um dedo de prosa

13 de abril de 2012

Telhado de Vidro

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 7:25 am
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Telhado de Vidro

Por Luiz Leite

Durante os dias, semanas e meses em que o escândalo político chamado “Mensalão” roubou a cena e monopolizou as mídias, o Senador da República Demóstenes Torres representou um dos principais papéis de bom moço, figurando como verdadeiro paladino da Ética, bastião da moral, guardião da justiça. Sentíamo-nos seguros ao ouvir seu discurso. Passava-nos a impressão de que nem tudo estava perdido, de que restava em Brasília alguma probidade. A prevaricação se instalara acintosamente pelos palácios do planato afora, o diagnóstico era câncer sim, maligno, mas para nosso alívio não era caso de metástase. Tínhamos Demóstenes. Cobrando intervenção cirúrgica e punição exemplar para todos os envolvidos nas tramóias sórdidas da politicagem execrável que se fazia no Planalto Central do Brasil, o senador não deu trégua aos meliantes de colarinho branco.

Passados alguns poucos anos, para nossa mais profunda decepção, encontramos atolado em lamaçal de catinga não menos fedentina que aquele em que se emporcalharam José Dirceu, Marcos Valério e demais asseclas, o herói que, com discurso enérgico bradou em defesa da democracia e do Estado de direito. Alinhado a um mestre da traficagem, Demóstenes vendeu-se pois, afinal, como sustenta o adágio, todo homem tem seu preço. Exposto, verificou-se que o senador tinha também telhado de vidro. A lama está nos sapatos de fino cromo alemão; O terno fino de grife caríssima também encontra-se manchado… Ainda que afirme com serenidade questionável que provará sua inocência, já se ouve dos seus próprios pares que sua defesa é insustentável.

A prova mais contundente e constrangedora foi apresentada em rede nacional. Ouvir um parlamentar da mais alta categoria dirigir-se a um contraventor como o senhor Carlinhos Cachoeira, como “professor”, é realmente preocupante. Precisei ver o vídeo mais uma vez para checar se de fato tinha ouvido aquilo que julgava inacreditável. Se um senador da república dirige-se a um contraventor como “professor”, então temos as respostas para todas as perguntas; Explica-se como se processa a corrupção neste país. Há uma escola! Vê-se quem são os seus mestres! Se o Sen. Demóstenes, que com sua cara de bom moço convencia a opinião pública, aprende com o “professor” Carlinhos Cachoeira, com quem aprendem os parlamentares barra pesada, quadrilheiros comprovados?

Em meio à esse absurdo e revoltante rosário de casos intermináveis de corrupção, onde senadores receberem favores de bicheiros, deputados abusam de suas prerrogativas e conferem a si mesmos salários além da conta, uma afronta ao contribuinte, surge o Deputado Tiririca lamentando que o partido não tenha aprovado seu nome para candidatura à prefeitura da cidade de São Paulo… Pode parecer engraçado. Alguém pode dizer que é mesmo coisa de palhaço mas, parece que Tiririca tem planos para ir mais longe.  Em mais de um ano de mandato não faltou a uma sessão sequer!!! Como é? Pois é. Atento à cada moção, o palhaço tem se mostrado mais sério do que se esperava. Tomara que tenha se matriculado na escola da boa política e eleja como mentores homens e mulheres de boa fé que lhe ensinem a “graça da garça”. Qual é a graça da garça? A graça da garça é “a arte de viver em meio a lama sem sujar as vestes.”

12 de fevereiro de 2012

Crônica do Ano que Passou

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 1:11 am
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Crônica do ano que passou

Por Luiz Leite

Escrever uma crônica do ano que passou é como rascunhar uma crônica de todos os anos que passaram e daqueles que ainda virão. Salomão sabia disso. Escrevendo o seu estupendo e provocante Eclesiastes diz: “O que foi é que há de ser e o que se fez isto se tornará a fazer, nada pois há novo debaixo do sol.”

Vivemos dias conturbados, diria tanto o homem comum como os cônsules nos dias agitados em que a 13ª legião de César cruzou o Rubicão e marchou sobre as terras da Itália. Mas a mesma coisa seria dita por cidadãos de eras passadas e séculos porvir. Há muito barulho, muitos rumores no ar. Vivemos dias conturbados – conclui pasmada cada geração. Quem disser o contrário será duramente resistido. Quando o otimista Leibniz disse que vivemos no melhor dos mundos possíveis, atraiu o sarcasmo do cínico Voltaire que, usando o terremoto que destruiu Lisboa em 1755 como argumento, criticou severamente o crente Leibniz.

