um dedo de prosa

4 de abril de 2012

Um Eterno Vir a Ser

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 12:37 am
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Um eterno vir a ser

Por Luiz Leite

As experiências se acumulam com o passar dos anos, empilhadas em prateleiras virtuais nos imensos arquivos arranjados nos minúsculos domínios de células neuronais. Dia após dia, milhares de sinapses se encarregam de criar espaço para o armazenamento de novas informações, memórias, prazeres e dores. Ora eufóricos, velejamos nas águas da fantasia,  ora transtornados, naufragamos nos pântanos do medo… Quanto aprendizado temos tirado dos erros, desacertos, desvarios, percalços e glórias? Avançamos no esforço de decifrar o enigma ou simplesmente prosseguimos, sem dar relevância aos fatos?

Debruçar-se sobre os fatos da vida, com suas alegrias e tristezas, sempre nos levará ao outro. Como seres relacionais, a alegria ou tristeza de nossa experiência cotidiana está intimamente ligada às pessoas que fiam a trama da teia que nos tem. As pessoas nos influenciam e afetam de um modo definitivamente marcante. Por essa razão, creio, Sartre disse que “o inferno são os outros.”

Antes de nos ocuparmos tanto com o outro e, com o dedo em riste, apontarmos suas contradições, deveríamos nos dedicar um pouco mais ao trabalho árduo e solitário do autoexame pois, para todos os efeitos, somos eternos estranhos! “Estranho a mim mesmo, devo reconhecer que não há um conhecimento de mim mesmo claro, exaustivo. Ficaremos para sempre um mistério para nós mesmos.”  É certo que essa afirmação espanta, mas só há de espantar aquele que ainda sonha.

Essa estranheza absoluta que envolve o ser numa bruma de admiração e espanto esgota toda e qualquer pretensão de descrição completa da criatura. Somos um eterno “vir a ser”; em outras palavras, não somos, estamos. Em processo, sempre, procissão sem fim… O  imperativo socrático de conhecer-se a si mesmo torna-se assim tarefa impossível, inglória, pois, como disse Pessoa:

“Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.

Quantos, se pensam, não se reconhecem

Os que se conheceram!

A cada hora se muda não só a hora

Mas o que se crê nela,

E a vida passa entre viver e ser.”

Inglória é a vida” - disse o poeta -  e inglório conhecê-la. Com a perspicácia que todo poeta deve ter, capturou algo da complexidade do ato de existir. É inglório o esforço de conhecer aquilo  que não se esgota. A vida é assim complexa, como o é seu protagonista.

Quanto mais reflito, tanto mais me encanto com a doutrina do Cristo, o fascinante e único Jesus de Nazaré, quando instrui seus discípulos a que tenham misericórdia, perdoem e prossigam. No momento mais dramático de sua curta existência no tempo, esbanjando coerência entre discurso e prática, fez valer seu próprio ensino rogando ao Pai que perdoasse seus algozes. Não só pediu perdão pela selvageria dos seus agressores, como ainda os justificou com a habilidade imbatível do bom advogado que é, dizendo: “Eles não sabem o que fazem.”

Este foi  o atestado mais grave e definitivo da nossa profunda ignorância. O Pe. Antonio Vieira em seu belo sermão do mandato demonstra que Cristo nos nos amou sabendo, ao passo em que fomos amados ignorando! “Quod ego facio, tu nescis“, disse Jesus a Pedro. Como somos ignorantes! A tragicidade desse fato é que insistimos em posar de sábios!

Esforça-te para conhecer-te, mas não se iluda, é esforço inglório! A melhor maneira de lidar com esta realidade é cultivar para sempre um coração de aprendiz.

23 de novembro de 2011

A Pedagogia do Deserto

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 11:49 pm
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Caro leitor, o texto que segue é continuação do primeiro capítulo do livro que está sendo postado em trechos aqui neste site. A viagem  que começa aqui vai nos levar a descobertas riquíssimas.- Boa viagem! Boa leitura!

 

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (b)

                        

A VIDA NO MUNDO

 

“Três paixões simples, mas devastadoramente poderosas, governam minha vida: um ardente desejo de amor, a busca do saber e uma insuportável piedade diante do sofrimento dos homens.                               

(Bertrand Russell – autobiografia)

 

Vida, substantivo abstrato

Se o mundo enquanto matéria é substantivo concreto, a vida por sua vez é substantivo abstrato. Descreve-se o mundo e seu arranjo de modo objetivo. Quer algo mais elegante e preciso do que uma molécula de água? A vida, entretanto, não se submete a uma descrição simples. Ou podemos por acaso explicar o mistério da vida, mesmo que seja na escala microscópica de uma ameba? Revestida de mistérios, a vida confunde nossos sentidos, deixando nossas faculdades intelectivas sem recursos para avançar, sem respostas óbvias.

Onde, exatamente, se esconde o princípio motor que anima os seres vivos? Dissecamos o sapo e compreendemos como ele se move ao estudar sua estrutura; desvendamos sua anatomia e a maravilhosa e complexa rede muscular que o capacita a dar pulos, mas foge-nos completamente à compreensão, o quê ou quem faz o sapo pular! Aristóteles quis saber sobre o princípio motor que coloca o mundo em movimento. Teorizou. Chegou a dar número aos motores que movem a magnífica engrenagem. Esses motores, imaginou, seriam deus, ou deuses. A obsessão de Aristóteles em desvendar o mundo não foi suficiente para facilitar o acesso ao mistério da vida.

