um dedo de prosa

30 30UTC Setembro 30UTC 2009

Explicando o Inexplicável

Arquivado em: Pensamentos — luiz leite @ 11:39 pm
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Explicando o Inexplicável

Por Luiz Leite

Texto publicado na Coluna Pastoral da Revista Eclésia, edição Set/09

É imenso o desafio de se dar explicação ao inexplicável. A filosofia, para lidar com esses becos aparentemente sem saída e para colocar uma mordaça na boca da irrequieta razão que quer fazer sentido de tudo, inventou a contingência. Todos os eventos que estão além da nossa capacidade de processamento podem enfim ser enfiados no escaninho da contigência, deixados pra lá… não há por que, nem pra quê… Esquece!

Resta aos pobres e limitados pensadores considerar a contigência, pois há muita coisa para as quais simplesmente não há explicação. Conclui-se que temos que nos resignar diante do fato de que coisas ruins acontecem, que o universo é um sistema aberto em termos de possibilidades e que essas não obedecem a um padrão claro ou lógico. Afinal, diria o existencialista ateu, tudo é absoluta e absurdamente despropositado. Não há nenhum padrão nos acontecimentos. Não há nenhuma inteligência superior e amorosa governando nada!

A inescapável e ardilosa armadilha da contingência permanece com sua boca aberta, pronta a tragar filósofos e teólogos. O acaso nos deixa perplexos quando nos afeta direta e friamente sem consultar a quem quer que seja. As coisas simplesmente acontecem e ponto final. Homens honestos sofrem, pessoas ruins “prosperam”, crianças são abusadas… Estamos sujeitos ao desprazer, ao dissabor, indefesos diante da dor, do abandono… Os existencialistas se irritam e denunciam o mundo como absurdo! Tem hora que dá vontade de fazer coro com eles.

Por duas vezes essa semana fui convidado a olhar para o abismo através de um artigo de Ricardo Gondim, sobre o sinistro da Air France, e uma pregação de Ed Renê, que vim ouvindo no trajeto de São Paulo para Belo Horizonte. Devo concordar com Ed Renê, que se refere ao autor do livro bíblico de Eclesiastes como possivelmente o primeiro dos existencialistas. Ele flagrou o absurdo daquilo que acontece “debaixo do sol”, e pior, para horror dos crentes que tem a mania de querer defender Deus, o publicou!

Para os filósofos é bastante fácil e até mesmo confortável falar sobre a contingência. Para um teólogo crente (qual a razão do espanto? voce acha que todo teólogo é crente?), todavia, a matéria se torna bastante indigesta. Não é fácil conciliar contingência e providência. Fica difícil para o pensador teísta aceitar a contingência porque um dos seus pressupostos mais fundamentais é aquele que afirma que Deus tem o controle sobre todas as coisas e que, como disse Jesus, nem um pardal cai do céu sem o seu consentimento.

Segundo a afirmação de Jesus nada acontece por acontecer. Se “até os cabelos de vossas cabeças estão contados”, então o mundo não foi abandonado pelo Criador como querem os deistas com o seu conceito de um deus indifente e ausente. Por quê o avião caiu no mar? por quê a bomba explodiu no mercado? Por quê…? Ora todas essas ocorrências, funestas ou não, tem uma explicação sim; Nós, entretanto, nos embaraçamos para responde-las, mas o fato de não sabermos como fazê-lo não significa que sejam inexplicáveis.

A contingência é possivelmente um dispositivo esperto forjado pela razão para nos ajudar a eximir a humanidade das responsabilidades que lhe cabem. Indo além, a contingência não apenas absolve o homem da sua participação no sinistro, como também o vitimiza, nutrindo a milenar rebeldia deste contra o Criador; Este sim, é o vilão, responsável pelo caos, afinal tudo não é feitura Dele?

Admitamos: Não temos resposta para tudo. Não controlamos todas as variáveis.  Na verdade não temos o controle de nada! Isto nos irrita grandemente, ferindo de morte nossa estúpida e desmedida pretensão. Inoculados com a peçonha da serpente, ainda hoje mantemos uma pose soberba, acreditando na suprema mentira em vez de rendermo-nos humildemente aos pés da Suprema Verdade. A nossa imensa fragilidade e limitação é flagrante. Insistimos, todavia, em manter uma pose que projeta uma imagem enganosa de nós mesmos. Por nos avaliarmos por esta escala equivocada é que cometemos os tantos erros que resultam em tantas expressões de pasmo.