Crises de todas as ordens sacodem a ordem social a cada ano, séculos a fio. Disputas intestinas na política, desvarios na condução da economia,  colapsos institucionais, desastres ambientais sacodem o mundo e alimentam a mídia a cada dia. O mundo parece estar à beira de um precipício. Em meio à tormenta, uma boataria desencontrada insufla nas massas um sentimento de suspense ainda maior, em virtude da falta de certeza em relação às informações veiculadas. Mais uma vez estamos às voltas com o fim do mundo!

Enquanto isso, no planalto central do Brasil a sucessão ininterrupta de CPIs tece o enredo de uma novela de péssima qualidade. Nada mais sem graça do que um roteiro com final previsível. A troca frequente e frenética de farpas e acusações, sempre e eternamente despachadas como intriga da oposição, parece nunca conduzir a qualquer efeito. Cortinas de fumaça são criadas para encobrir os desmandos e desvios de meliantes sofisticados. Empertigados dentro de seus ternos bem cortados pelas melhores e mais caras grifes, uma afronta à nação, permanecem administrando suas carreiras sem maiores desconfortos.

Os escândalos políticos continuam viscejando como sempre. Em países como EUA ou China muitos dos figurões da vida pública nacional estariam presos ou mortos! Pois muitos protagonistas de maracutaias homéricas permanecem, ainda que afastados de seus cargos por improbidade, influenciando e traficando influência nos palácios de Brasília. Sempre e eternamente repetem o mesmo refrão: Inocente! Na maioria das vezes devem sim, mas batem pé e, ofendendo a opinião pública, dizem para si mesmos entre dentes: “Devo e não pago; nego enquanto puder!”

O próprio governo se encarrega de blindar seus expoentes, mesmo sabendo dos seus desvios. Ainda que, cínicos, afirmem nada saber, sabemos bem que sabiam de tudo! O último popular e celebrado governante que tivemos tornou-se notável pela capacidade que tinha de acobertar os crimes de seus correligionários delinquentes que, alegando perseguição, sempre mostram-se tranquilos ante as acusações, seguros que estão da impunidade. Poderia ser  dado aqui um rosário imenso de nomes e eventos que não resultaram em absolutamente nada.

Desespera deitar o olhar sobre o cenário e concluir que uma crônica do ano que passou servirá para descrever esse ano e todos os anos que virão, bastando apenas mudar as datas.

27 de outubro de 2010

Espetáculo Mambembe

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 7:19 am
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Espetáculo Mambembe

Por Luiz Leite

Este artigo trata do pastor que ataca o bispo que ataca o pastor… É absolutamente lamentável que façam da cena evangélica o circo que aí está, promovendo esse espetáculo mambembe, onde o nome de Jesus acaba virando mote na boca dos incrédulos. Qual não deve ser a alegria do Diabo ao assistir supostos representantes de Cristo se digladiando, acusando-se mutuamente, representando um papel que sempre foi dele! Creio que esse é um dos raros momentos onde a velha e vaidosa serpente não se ofende quando lhe roubam a cena.

Já não bastava a horrível controvérsia envolvendo Silas e Caio… quem ganhou? quem perdeu? certamente o Reino não foi edificado nem as vidas dos cidadãos do Reino. Na verdade todos perderam, todos sairam derrotados, tristes e envergonhados dessa rinha  insana onde pastores, como galos de briga, afiam seus esporões e se põem a desferir golpes  em seus pares… Estou enojado com tudo isto.

Não, eu não desconheço a história. Sempre houve disputas acaloradas entre líderanças eclesiásticas. As grandes refregas doutrinárias do passado cristão revelam grandes campeões da fé envolvidos em batalhas filosófico teológicas que definiriam mais tarde o perfil doutrinário da igreja cristã. Assim foi que Atanásio defendendo a divindade de Cristo, combateu Ário que em sua heresia afirmava ser Jesus apenas um ser criado. Tertuliano atacou a Marcião, o herege a quem Policarpo de Esmirna chamou de “primogênito de Satanás”.  Agostinho de Hipona combateu Donato de Casa Nigra, ajudando a extinguir a heresia donatista do norte da África…

Enfim, esses homens e muitos outros que se desgastaram no labor de defender a integridade da fé cristã, enfrentaram os heresiárcas como Ário, Marcião, Donato, Sabélio, Montano, entre outros, para garantir o corpo de doutrinas que hoje definem o que é o cristianismo; somos gratos aos saudosos apologetas, guerreiros que batalharam pela fé que foi confiada aos santos.