Podemos saber do mundo e somos livres para esmiuçá-lo, mas a vida, ainda que se manifeste de forma grandiloquente por todos os lados, nos deixa perplexos. Simplesmente não se comporta segundo a elegância dos números, da lógica, antes, arisca, escapa-nos ao controle, fugidia, misteriosa, sempre. Podemos pegar, apalpar e definir objetivamente o substantivo concreto. Sabemos bem o que é um livro, uma cadeira; podemos descrevê-los com segurança e afirmar categoricamente o que são. Embaraçamo-nos, todavia, diante dos substantivos abstratos. Esta classe de substantivos nos deixa suficientemente inseguros em nosso esforço de explicar algo que não podemos tocar, manipular, quantificar.

 

De tartarugas à lebres

As verdades apreendidas pela inteligência consciente são rasas. A certeza dos números, das formulações da ciência, das argumentações lógicas, dos silogismos, perfazem apenas o beabá do grande mistério. A grande teoria da relatividade de Einstein, ainda hoje assombrosa, nos ajudou a formar as primeiras sílabas em nosso processo de alfabetização. Já conseguimos balbuciar, orgulhosos, os sons mais elementares das palavrinhas dissílabas do compõem o soberbo livro do universo. Arranhamos com essa e outras “grandes” conquistas da ciência, a superfície do grande mistério que concerne ao mundo. É tão assustador quanto estimulante saber que aquilo que logramos conhecer até hoje é tão minúsculo e o que ainda está por descobrir é tão largo e profundo!

Até a revolução industrial a humanidade caminhou a passo de tartaruga; as mudanças aconteciam de forma lenta. Após a referida revolução, um crescimento tecnológico estupendo vem se avolumando de maneira surpreendente. De tartaruga para lebre, sofremos um impulso incrível. Simplesmente não mais conseguimos acompanhar a velocidade com que as coisas estão mudando. Beiramos àquilo que alguns gostam de chamar de crescimento exponencial, mas, mais surpresas nos aguardam, dizem os cientistas, vem aí o famoso salto quântico, que vai nos levar ainda mais além em termos tecnológicos.

O mundo vai sendo sistematicamente esmiuçado, mas o código que dá acesso ao conhecimento dos mistérios da vida permanece, todavia, inviolado. A inteligência racional consegue compreender o mundo em muitos aspectos, reordenar a matéria e manipulá-la, todavia, o que se percebe por meio dessa inteligência é apenas fenômeno, rascunhos pálidos de uma realidade que parece estar além daquilo que nossos sentidos limitados possam captar…

Até o próximo trecho!

Ps.: Se voce leu e deseja continuar a leitura deste livro aqui publicado em pequenos trechos por favor deixe um comentário simples tipo: gostei… será suficiente para o meu experimento.

 

 

19 de novembro de 2011

Convite a uma viagem

Gostaria de convidar meus leitores e amigos  a participarem de uma viagem através do meu livro mais recente - A PEDAGOGIA DO DESERTO -  que resolvo publicar aqui em trechos ao estilo Folhetim. Boa leitura! Boa viagem!

  

A PEDAGOGIA DO DESERTO

 

Capítulo I (a)   

 

 A VIDA NO MUNDO

 

“Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti. Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta.” 

(Raul Pompéia – O Ateneu) 

Vais encontrar o mundo… coragem para a luta.

O desafio de encontrar o mundo é grande demais. Tão grande quanto o próprio cosmo!  O mundo é vasto. A vida é ampla. Vastidão e amplitude de todo e de todos desconhecidas!

Ainda que incompreensivelmente vasto, o conceito de mundo é objetivo. Geograficamente localizável, num primeiro momento o mundo é a casa, que está numa rua, que fica numa cidade de certo país, que por sua vez localiza-se numa das porções de terra a que chamamos continentes…

As fronteiras deste nosso mundo, entretanto, já não se limitam à geografia da belíssima esfera azul onde estamos temporariamente radicados. Nossa imensurável curiosidade aliada a um avanço tecnológico inquieto e sempre crescente, tem nos levado a lançar o olhar para além do nosso quintal, como que movidos por uma estranha angústia, por uma fome por respostas para as quais nem mesmo formulamos bem as perguntas. O resultado deste movimento de inquirição frenética pelo espaço ao redor têm dilatado cada dia mais os nossos horizontes.

Nosso mundo tornou-se mais abrangente. Sabe-se hoje que aquilo que um dia se imaginou ser uma superfície plana apoiada sobre o dorso de elefantes, na verdade é um globo, de proporções mui humildes dentro da escala das grandezas celestes. Longe de ser a vedete e protagonista da trama cósmica, como já se creu, com os astros todos gravitando em torno de si, descobrimos para o nosso próprio espanto, que Terra não é o centro fixo do universo, antes, move-se, juntamente com milhões de outros atores num passo elegante e sincronizado numa imensa e estonteante ciranda.

O conhecimento empírico, baseado na experiência fornecida pelos sentidos, de que a Terra era plana e fixa provou-se enganoso e equivocado. Não deveríamos, todavia, ridicularizar o enorme erro de cálculo dos antigos pois, quem, a partir da simples observação, poderia dizer que a Terra não é plana? Ou que é esférica e se move? Parece que estamos imóveis em nosso lugar, mas, contrariamente à informação fornecida por nossos sentidos, movemo-nos a uma velocidade espantosa de milhares de quilômetros por hora em nossa órbita em torno da estrela que nos capturou em seu poderoso campo gravitacional.