Aviões caem, tetos de igrejas caem, navios afundam, balas perdidas encontram alvos inocentes… a meningite mata, a gripe suína mata, a AIDS mata… morre-se no atacado, em grandes conflitos bélicos, morre-se no varejo, no recesso da família, morre-se a prestação, inalando a fumaça do tabaco, do crack ou dos gases expelidos por automóveis e chaminés… Todas essas ocorrências são em si suficientes para nos deixar prostrados, confusos e infelizes.

Sem respostas para explicar o inexplicável, resumimos o desconforto a um golpe da contingência. Ora, se tudo fosse contingencial não haveria plano algum, e por extensão não haveria também  necessidade de Deus algum. Se não há propósito, como poderíamos dirigir nossas preces a Deus e clamar: Guia-me. Por quê oramos então? Se existe um Deus que guia, então há um propósito por trás da grande trama! Assim cremos. Assim pregamos!

O autor do livro biblico de Eclesiastes diz que “Deus fez todas as coisas perfeitas a seu tempo…” Ainda que os céticos torçam o nariz quando se relaciona o surgimento do mundo a um criador, o que sustentamos é que assim mesmo foi que tudo se fez, por força do ato de vontade Daquele que criou todas as coisas, e isto, com propósito.

São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica afirma:

A criação das coisas por parte de Deus é a melhor, pois é próprio de quem é o Melhor fazer tudo da melhor maneira. Ora, é melhor fazer uma coisa em vista de um fim do que fazê-la sem visar uma finalidade. Por conseguinte, Deus fez as coisas com vistas a uma meta.”


6 06UTC Junho 06UTC 2009

A Inteligência do Evangelho

Arquivado em: Livros — luiz leite @ 5:16 pm
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A INTELIGÊNCIA DO EVANGELHO

Por Luiz Leite


Está no prelo o meu novo livro, cujo lançamento está previsto para julho próximo, pela Editora Naós. Este livro nasceu de um profundo desconforto que já há muito me acompanhava. Sempre desconfiei que estávamos perdendo alguma coisa na leitura que fazemos do Evangelho. A desconfiança se traduziu por uma certeza aterradora. Não apenas estávamos fazendo uma leitura equivocada, pior, estávamos distorcendo a grande mensagem… Segue um trecho de abertura do primeiro capítulo.

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Tanto desatino já foi cometido em nome de Deus que não é de admirar que um número cada vez maior de pessoas ao redor do globo mantenha sob suspeita o artigo da religião. Estaria Deus envolvido com tanto morticínio? Foi Ele quem avalizou as cruzadas? Endossou a inquisição? Chancelou a conquista das Américas e subsequente extermínio dos nativos americanos? De que lado ele esteve nos longos e intermináveis conflitos religiosos no Oriente Médio e Europa? Seria o Criador um senhor sanguinário e co-participante das disputas intestinas pelo poder político sob a batuta dos sacerdotes, ou tais ocorridos não passariam de manifestação sintomática das almas doentes dos homens?

Qualquer pessoa com um conhecimento razoável da história sabe bem que as cruzadas jamais foram avalizadas por Deus, como se ele houvesse conclamado os cristãos a uma guerra santa contra os muçulmanos para recapturar Jerusalém e a Terra dita santa. A primeira cruzada, lançada pelo papa Inocêncio II em 1095, foi movida por um espírito que de santo nada tinha! A finalidade não era nem um pouco piedosa.

Segundo Armstrong:

“Queria (o papa) que os cavaleiros europeus parassem de lutar entre si e de dividir a cristandade ocidental e fossem gastar suas energias numa guerra no Oriente Médio e ampliar o poder da Igreja. No entanto, quando essa expedição militar se misturou com a mitologia popular, textos bíblicos e fantasias apocalípticas, o resultado foi catastrófico do ponto de vista prático, estratégico e moral”. (3)

É sabido também que a inquisição espanhola jamais foi um ato de inspiração divina! Criada em 1483, a instituição da inquisição visava fins políticos e ideológicos e, ainda que analisada no seu contexto sócio-político encontrem-se explicações, o fato é que suas práticas e expedientes tinham mais a ver com os homens e seus demônios do que com Deus no seu trato com estes.