Diferentemente do teor das pelejas travadas pelos defensores da fé do passado, o que vemos, entretanto, envolvendo os líderes contemporâneos citados, é uma briga de supostos representantes do Reino, refletindo o duelo político entre Dilma e Serra, o que torna a coisa por demais triste…  é deprimente ver pastores se engalfinharem em conflitos desse nível… Até compreendo a atitude de Silas Malafaia que se sente  ultrajado com as insinuações do Bispo Macedo, como se vê no vídeo a seguir, mas é uma lástima que a discussão envolvendo líderes de grande projeção não passe de um bate boca patético que não edifica a ninguém! A briga pessoal que se torna pública, com sua troca de farpas, não serve em definitivo à causa do Reino, pela qual ambos dizem lutar.

13 de outubro de 2010

Uma vela pra Deus e outra pro diabo

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 12:23 am
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Uma vela pra Deus e outra pro Diabo

Por Luiz Leite

Ainda que de certo modo desconsiderada pelos grandes atores da política nacional, a religião deixa de ser simples peão no tabuleiro da disputa eleitoral e assume status de peça importante em tempos de campanha. Um deslize por parte de um candidato descuidado na abordagem de temas sensíveis pode colocar uma eleição a perder. É famosa a campanha perdida por Fernando Henrique Cardoso pela prefeitura da cidade de São Paulo quando, em debate, vacilou em responder à pergunta se cria em Deus. Dizem os especialistas que foi nesse ponto exato que o placar virou em favor do falecido Jânio Quadros.

Políticos, salvo raríssimas excessões, têm a capacidade de se transformarem, como camaleões, ajustando-se manhosamente aos ambientes de diversidade complexa. Em época de campanha é comum ver certos candidatos acenderem, literalmente, “uma vela pra deus e outra pro diabo” ao participarem de cerimônias religiosas cujas doutrinas divergem inteiramente umas das outras. Ora estão entre os representantes de uma comunidade judaica, ora num culto evangélico pentecostal, ora no santuário católico de Aparecida, ora lavando juntos com  sacerdotes do candomblé as escadarias da igreja do Bonfim…

Sua aparição em um culto religioso, todavia, não é suficiente para convencer os religiosos de que este ou aquele candidato é simpático à sua causa. Os fiéis encontram-se cada dia mais envolvidos no processo democrático e fazem questão de saber onde realmente se posicionam os postulantes. No caso do universo cristão, seja católico ou protestante, o sinal já foi enviado: cuidado! temos o poder de mudar o rumo das coisas. Ainda que destoem num ou noutro ponto de doutrina, católicos e protestantes aglutinam-se e defendem em uníssono opinião semelhante em torno de temas como aborto, pena de morte, homossexualismo entre outros. Devido ao poder de influência e mobilização de milhões de fiéis, a grande mídia nessas ocasiões se vê obrigada a ouvir as lideranças cristãs e dedicar espaço especial à opinião das mesmas em suas publicações.

As revistas Carta Capital, Época e Veja trouxeram, simultaneamente, como matéria de capa em uma  edição de outubro, o tema sempre polêmico do aborto. Praticado clandestinamente em clínicas dirigidas por profissionais de probidade duvidosa, o aborto ganha relevância no debate democrático com poder de influenciar os resultados das urnas. Os candidatos esforçam-se para não desagradar o eleitorado, elaborando discursos de interpretação dúbia, na tentativa de hipnotizar e confundir os reais, mas lamentavelmente desinformados detentores do poder de decisão do pleito.