As concepções equivocadas que nos fizeram crer, por séculos, que estávamos no centro, hoje desbancadas, são lembradas como motivo de riso. Temos endereço cósmico bem definido. Aprisionados pela inexorável lei da gravidade em uma órbita inescapável, com localização fixada com precisão, nos movemos, juntamente com nossos vizinhos imediatos, em torno do nosso sol, que por sua vez também gravita ao redor do centro de sua galáxia, que faz parte de um grupo de galáxias vizinhas, que também se movem, num movimento de aparente expansão…

 O Centro Místico

Permanecemos, todavia, no centro místico, sentindo-nos de alguma forma especiais. O princípio antrópico, que afirma que o planeta Terra foi propositadamente preparado para ser um berçário para diversas espécies e especialmente para o ser humano, aponta vários detalhes que parecem confirmar o fato de que a vida como a conhecemos por aqui não seria possível se o planeta não tivesse sido meticulosamente calibrado para tanto.

A menção da Terra, em destaque, na criação do universo, tem sido motivo de milenar discussão entre teólogos e filósofos. A teologia católica, adotando as concepções de Aristóteles (384-322 a.C) e Ptolomeu (90-168), colocou a Terra como centro do universo e em torno dela fez gravitar os astros todos… Sem instrumentos para verificar a veracidade do dogma, engoliu-se o fato forjado, a seco e sem contestação. Não se pode questionar o dogma!

Mas o mundo dá voltas, meu caro! E após tantas revoluções, apareceu Galileu (1564-1642) ameaçando a ordem modorrenta da sua época, afirmando que as coisas não eram exatamente como se pareciam… O homem da luneta ousou questionar o secular equívoco científico e teológico. A Terra não apenas se movia, afirmou, para escândalo dos seus minúsculos inquilinos que a queriam imóvel como uma múmia, como também não era a vedete universal como queriam as autoridades religiosas.

Condenado, retratou-se, mas a Terra nunca mais seria a mesma. Foi deposta. O sistema geocêntrico estava com os dias contados. Aos poucos descobriríamos que, por mais de mil anos, havíamos crido numa inverdade tão imensa quanto as suas pretensões! Destronada de sua tão grande importância cósmica, destinaram-lhe o humilde lugar que lhe cabe, num logradouro distante na periferia do grande tabuleiro de galáxias e corpos celestes…

Ainda que o progresso das ciências tenha avançado para muito além das regiões da fantástica ilusão mítica, parece que nada consegue dissuadir a criatura humana de um senso de importância que a faz sentir-se aparentada com o próprio Criador. Nada poderá mover o homem do centro.

Decifrando Mistérios

Apesar das grandezas e distâncias, o mundo, pra todos os efeitos, é concreto, mensurável, tangível, de magnitudes verificáveis. Numa marcha firme e resoluta, embora não tão rápida quanto gostaríamos, aos poucos vamos investigando e decifrando seus “mistérios”. Temos feito progresso. Não somos mais embalados por fábulas.

O fantástico gradativamente tem dado lugar ao científico. As três principais avenidas do saber, das chamadas ciências exatas, humanas e biológicas, hoje estão muito mais movimentadas do que há um século. Incrementada por novas disciplinas, a ciência tem especialidades para tudo. Já não há lugar para especulações da imaginação, senão nos livros dos ficcionistas.  Marchamos cada vez mais livres da névoa mística, com a firme resolução de destrinchar o mundo.

Demos um salto gigantesco nesses últimos tempos. Uma expectativa eletrizante de um verdadeiro salto quântico está tomando corpo no ambiente acadêmico; as possibilidades reais de conquistas que há tempos eram tidas como produtos de ficção, estarão dentro em pouco invadindo as vidas e prateleiras do cidadão comum, o que certamente vai alterar dramaticamente o modo como as coisas hoje são conhecidas.

A impressão que se tem é que já não haverá limites para tudo quanto intentarmos fazer, mas essa é apenas uma impressão. Mesmo que se tenha por certo que continuaremos avançando no controle dos expedientes do mundo, manipulando a matéria com nosso gênio criativo, ainda esbarraremos no mistério fundamental que é o enigma indecifrável da vida.

Mundo, substantivo concreto

O mundo pode ser quantificado, submetido a equações científicas, explicado por meio de fórmulas. Matematicamente exato, tudo ao nosso redor está numérica e elegantemente organizado! Os números e as fórmulas enquadram o mundo numa moldura e o tornam lógico. É substantivo concreto e por essa razão descritível.

Há um padrão de ordem no universo que despacha a necessidade de qualquer espécie de contorcionismo para explicá-lo. As leis químicas, físicas e demais, nos proporcionam os fundamentos que tornam o mundo racionalmente compreensível.  Não há lugar para o subjetivismo. É verdade que muito ainda não está satisfatoriamente explicado por nossas teorias. São departamentos sob constante e densa neblina. Mas isto é apenas uma questão de tempo, garantem os apaixonados e insones decifradores de enigmas. Continuaremos avançando e decifrando o que um dia foi “mistério”.