Os homens conseguem classificar as guerras em justas e injustas, sujas e limpas. Não importando qual seja a natureza da guerra, nem qual a nobreza do ofício, preces são elevadas aos céus, por proteção e favor. Nas competições, antes de entrar na arena, seja do futebol, do vôlei, do rodeio, do pugilismo, os oponentes invocam seus santos padroeiros, beijam suas medalhas, rezam o “pai-nosso”…

Cena pitoresca do filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, nos revela o mais inaudito ato de devoção quando uma gangue de malfeitores reza com grande fervor antes de partir para mais uma de suas perigosas empresas. De mãos dadas, com os instrumentos da morte presos às cinturas, ou pendurados nos ombros, as vozes se unem num fervor próprio dos fiéis quando a prece sobe calorosa aos céus, “Pai nosso (…) venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade… e livra-nos do mal, amém…”

Quantos papas, padres e sacerdotes, católicos ou não, benzeram as armas e “abençoaram” reis e seus exércitos antes que estes partissem para os campos de batalha? “Nunc et in hora mortis nostrae. Amem.” Tão logo recitadas as últimas palavras do rosário, liberam-se os demônios para cumprirem o seu sombrio mister. O temível cavalo vermelho dos quatro flagelos do apocalipse partiu, muitas vezes, para a ceifa macabra da guerra, sob a bênção da religião!

“O maravilhoso dessa empresa infernal é que cada chefe dos matadores faz benzer suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de ir exterminar o próximo”. (4)

Tito Lívio, historiador romano, nos conta em sua História Romana (XXIX, 27, 1-4) a prece de Cipião, o Africano, feita em sua nau capitânia, antes de partir da Sicília para atacar Cartago em 204 a.C.:

“Ó deuses e deusas que habitais os mares e as terras, eu vos suplico e vos rogo que tudo quanto tenha sido feito sob o meu comando (…) seja para o meu benefício e para o benefício do povo e da plebe de Roma (…) que vós os ampareis e os auxilieis; que permitais que estejam em segurança e que alcancem vitória sobre o inimigo; que os tragais de volta comigo em triunfo para os nossos lares, carregados de espólios e despojos; que nos concedais o poder de exercer vingança sobre nossos inimigos e adversários…” (5)

É certo que, assim como o grande general romano Cipião invocou o favor dos seus deuses e deusas antes de partir para a empresa funesta onde milhares seriam dizimados, as autoridades Cartaginesas também recorreram aos seus deuses com o fim de obter favor e assim destruírem o máximo possível de soldados romanos.

Estariam os deuses a serviço dos homens em tais empreitadas? É certo que não! Talvez seja mais certo que tais deuses não passem de demônios; demônios da ambição, da violência, da vingança… Tentando compreender a dinâmica do sentimento de vingança, esse combustível por excelência de todos os conflitos, em matéria sobre o tema, Thomaz Favaro sintetiza essa suspeição das religiões dizendo:

“Para entender a origem do desejo de vingança e aprender a domá-lo, o melhor a fazer é trafegar por fora da religião”. (6)

Tratando de um tema tão cortante como a vingança, esse sentimento destrutivo presente nas complexas elaborações da emoção humana, ao invés de recomendar a religião como mediatriz, Favaro alfineta:

“Como instituição a religião é má conselheira nesses casos”.(7)

De que religião estaria falando Favaro? A religião não deveria, supostamente, ser um agente responsável pela sublimação de tais sentimentos, abrandando o furor, a sanha assassina dos homens? As guerras religiosas através dos séculos apresentam um testemunho completamente inverso. O fanatismo religioso tem devorado as carnes de milhões numa espécie de tributo macabro a Hades, o senhor dos infernos na mitologia grega.

