Estados de alma

Não quero nada

Por Luiz C Leite

Estou de frente pra o mar, curtindo uma brisa que vai se tornando vento, pois que não acaricia, mas alvoroça os meus cabelos, bem como a cabeleira verde e farta dos coqueiros que perfilam graciosos ao longo da orla. A sensação causada pelo vento, antes brisa, quase frio, entretanto, é agradabilíssima; vai amenizando o desconforto do mormaço e causando um prazeroso bem estar.

Sinto-me muito bem nessa manhã de setembro, nesse ocaso de inverno…Apesar de estar assim, de bem comigo e sem assombrações a me apurrinhar (tranquei-as todas do lado de fora – tranqueiras todas, do lado de fora!) quero mais a reclusão, o silêncio, do que o atropelo das relações superficiais caracterizadas pelo vazio de palavras desconexas alinhavadas numa colcha de retalhos que não reproduzem sentido algum.

É bem verdade que as vezes é até de alguma importância aquela conversa sem compromisso com o compromisso da reflexão sisuda… É mesmo necessário de quando em vez descontrair e, simplesmente, “jogar conversa fora”, brincar, espairecer, praticar um “non sense” saudável, caso contrário a gente acaba esmagado sob o peso das grandes questões, dos grandes temas.

Tenho passado parte razoável dos meus dias debruçado sobre os grandes temas, tentando quebrar o código desse enigma que chamamos vida, mas agora não… Desejo a solidão nesse hoje ainda, nesse momento efêmero; Não quero nenhum exercício de reflexão, eu que aprecio tanto o pensamento, agora quero o vácuo, o silêncio…quero apenas relaxar e sorver o azul intenso desse céu e contemplar a graça abundante ao meu derredor…

Vejo coisas, muitas coisas, e pergunto-me se os outros vêem o mesmo. Imagino que não. As vezes sinto-me como o personagem da canção dos Beatles retratado como “The fool in the hill”, mas a comparação é apenas no que concerne ao fato de que, como aquele, meus olhos também vêem o que passa despercebido para um grande número de pessoas…“the eyes in his head see the world spinning round”.

Um poeta, num estado de exaustão existencial, dizia que “há dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu”, um outro, em alegria saltitante, dizia que queria “ensinar o vizinho a cantar nas manhãs de setembro” , outro ainda, querendo desaparecer e refugiar-se na ilha da fantasia, diz que quer ir “embora pra Passárgada”… Estados de alma, estações do coração. Eu não quero nada, não quero ir pra lugar algum, quero apenas estar sozinho e viver esse momento, minha versão de“carpe diem” .

Diários, Setembro de 2005

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8 comentários sobre “Estados de alma

  1. Agora não me sinto animada para fazer nenhum comnetário. Percebi que quase todos os comentários do texto anterior tiveram uma palavrinha do senhor, mas o meu não teve. Magoei.

  2. Ludmila querida, me perdoe!!! na verdade eu estava pra te mandar um email pra saber qual das ludmilas é esta (tenho 3 na lista de contato)que fez um comentário tão brilhante…

  3. “Carpe diem “, me lembro desse termo ao ver o filme ,”Escritores da liberdade”.Deixe a brisa passar, deixa ela te refrescar,de fato os nossos olhos são a lâmpada do nosso corpo,não temendo o descanso vivemos mais felizes.Nâo sabia que o senhor tinha essa veia poética Luiz.Já estou adicionando seu blog nos meus favoritos.

    Abraços

  4. E aí Paulo!! saudade de voce moço? Onde voce anda? Pois é, escever é um dos meus meus queridos passatempos…abração!

  5. “prefiro ser essa metamoforse ambuilante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…

  6. “prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo…

  7. Só faltou mencionar esse outro brilhante poeta né Jussara…abraços.

  8. Talentoso!!!

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