É inegável que temos progredido, e muito. A ciência aos poucos vai desvendando os segredos do micro e do macrocosmo. O projeto Genoma, uma das mais fantásticas conquistas da ciência em séculos, segue fazendo revelações surpreendentes do código genético. As possibilidades da engenharia genética, em virtude dessas descobertas, tornam-se inimagináveis. A mecânica quântica, por sua vez, segue fazendo descobertas não menos surpreendentes no campo das partículas subatômicas. A compreensão da estrutura esquemática da matéria orgânica e inorgânica está gradativamente lançando luz sobre o mundo ao nosso redor.

Os livros da natureza que, selados, escondiam os “mistérios” da criação, estão sendo abertos. Avança-se, rápido, em todos os campos. Compreendemos cada dia mais e com mais detalhes, como as coisas funcionam, todavia, não conseguimos esmiuçar o porquê de as coisas funcionarem dessa ou daquela maneira. Ficamos barrados na fronteira entre o mundo e a vida. É-nos permitido acessar os domínios do mundo, mas permanecemos sem a senha que permita adentrar os recintos reservados da vida.

Até o próximo trecho.

Obs. Se voce deseja continuar a leitura desse livro em trechos deixe seu comentário aqui expressando seu interesse. De acordo com o retorno dos leitores o projeto terá continuidade.

16 de agosto de 2011

A Razão Bifurcada

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 1:19 am
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A Razão Bifurcada

Por Luiz Leite

A razão, dádiva que segundo Agostinho de Hipona nos faz superiores, não deveria nos atrapalhar a vida. Fato é, entretanto, que muito conflito nasce por conta dos princípios equivocados utilizados nos processos mentais responsáveis pela formação de argumentos considerados “razoáveis” pelo indivíduo. Como a verdade é a verdade do sujeito, o que significa que cada um tem a sua, a desavença e o conflito são inevitáveis. Os homens se atritam diariamente na disputa para estabelecer por força do argumento ou pela violência das armas, quem está certo.

Esta boa razão supostamente deveria mitigar a tensão nos impasses e trazer harmonia ao caos. Seria bom se fosse assim tão simples. Complicamos tudo quando assumimos a mediação da razão como suficiente para nos assessorar. Erramos trágica e pateticamente ao nos apoiarmos unicamente sobre ela pois comumente é essa mesma razão que freqüentemente acaba emprestando a fagulha que precipitará a combustão

Esmeramo-nos na estruturação dos nossos argumentos para enfrentar nossos problemas e negligenciamos o mais sutil e fundamental elemento: a sabedoria. Entre uma e outra há um abismo imenso. A razão é bastante pragmática, linear, exata. Esse é o seu grande benefício mas também o seu grande problema. Sem o conselho da sabedoria a razão comete loucuras pois segue uma lógica implacável que esmaga impiedosamente a todos os que se lhe opõem.

A lógica adotada pela sabedoria a princípio é estranha à razão. Por essa causa nem sempre se harmonizam.  A sabedoria tem algo de místico e utiliza-se da fé como recurso para se orientar. Fato é que tanto uma como outra dependem de uma teoria da verdade para se sustentar. Como a verdade do homem fragmentou-se em mil cacos e cada um tomou para si um desses fragmentos julgando ter posse da melhor e mais completa porção é evidente que jamais chegarão a um consenso.

Estabelecer o que é a verdade é o ponto de partida para a solução dos problemas. Jesus, quando interrogado por Pilatos disse para aquele que viera ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos perguntou-lhe:  O que é a verdade? Se o tom foi solene, sincero ou jocoso jamais saberemos. Fato é que o questionamento de Pilatos revela uma dúvida milenar. Foi exatamente em razão dessa dúvida atemporal que muitas teorias da verdade foram desenvolvidas. Quando Jesus veio ao mundo basicamente as maiores e mais importantes teorias já haviam sido concebidas.

Para os empíricos a verdade é apreendida através da experiência prática sendo percebida objetivamente por meio dos sentidos. Os racionalistas por sua vez sustentam que a verdade é alcançada por meio da razão, uma espécie de órgão inato onde estão armazenados todos os conhecimentos necessários para explicar o mundo. Os místicos, entretanto, contrariando os primeiros, apontam para outras fontes que estão além da empeiria (experiência) ou racionalidade humana. A verdade, dizem, só pode ser acessada através da revelação, trazida por uma entidade espiritual procedente daquela dimensão onde reside a realidade e explicação última das coisas.

Ainda que empíricos e racionalistas façam concessão uns aos outros nesse ou naquele aspecto acerca do acesso à verdade, ambos torcem o nariz às razões dos místicos, deixando assim a razão bifurcada. Partindo de pressupostos tão diferentes acerca do mesmo objeto é natural que tenha conclusões também distintas. A religião sempre suspeitando da razão e com um forte discurso sobre a sabedoria está sempre a acenar para a criatura humana convidando-a a abraçar a fé e partir para uma aventura para além dos domínios da razão e da experiência sensual. Uma vive a desdenhar da outra.  A fé ri-se da razão e a razão e esta por sua vez não é menos cruel com aquela.

Assim, a crendice, discursando sabedoria preciosa e oculta arrasta o homem para os domínios da mística; a incredulidade dos ímpios, apoiada sobre a razão, esforça-se para tirá-lo de lá, num movimento constante como se numa disputa de “cabo de guerra”, com a diferença de que neste caso não se trata apenas de um recurso lúdico para passar tempo. Esse é jogo é, literalmente, um jogo de guerra.