Sinceramente fico curioso ao ver ícones da cena evangélica emprestando sua voz e poder de influência a candidatos que nada tem a ver com sua confissão de fé. Por que setores do pentecostalismo como a ala da Assembléia de Deus, dirigida pelo Bispo Manoel Ferreira faz campanha para a candidata do PT? Por que o jovem cantor de grande sucesso no meio gospel, fez campanha e emprestou sua bela e ungida voz ao candidato (ativista gay) ao governo de Minas? Por que o grande e influente telepregador retira seu apoio a uma candidata respeitada e reconhecida como cristã e migra para o ninho do tucanato? Será que é apenas a expressão sincera de suas convicções políticas? Bom seria que fosse. Gostaria que fosse. Será que também não estamos acendendo duas velas??  Os três citados, todavia, não estão desacompanhados. O vídeo a seguir revela alguns outros.

29 de setembro de 2010

Maquiavel, Militância e Ética

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 5:40 pm
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Maquiavel, Militancia e Ética

Por Luiz Leite

“Aquele que quer ser tirano e não mata a Bruto e o que quer estabelecer um Estado livre e não mata os filhos de Bruto, só por breve tempo conservará sua obra.” (Nicolau Maquiavel)

Ao contrário do que se pode pensar, Maquiavel não foi um cara “maquiavélico”, no sentido mais demonizado que o termo assumiu. A adjetivação oriunda de seu nome não deveria se aplicar a ele. O que fez esse formidável pensador político foi identificar as regras desse jogo intrincado e revelá-las àqueles que porventura imaginam ser essa arena lugar para ingênuos.

Ao tratar de política, Maquiavel fez o que ninguém antes havia feito. Abordou a questão de forma realista, como ela é, e não como idealmente deveria ser. Não há considerações delongadas acerca da honra e da ética. Aquele discurso que recorre à religião e moralidade soa por demais hipócrita aos seus ouvidos. De algum modo Maquiavel está dizendo: “Vamos ser francos aqui. Essa arena não é lugar para santos… O uso da devoção é desejável, mas o emprego da força é necessário, seja ela de que modo for.”  A frase pela qual é mais lembrado: “Os fins justificam os meios”, ainda que erroneamente compreendida – segundo os especialistas quis dizer que os fins determinam os meios – expressa bem que o labor político nem sempre se sujeita às regras éticas, como um beato se esmerando para obedecer os preceitos de seu credo. Os fins determinam os meios a serem utilizados para que os mesmos sejam alcançados; As manobras, os segredos e denúncias, os subornos, o tráfico de influência, são algumas das contas desse enorme rosário, geralmente recitado em todas as refregas dessa natureza.

É impossível precisar quando exatamente a humanidade testemunhou suas primeiras escaramuças políticas. Em tempos remotos nalgum lugar nos enclaves férteis do Crescente, nas úmidas florestas tropicais das américas, nas savanas africanas ou nas pradarias intermináveis do coração da Ásia, homens mediram forças e armas para assegurar o controle sobre o seu grupo. Primeiro foi a força bruta. Não apenas os feios e fedorentos Neandertais se utilizaram desse expediente macabro para se impor. O presunçoso Homo Sapiens, desde que teoricamente emergiu das cavernas lúgubres para inventar a civilização, também tem feito o mesmo.

Ainda que continuemos nos matando – os métodos, hoje refinados, garantem suavizar o impacto da barbárie – já não se faz uso da borduna e do tacape. Inventamos a militância política, um jeito manhoso de se passar a perna nos opositores, sem ter que necessariamente atravessar-lhes com uma lança. Uma das acepções do termo “campanha” é guerra; Um político em campanha não é apenas um bom cidadão querendo cuidar dos interesses da Polis, mas um dos reclamantes à coroa. Ao entrar numa batalha para tentar assegurar seu naco na partilha dos despojos, não é raro que esses contendores usem todos os recursos disponíveis.

Política sempre envolveu violência. Os primeiros governadores dos povos foram guerreiros que não hesitavam em cortar as cabeças de seus desafetos. Assim, os meios militares presentes na disputa pelo poder desde há muito revelam o caráter belicista desse mister; Numa guerra muitas vezes a primeira coisa que se anula são as regras da ética, e isto pode ser verificado em todo tipo de campanha, desde uma disputa de grande proporção até, pasme o leitor e admita constrangido, uma eleição de condomínio! (no meu prédio de apenas 6 andares já presenciei isto!)

