Quando voce vai virar homem, hein rapaz?!

Regressão

Por Luiz C Leite

Dezembro é para mim um tempo especial. Não apenas por causa do Natal e de sua gostosa significação, mas também por causa da mangueira. Dezembro é a estação das mangas, ou o começo dessa estação gostosa… é tempo de lambuzar-se com o caldo amarelado dessa minha fruta predileta.

A minha alegria é abrir a janela do quarto e observar o sol da manhã realçando com seu brilho gentil aquelas formidáveis “pepitas” de ouro ovaladas que pendem de seus raminhos pelas galhas das mangueiras…

A imagem apela para memórias que conduzem aos recônditos mais bucólicos da alma. Evoca paragens edênicas e provoca certa nostalgia, coisa essa experimentada pela maioria das pessoas, ainda que raramente descrita. A relação nostálgica de cores, sons e cheiros com a infância remota, a saudade da inocência e o desejo impossível de retornar e revisitar os tempos em que “éramos felizes e não sabíamos” é comum a todos.

Psicanaliticamente podemos compreender essa saudade da infância como a tendência geral à regressão. Porque “adolescer” é “crescer com dor”, e a posterior idade adulta é um exercício de desmantelamento gradativo e implacável das projeções fantasiosas concebidas nos anos da inocência, não raro encontramos pessoas adultas comportando-se, sem se dar conta, como se fossem crianças. Todos nós regredimos de quando em vez.

Alguns percebem de maneira suficientemente madura que estão se comportando como meninos(as) e logo retornam da sua regressão, tomam medidas adultas e prosseguem suas atividades, desempenhando os seus papéis sociais como pessoas maduras. Outros, entretanto, regridem aos anos dourados da infãncia e de lá não retornam, muito embora as décadas de acúmulo cronólogico já os tenha distanciado em muito daquele tempo mágico.

É inútil a reprimenda comum tipo “cresça”!, “Quando voce vai virar homem”! Tais pessoas por alguma razão não desenvolveram os mecanismos necessários para lidar com a crueza dos fatos no mundo real… regridem, refugiam-se na infância e recusam-se a assumir a dura tarefa de capitanear suas próprias existências. É comum nesses casos o processo de auto-vitimização. O mundo está contra elas. Todos as perseguem. Elas tem uma imensa dificuldade de arcar com o ônus de suas escolhas erradas, de seus atos mal planejados. Tornaram-se adultos cronologicamente sim, mas só cronologicamente. Psiquicamente permanecem crianças. Creio que todos nós conhecemos alguém assim.

Esses amados amigos e parentes nossos demandarão trabalho árduo para conduzi-los a um reajuste até que o o descompasso entre a fantasia e a realidade seja minimizado. Tais pessoas não tem culpa de serem assim. Elas precisam de ajuda. A dissolução de certos conflitos intra-psíquicos, que de certa forma significa a minimização desse descompasso, trará jeitosa e gradativamente o indivíduo da sua “residência” antes fixada na infância, para a realidade atual, o que o capacitará a começar a dar passos mais firmes no mundo concreto do qual até então ele vinha fugindo.

É injusto da nossa parte querer que essa criança corra uma maratona sem que antes tenha aprendido a andar… Mas também é extremamente difícil aturar o comportamento reincidente desses. O que fazer? Tratá-los como crianças ou exigir dos tais uma postura adulta? Te deixo com o dilema… deixe a sua opinião no comentário.

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9 comentários sobre “Quando voce vai virar homem, hein rapaz?!

  1. Hercules disse:

    Olá mano, que Deus te abençoe, e abençoe o seu intelecto tão brilhante. Mais uma vez só posso te parabenizar pelo maravilhoso texto, mas… quanto as questões, FREUD explica tudinho.

    Abraços

    Hercules
    PS. continuo de aguardando em Dez para comermos muitas mangas

  2. Ludmila disse:

    Pr. Luiz, eu penso que não tem jeito, se a pessoa não quiser, não tem mesmo jeito. É uma escolha, nada importa, o que interessa é apenas não ser importunado, é não ver a sua “realidade” invadida ou ameaçada. Você pode até mostrar, mas a pessoa não quer ver. É realmente um refúgio uma vez que a realidade é tão dura, e encará-la, quando se é tão enganado, é muito penoso. Superar a mágoa de ter sido enganado por tanto tempo, sobre tantas coisas, se não fizer da infância o refúgio, pode ser que a pessoa busque um outro ponto de refúgio, também não voltado para a realidade cruel que se está tentando deixar o mais longe possível. É um mundo muito particular, intocável, impenetrável. Esse mundo é mantido pelo máximo de tempo que for possível. A realidade é muito dura, muito feia, muito cruel.