Se perguntarmos por que não existe a possibilidade de harmonizar esse binômio conflituoso, encontraremos respostas na velha e boa bíblia. É lógico que esse parágrafo vai fazer o incréu protestar. Existe uma lógica divina e outra satânica. A lógica divina assenta-se sobre princípios que não se adequam aos padrões da razão natural. Desferindo golpe letal a toda forma de materialismo, a lógica divina deposita uma ênfase especial sobre o outro. A lógica diabólica por sua vez busca os seus próprios interesses, princípio sobre o qual se fundamenta todas as versões de violência que aprisionam o homem em cadeias de eterno conflito.

Qualquer observador da trama social pode identificar essa dualidade sem muito esforço. A doutrina do ego (egoísmo) baseada sobre aquela velha e inexorável razão linear, e a doutrina do outro (altruísmo), estabelecida sobre os pilares de uma lógica que não produz as vantagens esperadas numa disputa. Ficam  estabelecidas aí de modo perfeitamente claro o lugar exato onde a razão cindiu-se em dois ramos conflitantes. A razão divina obedece a uma lógica diferente daquela que encontramos regendo as relações humanas de modo geral.

Todos seguem um padrão de comportamento que revelam o fundamento ético que dirige suas ações. No fim das contas, o que vale mesmo não é o discurso, a menos que esse seja revestido de carne e sangue na arena prática da vida diária. Para assegurar consonância entre o discurso e a praxis Jesus orientou: Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mt 7.12) Eis a sabedoria da lógica divina.

10 de novembro de 2010

Precisamos de Erasmos?

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 2:40 am
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Precisamos de Erasmos?
Por Luiz Leite

Texto publicado na coluna Pastora da Revista Eclesia

Desidério Erasmo (1467-1536) conhecido como Erasmo de Roterdam, nasceu em Roterdam, na Holanda. Foi provavelmente um dos mais eruditos dentre aqueles que confrontaram as incongruências da religião cristã ocidental. A pena de Erasmo não poupou a Igreja, o clero, as imagens, a idolatria de seu tempo. Sua sátira é extremamente ácida, e provoca tanto o riso nos irreverentes, como a ira naqueles que são alvo da trama lamentável. As observações de Erasmo nos remetem a uma pergunta: Os cristãos devem criticar os abusos e desvios observáveis em seu contexto?

Erasmo viveu durante um período em que a Igreja estava chafurdada em um mar de escândalos, abusos e desmandos. Para um observador capaz como ele não era difícil perceber a real situação por trás de toda aquela liturgia cheia de pompa e circunstância.  O que Erasmo viu, muitos outros viram, mas, por medo ou conveniência preferiram omitir-se. A Igreja de então, desfrutando de um poder político imenso, se impunha através da manipulação. Assim pouquíssimos ousavam fazer públicas suas opiniões. Erasmo, entretanto, vai desafiar o sistema. Talvez, pelo fato de ter sido filho bastardo de um padre, reuniu os ingredientes necessários para desenvolver uma índole rebelde. Carregava um conflito interno suficientemente inflamável e em adição a isto tinha acesso a informação “privilegiada” direta dos bastidores eclesiásticos.

Tornou-se sacerdote católico mas parece que jamais sentiu-se exatamente à vontade no hábito. Não levava jeito para a contemplação passiva dos fatos; Ícone máximo do humanismo, contestaria como ninguém os desacertos da igreja pavimentando o caminho para a reforma protestante. Muito embora jamais tenha se desvinculado da Igreja Romana, como fez Lutero, seu contemporâneo, Erasmo incomodou suficientemente; Na verdade, tentou permanecer neutro na grande controvérsia luterana, mas a igreja o pressionou e não o deixou permanecer em cima do muro. A mensagem que lhe passaram foi: “Enquanto ele se recusar a escrever contra Lutero, nós o consideraremos um luterano.”

Apesar de ter causado enorme transtorno aos “sucessores de Pedro”, parece que sua situação não chegou às raias da ameaça de morte como foi o caso de Lutero.  Sua crítica à igreja de Roma foi curiosamente tolerada. Já em 1502, teve a coragem de publicar o “Manual do Cristão Militante”, onde protesta contra o cristianismo protocolar oferecido pela velha e viciada igreja. O livro faz grande sucesso por toda a Europa e soa como um toque de despertar das consciências com respeito ao cristianismo autêntico. Diz ele: “Consideremos por um momento a questão do batismo. Realmente pensas que a cerimônia em si faz de ti um cristão? Se tua mente preocupa-se com assuntos mundanos, serás um cristão na superfície, mas interiormente és o mais pagão dos pagãos. (…) Não há vícios mais perigosos do que aqueles que carregam a aparência da virtude. (…) A caridade não consiste em muitas visitas à igreja, em prostrações diante de estátuas de santos, no ato de acender velas ou na repetição de um determinado número de preces. Deus não tem necessidade dessas coisas.”
 
Erasmo está denunciando a inconsistência de uma religiosidade morta e sem equivalência com a essência da mensagem evangélica. Inconformado com tamanhos desmandos e sem conseguir se enxergar como parte efetiva daquela instituição que orgulhosamente posava como representante máxima do Cristo na Terra, Erasmo começa a dar sinais em seus escritos de que a leitura que fazia do ensino de Jesus era diametralmente oposta àquela que faziam os seus superiores.