No que respeita a esse condomínio continental da terra brasilis, vemos nesses dias, como em toda campanha, as denúncias, os dossiês, calúnias, farpas, revelações, golpes baixos, visando destruir o adversário. Eu, como certamente voce também, recebi um a enxurrada de emails retratando uma das candidatas à presidência como a um demônio, vestido de Prada, é claro. Não daria o meu voto à tal candidata de modo algum pois, ainda que tenha apoiado o partido até o último pleito, perdi completamente a confiança em seu discurso (haja lama). Daí, entretanto, a demonizar a candidata da forma como tenho observado, acho “maquiavélico” demais. Seria como partilhar dos mesmos valores que contornam e adornam a mentalidade daqueles que se lançaram na disputa sem se importarem com os meios, desde que atinjam os fins desejados.

Curiosamente, uma segunda candidata (fato inédito pois na nunca na história desse país tivemos duas mulheres na corrida pelo direito de morar no palácio do planalto) garante numa de suas entrevistas que sua postura para com os adversários, como parece ser próprio do seu perfil, será justa. Neste ponto torcerei por ela e contra Maquiavel que generalizou: “Todos os profetas armados venceram, e os desarmados foram destruídos.” Seria um sonho ver o velho Nicolau queimar a língua e assistir aquela moça magricela, de origem humilde e saúde frágil subindo a rampa do palácio!

14 de setembro de 2010

Nunca na história desse país…

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 11:52 pm
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Nunca na história desse país…

Por Luiz Leite

Lula lá” – cantávamos nos dias da inocência - “brilha uma estrela…”  – e sonhávamos com o presidente operário. Que o moço tem estrela, já não se questiona. Sua trajetória fala por si. Alcançou, por força de um carisma notável e uma sagacidade política rara, o lugar mais alto, a posição mais ambicionada. 

O cognome “Sapo barbudo”, a ele dado pelo lendário Leonel Brizola, era profético e nem sequer desconfiamos à época. Não imaginávamos que o Sapo viria a ser transformado em príncipe através dos beijos que lhe demos: nossos votos. O príncipe, que a princípio encantava com sua simplicidade plebéia, começou a inchar, revelando a natureza do verdadeiro sapo-boi que sempre carregou em si. A prepotência foi se tornando sua marca registrada. Foi-se o tempo em que cuidava para reprimir seus arroubos de grandeza.

Hoje começa a amedrontar o discurso desse senhor que goza de um nível de aprovação popular nunca antes visto na estória desse país. Calma, não quis dizer História não, quis dizer mesmo estória, pois parece-me que estamos vivendo um conto, ou caímos num conto? É como se estivéssemos presos na trama de uma crônica sobre a corrupção crônica da desavergonhada alma latina.

É verdade que encontramos corrupção em todos os governos, mas nunca, repito, como ele tanto gosta de falar, na história desse país, se viu algo igual. O Mensalão, de longe o maior escândalo político da república, esquema montado pelo governo para comprar os votos da base aliada para tocar seus projetos, nos deixou ultrajados. Desnudou-se as vísceras do Congresso nos deixando ver a feiúra de sua nudez. Quando todos esperavam (ou pelo menos torciam) que houvesse uma devassa, desratizando o Congresso nacional, a blindagem da malandragem provou-se mais eficaz do que se imaginava. Tivemos apenas três deputados cassados. Dezenas conseguiram, e isto o diabo sabe como, escapar ilesos.

No escândalo dos “sanguessugas” (não poderia haver denominação mais apropriada), mais de 80 senadores e deputados foram investigados, mas ninguem até hoje foi punido; e mais uma vez o desfecho revestiu-se de impunidade, e tudo terminou numa pizza colossal.  Se me desse ao trabalho de mencionar aqui todos os atos da bandidagem com imunidade parlamentar, a prosa seria longa. A corrupção dos chamados governos burgueses que antecederam o PT é arremedada de forma grosseira e o partido que se fez eleger sob o discurso da ética hoje escontra-se desgraçadamente enxovalhado pela mesma lama que tantas vezes denunciou.

Além da corrupção generalizada, corremos também o risco de ter a iniquidade institucionalizada pela lulocracia que aí está; A punição dos dois deputados católicos Luiz Bassuma e Henrique Afonso,  por se posicionarem contra o aborto (fato que levou a CNBB a conclamar cristãos de todas as cores a não votarem em Dilma), revela que o partido além de ferir valores cristãos fundamentais, não tolera aqueles que os cultivam. Estamos diante de um momento político mais crítico do que a maioria imagina.