    Também é verdade que alguns fatos são fortes demais. Não foi possível deixar de ser visto. A casca quebra, a caverna se abre, a pessoa é “obrigada” a se deparar com a vida e a “apresentação” é feita da maneira mais difícil possível, e não existe apresentação pior do que a morte. As enfermidades graves em pessoas queridas também constituem um fator forte para o despertamento da pessoa. Mesmo assim, posso garantir que pessoas optam por continuar lá atrás, vivenciam aqueles momentos com toda a alienação que for possível e voltam para o seu mundo tão particular. Outras despertam, mas como não houve durante a vida a natural preparação gradativa para tudo, tanto de bom quanto de ruim, sofrem um baque tão grande que se erguer é tarefa doída,´pois a pessoa está muito atrasada no tempo. Tantas pessoas já sabem de tantas coisas há tanto tempo e a pessoa ainda dando os primeiros passos. Depois que foram despertos (os que quiseram), é uma jornada difícil. O auxílo do homem pode ser até bom, mas a força para a superação de tanta fragilidade, tanta falta de preparo, vem do Senhor. A Paz do Senhor

  3. Jussara Motta disse:

    Como exigir que alguém se comporte como adulto se ela deseja ter comportamento infantil!Existe o momento certo e pessoas determinadas as quais poderemos exigir a mudança, e mesmo assim ela têm que querer! Em algumas situações somos obrigados a aceitá-las com suas dificuldades porque assim temos que conviver.Se a pessoa não muda, mude você!
    A questão é sou obrigada a conviver ou devo excluir da minha convivência!!!
    Jussara Motta.

  4. etiel disse:

    Pois é, Jussara, eis a questão… Entra aí o exercício da misericórdia, onde o forte tolera o fraco. Não somos obrigados a nada, entretanto temos que fazer escolhas. O que voce escolhe?

  5. Anirsis F. Brito disse:

    Acho que a realidade deve ser mostrada,ou melhor apresentada,bem claramente,deixando bem claro a questão da escolha.Mostrando que vivemos de escolhas,elas podem ser boas ou ruins,a cada dia temos que fazer escolhas.Crescer é uma escolha,que nos trará ganhos e perdas.Toda escolha implica em perdas e ganhos,daí as pessoas terão que avaliar o que for melhor pra elas.Conviver com pessoas que não querem crescer,não querem mudar,da trabalho,é cansativo,daí onde entra,os mais fortes devem suportar os mais fracos.A questão
    é muito pessoal.Realmente,quando queremos mudanças ao nosso redor,mudamos primeiro.Quando mudamos,o outro também muda,quando desistimos de ocupar papéis que não são nossos,o outro ocupa.O ser humano tem a tendência de se acomodar.Encontrar e se aconchegar em seu mundinho particular. Abraços.
    Anirsis.

  6. etiel disse:

    Muito bem comentado Anirsis…o que frustra é que nem sempre o outro muda quando mudamos mas, ainda assim cada um deve fazer suas escolhas e enfrentar as perdas e ganhos das mesmas… Abraços.

  7. Gabriela Maia disse:

    Sabe Pastor, da pra compreender certas atitudes sim, elas variam de pessoa para pessoa, mas confesso que por diversas vezes com lagrimas em meus olhos dizia a Deus: “Como eu queria ser uma criança” elas não sofrem, não se preocupam, não se magoam e se acontece logo perdoam, não tem responsabilidade, são ingênuas, são puras, são simples, são queridas, são mimadas, são estimadas e estão crescendo para ter de encarar a vida.
    Talvez o meu desejo em horas agônicas e a atitude infantil de algumas pessoas seja apenas um subterfúgio para por um momento fugir daquilo que deve ser enfrentado.
    A pessoa que tem constante comportamento infantil carece de mais compreensão e amor e principalmente paciência daqueles que são já são adultos.

    Adorei seu texto. Parabéns!

  8. etiel disse:

    Ei Gabi!!!
    Voce está certa…é um subterfúgio para a fuga. Mas a paciencia e o carinho deve ser acompanhada de tratamento caso contrário não crescem. Obrigado.
    Abração!

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