Torna-se temido em toda a Europa pelo dom devastador que tinha de ridicularizar aquilo que era digno de desprezo. As crenças idólatras difundidas pela igreja Romana, com seu culto aos santos, são violentamente atacadas em “Sobre a Ingestão de Peixes”, uma de suas mais provocantes obras. Esse diálogo curioso e improvável entre um açougueiro e um pescador, denuncia em tom jocoso a idolatria e o desvio da fé cristocêntrica. Ao remover o Cristo do centro, a igreja perdeu-se em um mar de superstições e práticas mais devidas ao paganismo do que ao legado dos apóstolos.

Apesar, entretanto, da sua fúria com as letras, Erasmo cria numa atitude gentil para implantar as mudanças na igreja, razão porque acabou afastando-se de Lutero; Esse afastamento se deu, em parte por causa da pressão de papas e reis, mas também em função da repulsa que sentia pela dureza e veemência com que aquele conduzia a sua reforma. Revela o seu caráter pacífico em A Guerra. Diz: “Aos cristãos não fica bem pelejar senão o mais galhardo dos combates – ou seja, contra os inimigos abom

ináveis da Igreja, contra a ânsia de riqueza, contra a cólera, contra a ambição, contra o medo da morte. São estes os nossos filisteus, os nossos nabucodonosores, estes os moabitas e amonitas contra os quais nos devemos incessantemente arrojar…”

A serenidade de Erasmo em contraposição à agressividade de Lutero, entretanto, era apenas relativa. Para muitos era, “uma espécie de João Batista e Judas Iscariotes em um, a glória e a vergonha do sacerdócio. (…) Seus ideais reformadores eram baseados em uma cristandade não dogmática, um cristianismo enfraquecido exatamente porque não tinha Cristo em seu mais profundo nível.“  Seus críticos o comparariam mais tarde a Voltaire, dizendo que até no rosto se parecia com o célebre francês, sendo tão venenoso quanto aquele.Homens como Erasmo nascem para incomodar o status quo. São responsáveis pelas revisões que depuram o texto histórico; são o megafone que sintetiza e amplifica o clamor por reformas. Enquanto alguns se esforçam para dar perpetuidade à velha e bolorenta ordem, esses incovenientes contestadores se levantam para abrir portas e janelas, convidando a luz para

entrar. Nesses dias quando estamos completando 493 anos da Reforma Protestante, perplexos diante de tanta distorção doutrinária,eu me pergunto se não precisamos de Erasmos?

13 de julho de 2010

Teologia a La Carte

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 7:51 pm
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Teologia a La Carte

Por Luiz Leite

***Artigo publicado na revista Eclésia (Coluna Pastoral) edição Julho/10
Baruch de Espinosa (1632-1677) foi, sem dúvida, um dos maiores racionalistas de que se tem notícia. Refugiado nos recessos da razão, ousou, com frieza inexprimível, confrontar a cosmogonia milenar e intocada do judaísmo bem como sua concepção monoteísta de Deus. Obstinado, não temeu ferir a memória de seus ancestrais nem ultrajar a opinião de seus contemporâneos. Escandalizou o mundo ao desvincular-se violentamente do legado judaico-cristão e esculpir um monumento a uma divindade estranha.

Espinosa até hoje assusta. Sua capacidade de raciocínio era tão potente que acabou se convencendo de que tudo poderia ser compreendido e explicado. Até mesmo Deus. Para ele Deus é absolutamente simples! É lógico que o deus de Espinosa não é o Deus transcendente da fé pregada pelos profetas de seu povo. Seu deus é de artesania própria. Sim, ele o gerou nas oficinas do próprio pensamento e o confinou nas cadeias de uma lógica esmagadora. Não pode escapar de lá.

O termo “deus” figura na obra de Espinosa de uma maneira quase que onipresente. Chegou-se a dizer que era um homem “intoxicado por deus” (Novallis) de tanta referência que faz em seus escritos à grande raiz metafísica necessária para dar sentido ao todo. Espinosa, entretanto, ainda que excomungado pela comunidade judaica de Amsterdam quando da difusão de suas idéias, não era tecnicamente ateu. Cria em um deus, mas um deus diferente daquele ensinado nas sinagogas. Tentaram negociar com ele, oferecendo saídas para o constrangimento. Não aceitou, não se retratou, não voltou atrás. Sustentou suas convicções até o fim e não recuou diante do “tribunal da inquisição judaica” de Amsterdam, que só não o mandou para a fogueira por não ter poderes para tanto. Contentaram-se, por fim, em sepultá-lo em vida como revela a seguir o documento de sua excomunhão:

“Com o julgamento dos anjos e a sentença dos santos, anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch deEspinosa, estando de acordo toda a sagrada comunidade, reunida diante dos livros sagrados… Que ele seja execrado durante o dia e execrado à noite; seja execrado ao deitar-se e execrado ao levantar-se; execrado ao sair e execrado ao entrar. Que o Senhor nunca mais o perdoe ou aceite; que a ira e o desfavor do Senhor, de agora em diante, recaiam sobre esse homem, carreguem-no com todas as maldições escritas no Livro do Senhor e apaguem seu nome de sob o firmamento”.

À comunidade judaica foi recomendado:

“Por meio deste documento ficai, portanto, avisados de que ninguém poderá manter conversação com ele pela palavra oral, ter comunicação com ele por escrito; de que ninguém poderá prestar-lhe nenhum serviço, habitar sob o mesmo teto que ele, aproximar-se dele a uma distância de menos de quatro cúbitos e de que ninguém possa ler qualquer papel ditado por ele ou escrito por sua mão”.