11 de fevereiro de 2010

Curral Santo – A conspirata

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 6:20 am
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Curral Santo – A conspirata

Por Luiz Leite

Esse blog não se presta a polêmicas da política e da religião; Muito embora eu registre aqui reflexões filosóficas e teológicas sobre a fé cristã, e de vez em quando o binômio nefando (religião e política) surja em um artigo ou outro, (religião e ética; Emil Brunner e marcha pra Jesus…) aqui não se recorre ao expediente do sensacionalismo ou denuncismo para acusar este ou aquele que porventura se utilize do povo como moeda de troca.

A política ideológica, mais que a partidária, me atraiu logo cedo. Tive convicções comunistas na juventude e fui desde sempre um eleitor do PT;  mesmo depois de convertido ao Evangelho, porque de alguma maneira precisava exercer a minha cidadania através do voto, escandalizava irmãos da fé que sustentavam que crente não vota em comunista. O fato é que despachava os partidos de centro e de direita como representantes da elite e achava que o conteúdo social do programa de governo do PT tinha mais consistência. Todavia, jamais fui cabo eleitoral do PT; nunca tentei influenciar a quem quer que seja a votar na minha preferência política.

Quase passei mal ao ler o Manifesto de Evangélicos em apoio à candidatura de Lula à presidência em 2002. Publico esse artigo revoltado por saber que dentro em breve a coreografia descarada da eleição começará a mostrar suas vergonhas sem qualquer pudor (afinal a impunidade é fato). As mal faladas “raves” que acontencem por aí, regadas a drogas e sexo, não passariam de “kindergarden” se comparadas com os sóbrios jantares das lideranças políticas nas mansões à beira do lago Paranoá.

Alianças já vêm sendo costuradas para garantir apoio à sucessora de Lula, Dilma Roussef; Líderes da Igreja católica ou protestante, pentecostal ou neopentecostal, por todo o país já estão ensaiando seus passos para entrar na dança do poder, das conveniências, do tráfico de influência, dos favores de uma “mão que lava a outra”, mas que, por mais que “lavem-se” continuam imundas… e os pobres fiéis, manobrados como gado, mal imaginam que estão sendo levados numa ciranda de interesses que está muito além da sua capacidade de compreensão crítica.

Aparentemente inocente, assinado por líderes de diversas denominações, o tal Manifesto (que faz parte de um acordo formal dessas lideranças com o PT) dizia:

“Apoiamos Lula para Presidente porque reconhecemos que várias propostas do seu Programa de Governo se identificam com a vocação profética da Igreja de Jesus Cristo.

Uma outra razão para apoiarmos Lula é a experiência que comunidades evangélicas têm tido com administrações do seu partido, que têm sido verdadeiras parceiras na construção do nosso País. Essas experiências têm dado provas de que tais relações podem ajudar na viabilização dos nossos ideais, sempre na perspectiva do Estado laico e da autonomia das comunidades religiosas.

Por último, expressamos publicamente nosso apoio à candidatura de Lula para contrapor os maldosos e inconseqüentes boatos que têm levado alguns a entenderem que sua chegada à Presidência da República irá obstruir a caminhada das Igrejas Evangélicas.”

Segundo informação do blog do Julio Severo nomes grandes assinam o tal documento:

NILSON FANINI Pastor da Igreja Batista, ex-presidente da Aliança Batista Mundial e presidente da Convenção Batista Brasileira

SILAS MALAFAIA
Pastor da Igreja Assembléia de Deus do CIMEB (Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil)

ROBSON RODOVALHO
Bispo fundador e presidente da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra

JABES ALENCAR
Pastor Igreja Assembléia de Deus no Bom Retiro, Presidente do CPESP (Conselho de Pastores do Estado de São Paulo)

ESTEVAM HERNANDES
Apóstolo fundador e presidente da Igreja Renascer em Cristo

GUILHERMINO CUNHA
Pastor presidente da Sociedade Bíblica do Brasil e vice-presidente do Supremo Concílio Presbiteriano