Escrevendo a respeito do assunto Voltaire disse:

“Quando uma vez o fanatismo tendo gangrenado um cérebro, a doença é quase incurável; (…) A religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados.”(8)

Muito embora o termo fanatismo se aplique a qualquer espécie de paixão desmesurada, é nos domínios da religião que fez carreira e granjeou maior fama. A adesão cega e irrefletida à qualquer coisa, seja doutrina filosófica, política ou religiosa, conduzirá a extremos horripilantes. A história o atesta.

Por tão grandes incongruências o mundo pós-moderno, despreza a religião instituída e relativiza os valores absolutos que ela ensina. Já não há, conclui-se, nenhuma garantia que possa servir de lastro àquilo que pregam os líderes da religião. Qualquer observador honesto concluirá que tal desconfiança não é sem razão.

Por causa de tanto descalabro, o cristianismo autêntico foi sendo maculado e distorcido ao ponto de as sociedades mais esclarecidas não só passarem a desconfiar da validade dos postulados da religião, como também a atacá-los de uma maneira cada vez mais aberta, tão logo a Igreja Romana perdeu o monopólio que exercia sobre as almas através de toda a Idade Média. A partir de então ninguém seria poupado. Tanto a instituição desvirtuada quanto a espiritualidade verdadeira seriam pesadamente atacadas.

(…)

O livro prossegue numa reflexão estonteante mas absolutamente fecunda para, por fim, demonstrar a graça e beleza da proposta mais inteligente já feita à raça humana! Vale a pensa conferir.

12 12UTC Março 12UTC 2009

Moinhos de Vento

Arquivado em: Diários I — luiz leite @ 6:07 am
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Poema Existencialista

Por Luiz Leite

Fiz 45 anos ontem. Caramba! Alguns colegas impiedosos dizem que já vou descendo a ladeira… Fato é que já não sou nem jovem (no sentido cronólogico) nem velho. Estou no meio do caminho. Não estou, entretanto, sentado à beira do caminho… estou ativo, andando NELE!

Estou mudado. Diferente. O corpo e a mente mudaram. Tenho rugas ao redor dos olhos, os cabelos estão grisalhos… a barba, outrora farta e negra como as penas da graúna, hoje resume-se a uma barbicha comportada, tomada de fios de prata ( pra não dizer brancos… é mais bonito dizer: fios de prata) Uma barriguinha que já vai exibindo um relevo saliente tomou o lugar do antigo tanquinho…

Minha mente, por sua vez, vai descrevendo um trajeto quase oposto; ao passo que o corpo vai perdendo a graciosidade da juventude, a mente vai tornando-se mais bonita, mais potente, mais interessante em todos os aspectos… Isso me alegra bastante! A mente não tem que envelhecer, a menos que o indivíduo permita; o espírito não tem que se submeter à marcha inexorável do tempo nem ao peso insuportável (para o corpo) dos anos! Essas descobertas são preciosas.

O tempo passa e os homens mudam… Ou, o tempo passa e muda os homens? Talvez ambos, ainda que alguns homens teimem em permanecer aferrados ao sistema neurótico que levantaram ao redor de si como artifícios de proteção. Os obsessivos fazem assim. Sistemáticos, eles não mudam facilmente. Eu, apesar de algo obsessivo, vou mudando… Venho mudando, à medida que prossigo, num processo ininterrupto de construção e descontrução de ideias. Aprendendo sempre, como um menino, curioso, perguntando sempre…

Minha filosofia incorporou muitas coisas “novas” através dos anos, mas de alguma forma, preservo as bases que esposei já há muito. Se voce tem alguma curiosidade acerca do lugar onde me situo hoje em meio a esse confuso universo de escolas filosóficas e, se não estiver suficientemente bem familiarizado com a sopa de letrinhas das muitas escolas de pensamento, saiba, sou um existencialista teísta da velha e boa escola Kierkegaardiana.

O poema que segue foi escrito há mais de vinte anos, quando o absurdo da existência humana em um mundo entregue ao caos começava a me chocar… O meu existencialismo angustiado revela-se na letra… Naqueles dias não tinha respostas para essa dor.