Estava amaldiçoado para sempre o apóstata que ousou afirmar que Deus era uma substância ilimitada e que expressava-se através de uma infinidade de formas. Em outras palavras, Deus está na natureza e a natureza em Deus, donde se conclui que Deus é a natureza e a natureza é Deus. Não existe diferenciação possível entre uma coisa e outra. Esta é a síntese do famoso panteísmo espinosano. O que chama atenção no deus espinosano é que o mesmo não sente alegrias, nem tristezas, muito menos presta-se aos jogos próprios das paixões humanas. Impassível, é também incontrolável. Não se pode manipular um deus que não sente! O deus de Espinosa, diferentemente das divindades gregas, de caráter mundano e perverso, simplesmente não oferece margem para qualquer possibilidade de relacionamento pessoal com o ser humano. Ora, passionais como são os humanos, ninguém se interessaria por um deus  insensível. Aos humanos só interesas um deus apaixonado. Tudo nos humanos grita. Essa sensualidade exige resposta, reação, gratificação, e quando não encontra eco naquele sobre quem lança o seu apelo, frustra-se e busca recurso em outra fonte de onde tirar socorro, ainda que apenas na fantasia.

Nestes tempos de teologia confusa e hedonismo acentuado onde a religião mostra-se cada vez mais antropocêntrica, e o deus que apregoa tão antropomorfizado, é de se perguntar se não estamos chegando exatamente ao extremo oposto do pensamento do “herege” de quem tratamos aqui. Em Espinosa Deus não sente nada… na teologia estranha dos nossos dias deus sente demais! A “teologia” espinosana desconhece um deus que negocia com o homem; a teologia utilitária por sua vez ensina que deus está pronto a responder com “chuvas de bênção” aqueles que lançarem suas “sementes” nos campos dos “evangelistas”, sempre ávidos por mais e mais dinheiro… Engodados pela ilusão vendida pelos encantadores midiáticos, milhões de pessoas se dispõem a contribuir; para a alegria dos vendilhões, para cada manipulador compulsivo existem 10 manipulados passivos.

Espinosa incorreu em heresia ao esculpir seu conceito de “Deus sive Natura”; Não utilizou-se, entretanto, de Deus, para promover seu projeto pessoal de poder como fazem tantos nesses dias. O apóstata de Amsterdam talvez tenha causado menos dano do que os sacerdotes desse evangelicalismo sem centro na cruz. Se aquele ousou introduzir um deus diferente daquele que seus contemporâneos conheciam, esses ousam descaracterizar o Eterno, vestindo-o segundo a imagem e semelhança do homem, com todas as antropopatias que cabem. O cultivo das virtudes, a piedade, a resignação ante as provocações que agridem, a negação das demandas do ego desequilibrado, são coisas para os monges do deserto e não para os crentes dessa era. Confundidos em sua conceituação equivocada de Deus, lançam mão dessa espécie de teologia “a la carte” sempre que enfrentam o desafio de enfrentar as exigências de suas almas enfermas.  Assim vão construindo as torres de uma catedral erigida para o culto de si mesmos. O Soli Deo Gloria é coisa dos antigos.

20 de maio de 2010

Sartre e o Livre Arbítrio

Filed under: Livros,Pensamentos — luiz leite @ 2:06 am
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Sartre e Livre Arbítrio

Por Luiz Leite

Trecho do livro “ELES PROFANARAM O SAGRADO” de Luiz Leite (lançamento previsto para julho)

“Esta velha angústia, esta angústia que há séculos trago em mim, transbordou da vasilha… (…) se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!” (Fernando Pessoa)

O determinismo é uma doutrina segundo a qual o homem pouco ou nada pode fazer, uma vez que, praticamente, tudo nele é resultado de forças que estão além de sua capacidade de manipulação. Segundo este ponto de vista o famoso livre arbítrio seria uma completa ilusão.

Está a criatura humana aprisionada numa inescapável camisa de força sociocultural como querem os deterministas? Se assim for resta apenas uma lacrimosa resignação. Se a prisão de segurança máxima do determinismo é inexpugnável, o desespero deixará apenas o suicídio como rota de fuga!  Esse exercício dialético de perguntas e respostas lança numa prisão os que ousam vadiar em seu carrossel; aos cativos dessa gaiola soberba assegura-se o direito fundamental de darem voltas no pátio interno; ali, ao sol da manhã, revolvem, indefinidamente, presos, carregando suas cadeias filosóficas, num movimento cíclico interminável de tese, antítese e síntese.

Se para o determinismo o mundo segue, previsível como um jogo de cartas marcadas, para o existencialismo sartreano o arranjo é completamente outro; na verdade não há arranjo algum! O mundo é um absurdo desprovido de propósitos quaisquer que sejam. Ao removerem a coluna teleológica, pretendem desmantelar o edifício do teísmo que insiste num Deus que dá sentido ao todo. Não há, bradam os ateus sartreanos, sentido em nada. O que importa é o que existe, ou seja, o que se vê, se toca, se controla. A existência, assim, precede a essência.  Este é o pressuposto fundamental do existencialismo ateu de Sartre.