JORGE LINHARES
Pastor fundador e presidente da Igreja Batista Getsêmani

GETÚLIO MAPA
Pastor da Casa da Benção do Rio de Janeiro

KEN JIKIKUCC
Pastor da Comunidade Evangélica da Barra e organizador Marcha para Jesus

IDEKAZO TAKAYAMA
Pastor da Igreja Assembléia de Deus Nipo Brasileira

PAULO LOKMAN
Pastor da Igreja Metodista

CALEB MOREIRA
Pastor da Igreja Evangélica Rocha Eterna

ANTÔNIO GEAM
Pastor da Igreja Evangélica Congregacional da Relva

FÁBIO LEÃO
Pastor da Igreja Socorrista Evangélica

ROBINSON CAVALCANTE
Bispo da Igreja Anglicana

EVERALDO DIAS
Pastor da Igreja Assembléia de Deus

BENEDITO DOMINGOS
Vice-Governador do DF e membro da Assembléia de Deus Madureira

LOURENÇO VIEIRA
Pastor da Convenção Batista Brasileira

ROSINHA GAROTINHO
Governadora eleita no Estado do Rio de Janeiro (PSB), Igreja Presbiteriana

BISPO RODRIGUES
Deputado Federal do Rio de Janeiro (PL), Bispo Igreja Universal do Reino de Deus

ANTHONY GAROTINHO
Ex-Governador do Rio de Janeiro (PSB), Igreja Presbiteriana

MARINA SILVA
Senadora do Acre (PT), Igreja Assembléia de Deus

WALTER PINHEIRO
Deputado Federal da Bahia (PT), Igreja Batista

GILMAR MACHADO
Deputado Federal de Minas Gerais, Igreja Batista

BISPO WANDERVAL DE JESUS
Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus

MAGNO MALTA
Senador Espírito Santo (PL), Ex-presidente da CPI do Narcotráfico e fundador do projeto bem-viver, Igreja Batista

MARCELO CRIVELLA
Senador eleito do Rio de Janeiro (PL), Bispo da Igreja Universal do Reino de Deus

BENEDITA DA SILVA
Governadora do Rio de Janeiro (PT), Igreja Presbiteriana

WASNI DE RAURE
Deputado Distrital (PT), Igreja Batista

RAMON VESLASQUEZ
Prefeito de Rio Grande da Serra, Igreja Batista Missionária

ALMIR OLIVEIRA MOURA
Deputado Federal do Rio de Janeiro (PL), pastor representante da Igreja Internacional da Graça

*** Não é por menos que necessitamos de uma revolução estrutural! (leia o artigo abaixo) Não me coloco aqui como palmatória de Deus, pois como todos, também anseio e preciso de um avivamento. Confesso os meus pecados (mente deslavadamente quem se faz passar por santarrão) e os pecados da nação, e como Daniel oro: “Ó Senhor, nós e nossos reis, nossos líderes e nossos antepassados estamos envergonhados por termos pecado contra ti.” (Dn 9.8)


15 de novembro de 2009

Emil Brunner e Marcha pra Jesus

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Marcha para Jesus e Emil Brunner

Por Luiz Leite

Texto publicado pela Revista Eclésia (coluna Pastoral), edição de Dezembro 2009

Muitos acham que a parada gay é uma manifestação acintosa. Os evangélicos, particularmente, consideraram uma provocação o fato de que a tal parada tenha acontecido exatamente no mesmo dia em que se realizou a Marcha para Jesus.

Fernando de Barros e Silva, em sua coluna no jornal Folha de São Paulo, escrevendo sobre o evento que anualmente mobiliza milhões de religiosos na capital paulista disse que, “há um ar de família entre a marcha dos evangélicos e a marcha política”, fazendo clara referência ao senador e bispo Marcelo Crivela, bem como a um deputado do baixo clero, e também pastor, presentes no evento em demonstração de apoio ao casal Hernandes, líderes de uma grande igreja e recentemente envolvidos em vários episódios constrangedores.

Muito embora a parada gay tenha tido apoio e participação de políticos de peso como o governador do estado Sergio Cabral e o prefeito da cidade do Rio de Janeiro Eduardo Paes, não se fez nenhuma crítica mais séria à presença dos figurões da política carioca salvo uma piadinha aqui e ali. Uma parcela paranóica poderia interpretar o artigo como perseguição aos evangélicos. Prefiro crer que não seja.