Tem certos momentos na vida

Em que fico a olhar ao redor

E vejo o homem sem saída

Vejo sua face caída

Olhar embaçado, sem brilho e sem cor

No peito calado um grito

Da mente apagada a lembrança

De quem por cuja semelhança

Do barro e de um sopro veio a existir

Vêem-se nos rostos opacos, nas rugas

Em alto relevo a expressão do medo

Foge-se de monstros, moinhos de vento

Produtos mentais de falsos pensamentos

Almas doentias, existências vazias

Áridos desertos de dor e aflição

(…)

Encontrar Jesus foi fundamental para dar “sentido” ao absurdo e decifrar o caos. É uma afronta grave para alguns essa volumosa pretensão de se conferir sentido ao absurdo da existência humana. Eu sei que isso irrita profundamente os existencialistas sartreanos em seu ateísmo mórbido; honestamente, gostaria que todos eles fossem inundados pela alegria indizível que hoje tenho.

Envelhecer filosoficamente sem amadurecer espiritualmente é trágico. Vou ficando velho, esperando, como diz Quintana, pelo momento de finalmente poder deitar de sapatos, mas sem qualquer receio… Sou um existencialista sem crise, se é que tal coisa é possível!

Essa paz de espírito e essa confiança no desfecho do drama só podem ser encontradas em Jesus. Nele, por ele e para ele existo. Glória pois a Ele! E quanto às rugas… na verdade são apenas marcas de expressão!

23 23UTC Setembro 23UTC 2008

Nietzsche, esse louco…

Arquivado em: Diários I — luiz leite @ 3:36 pm
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Nietzsche, esse louco…

Por Luiz Leite

A última coisa que eu haveria de prometer seria “melhorar” a humanidade. Eu não haverei de erigir nenhuns novos ídolos…derribar ídolos (a minha palavra para ideais), isso sim é que faz parte do meu ofício”.

Ler Nietzsche é perigoso para os despreparados. Poucos ultrajaram o sistema, e em particular, a sociedade cristã de forma tão agressiva e sangrenta quanto ele. Sua filosofia demolidora pode despertar aquele que sonha, e pior, conduzí-lo a um pesadelo. Segundo Freud, Nietzsche alcançou um grau de introspecção anímica jamais alcançado por alguém e que dificilmente alguém voltará a alcançar um dia.

Esse olhar para dentro, que faz com que os homens despertem da doce ilusão com a qual seus muitos ídolos os envolvem, é ao mesmo tempo um exercício desejável e assustador. Quantos de nós estão preparados para a desilusão de um encontro frontal com sua alma desnuda? Quantos estariam preparados para encontrarem-se com o homenzinho encarquilhado e, humildemente reconhecer: “Esse sou eu!”

A natureza humana tenta esconder por todos os meios o homenzinho encarquilhado, mas de que adianta negá-lo, escondê-lo, se ele teimosamente permanece lá? Nietzsche encontrou-se com a verdade a respeito de si mesmo, o homem caído, e fez questão de publicar as misérias e mazelas da espécie. Não considerou que essa criatura falida poderia nascer de novo para uma realidade outra. Que pena que não tenha ido, na calada da noite, às escondidas, se encontrar com Jesus, como fez Nicodemos, para ouvir a respeito da possibilidade fantástica do novo nascimento!

Por mais trágico que pareça, o homem não é um caso perdido. Nietzsche infelizmente falhou em reconhecer no Cristo a salvação dos homens e tentou aniquilar a única esperança que resta à humanidade, investindo enlouquecidamente contra o mesmo… Perseguiu a Jesus e a seus seguidores como um Saulo enraivecido…Resultado? Morreu louco!

Será que, como Saulo de Tarso, teve a oportunidade de ouvir o som da voz majestosa que despedaça os cedros do Líbano a dizer-lhe: “Nietzsche, NIetzsche, por que me persegues? Dura coisa é para ti recalcitrar contra os aguilhões?” Espero que sim, e mais, espero que tenha feito as pazes com o Crucificado antes do rompimento do fio de prata, antes do último suspiro…

Filho e neto de pastores protestantes, quem sabe não voltou pra casa, como um pródigo mulambento, mas salvo? Agora imagine, que surpresa seria encontrarmos esse maluco nas mansões celestiais! Pois é, só aguardando…


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