amor e respeito nas veias de seus pacientes e seu hospital começou a obter resultados em índices de recuperação maiores que os estabelecimentos profissionais!

Como eu, João tinha um interesse especial pela alma dos homens. Acreditava, o que também compartilhamos, que o “buraco é mais embaixo”, que o problema é mais complexo, que a causa é mais profunda do que querem sugerir as aparências com que se revestem o sintoma. Com quatro séculos de antecedência já observava a dor da alma humana de prismas que ficariam famosos por meio de um celebrado psiquiatra austríaco no século XX. Curas d’alma, João e eu cremos firmemente que a saúde do espírito resolve muitos dos flagelos que acometem o corpo. Conosco fazem coro número grande de apaixonados pela humanidade avariada.

Nossas afinidades devem parar por aqui. João morreu em 1550 com apenas 55 anos, exatamente no dia de seu aniversário. Pulemos essa parte.

3 comentários sobre “Eu e São João de Deus

  1. Pr Luiz,qualquer semelhança é mera coincidência.Precisamos ressaltar as qualidades das pessoas,interessante sua sensibilidade.Parabéns,ótimo.
    Abraços.

  2. obrigado anirsis! voce é uma grande usina de palavras de encorajamento!!! uma bênção! obrigado.

  3. Pingback: Cinco Artigos Escolhidos « um dedo de prosa

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