O articulista da Folha apontando para o conluio de pastores e políticos e pastores políticos, conclui seu artigo com uma precisa e dorida estocada: “Diante da coalizão entre Jesus e Judas, querer legalidade hoje no país parece até coisa do Diabo.” Eu que já estava com dificuldade para dormir, num vôo da Air France para Paris, fazendo o mesmo trajeto do vôo que caiu no Atlântico dias atrás, perdi o sono de vez.

É lógico que a construção de Fernando de Barros e Silva, da maneira colocada, tem a intenção óbvia de provocar. Entende-se, todavia, que não é apenas uma provocação gratuita. A referência a Jesus e Judas, trata do relacionamento entre a igreja e a política. Uma modalidade de relação espúria, não oficial, escondida; ainda que se suspeite que naquele mato tenha coelho, as partes envolvidas não confirmam nem negam. Sem compromisso de “papel passado”, o relacionamento prossegue enquanto houver interesse para as partes. Mundano como qualquer outro contrato de “gaveta”.

Não sei se ficam claras para voce as dimensões da tragédia, mas quando o autor do texto desiste das aspirações por legalidade, causa uma impressão não apenas de desencanto, mas também de desespero; Não se pode desejar legalidade num país onde aqueles que deveriam ser os guardiões do estado de direito conduzem as coisas de maneira torta. Em sua análise perde-se a esperança de legalidade, de decência, quando pastores fazem do púlpito seu palanque e dos fieis seu eleitorado, e pior, utilizam-se das massas e de sua fé ingênua para realizar suas manobras.

Há alguns anos eu propus aos meus amigos uma campanha cujo lema era: “Salve o seu pastor. Não vote nele!” Talvez seja esta a hora de ativá-la. Ninguém deveria fornecer munição para que a igreja fosse assim atacada, muito menos os sacerdotes! Não seremos poupados nem mesmo andando no direito, quanto mais errando para alem de suas fronteiras.

Emil Brunner, um dos grandes teólogos do século XX ao lado de Karl Barth, disse em sua Teologia da Crise: “A humanidade tem sempre diante de si uma dupla tarefa: Esquadrinhar o conteúdo e esquadrinhar as expressões de sua fé.”

A marcha para Jesus é, seguramente, uma forma de expressão da fé de milhões de cristãos evangélicos. Como disse Brunner, esta expressão de fé precisa ser esquadrinhada. Antes, entretanto, de esquadrinharmos a expressão da fé, deveríamos esquadrinhar seu conteúdo, pois é o conteúdo que transforma, modela e dá as medidas da expressão pública da fé.

O problema é que ninguém quer esquadrinhar nada. Este trabalhoso e enfadonho exercício de reflexão é por demais pesado; Deixem-no para os pensadores, resmungam os praticantes da religião irrefletida. As massas querem apenas uma fé sentida. Ficam, por causa dessa superficialidade, a mercê daqueles que, especialistas em identificar e manipular anseios conduzem-nas em uma experiência religiosa questionável e pior, absurdamente rasa.

Pois se não refletirmos e esquadrinharmos o conteúdo e expressões da nossa fé, ficaremos encalhados nos bancos de areia de uma religiosidade desinformada e que inevitavelmente poderá vir a ficar deformada também. É preciso sim, como disse Emil Brunner, esquadrinhar nossa fé, ainda que este exercício possa trazer respostas que não desejamos ouvir.

Antes de Brunner, o apostolo Paulo nos chama a esse exercício de reflexão quando escreve aos Coríntios, uma igreja tristemente marcada por muitos escândalos e desvios de percepção doutrinária. Diz o apostolo: “Se julgássemos a nós mesmos, não seriamos julgados” (I Co 11.31). A orientação do apóstolo Pedro, por sua vez, chama a atenção para uma vida cristã refletida quando insta que “pela prática do bem” façamos “emudecer a ignorância dos insensatos”.

Os insensatos dizem em seu coração que não há Deus. Se aqueles que sustentam o testemunho de Deus continuarem municiando os incréus com uma postura carregada de poses suspeitas, veremos frustrado o esforço daqueles que labutam de sol a sol nessa seara imensa. Esse exercício de exame da fé em seu conteúdo e expressão poderá sem dúvida nos poupar de muito vexame, nos ajudando a evitar não só o mal, como até mesmo sua própria aparência.

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