Segundo essa linha de raciocínio, o homem está entregue à própria sorte. Ninguém virá salvá-lo. É livre e ao mesmo tempo escravo dessa liberdade. A questão filosófica em torno dessa suposta liberdade que coloca o homem como capitão do seu próprio destino tem sido motivo de muita controvérsia através da sucessão ininterrupta de escolas que pretendem dar as diretrizes para cada era.

O pensamento de Sartre, como o de qualquer pensador, está profundamente arraigado na sua própria experiência de vida. As influências sofridas por cada um determinam, em muito, o seu modo de pensar. É impossível desvencilhar-se completamente da própria bagagem que a vida nos impôs. Daí se dizer que cada homem é produto do seu tempo. Sartre teve material farto para compor sua ode à desesperança. Tendo presenciado as duas grandes guerras, bebeu a contragosto largos sorvos de amargura e dor, suficientes para enlouquecer e precipitar a alma nos braços do desespero.

Vivi em Israel por cerca de um ano e meio e lá encontrei alguns sobreviventes da longa noite de horror que a Alemanha nazista impôs sobre o mundo de maneira geral, e sobre os judeus de forma perversamente específica; Ainda que o nazismo tenha perseguido e martirizado poloneses, ciganos, homossexuais e prostitutas de modo igualmente odiável, a história publica com mais ênfase a tragédia judaica. Depois do inominável genocídio a que foram submetidos, muitos judeus tiveram uma dificuldade imensa de continuar crendo na existência de uma divindade bondosa a governar o mundo. O antiqüíssimo problema do mal emergiu monstruoso das águas escuras dos séculos e desferiu um golpe desorientador. Os filhos daquela geração por sua vez tiveram e ainda tem uma grande dificuldade de assimilar o conceito de um Deus justo e compassivo.

Diante de certas vicissitudes alguns perdem a fé; apaga-se o lume da esperança, esmagada pelo evento sinistro e sem explicação. Resta nestes casos a perplexidade, a expressão de pasmo perante o que só poderia ser classificado como absurdo! A geração de Sartre passou por duas catástrofes causadas, na leitura do existencialismo, pela loucura da livre escolha dos homens. Nem deuses nem demônios tomaram parte na empreitada sinistra. Em verdade, não há deuses ou demônios. O homem é livre e sua vontade é a responsável por moldar o mundo e ditar o ritmo e o rumo de indivíduos e nações em sua marcha pela história.

Em termos de filosofia é quase sempre um gesto deselegante dizer que o outro está errado. Resta o respeito ao pensamento e escolha de cada um. Se porventura a teologia for convidada para entrar na discussão, estará sempre ali, disposta a dar razão da esperança que pode dar sentido e propósito ao mundo. Vamos refletir teologicamente? No princípio…DEUS…

2 de fevereiro de 2010

Descartes e a Ciência Admirável

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 10:07 pm
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Descartes e a Ciência Admirável

Por Luiz Leite

Uma pergunta fica no ar com respeito à relação de Descartes com o sagrado, quando o encontramos envolvido com uma obscura fraternidade chamada Rosa Cruz, seita dedicada à busca da sabedoria esotérica. Esta tal seita, combinando elementos do ocultismo egípcio com a cabala judaica, pretendia (e ainda pretende) ser detentora de conhecimentos secretos reservados àqueles que nela fossem iniciados.

O jovem e ambicioso pensador, obcecado, buscava descobrir os fundamentos de uma “ciência admirável”, razão porque foi sem dúvida atraído pela propaganda que prometia conhecimentos ocultos. Esse fato torna o racionalismo cartesiano bastante questionável uma vez que busca conhecimento além daquilo que a razão pura e simples possa oferecer.

Como tantos outros grandes filósofos do seu tempo, Descartes crê em um Deus, e a não crença num Deus criador é por ele considerada um erro. Entretanto, crê em Deus à sua maneira. Em seu Discurso do Método, dedica um capítulo inteiro para provar a existência de Deus e a imortalidade da alma, mas em nenhum momento encontramos em suas idéias vestígios de um Deus pessoal, que interage, solidário. O seu Deus é apenas o produto de uma fria e escura abstração.

Se era um agnóstico ou ateu travestido de religioso, porque busca contato e envolve-se com a referida seita? Pouco se sabe das possíveis experiências vividas pelo filósofo durante esse período; a própria configuração da sociedade dos Rosa-cruzes, de natureza hermética, não ventila os conteúdos dos seus ensinos, nem tampouco publica onde e a que tais ensinos conduzem os iniciados. Pois talvez seja exatamente aí que Descartes cruze o limiar entre o sagrado e o profano. Engodado pela promessa de acesso à uma modalidade superior de conhecimento, reservada a poucos escolhidos, o ambicioso pensador não titubeia, “vende sua alma”.

Segundo suas próprias palavras, a tão celebrada obra “Discurso do Método” parece ter sido produzida por meios nada convencionais como aqueles comumente utilizados pelos filósofos em geral; não foi exatamente o exercício da razão que lhe logrou conceber o método que colocou o homem em dúvida para sempre. Corria o ano de 1619 quando, durante o seu envolvimento com a seita citada, o filósofo experimentou um mergulho no oculto. Este período marcaria a sua história e a história da filosofia ocidental de uma maneira profunda e definitiva.

Segundo ele, através de sonhos tidos por ele na noite de 10 para 11 de novembro de 1619, as respostas para o seu ambicioso desejo de construir os fundamentos de uma “ciência admirável”, vieram como que enviadas do além.

De 10 para 11 de novembro, René Descartes, jovem francês engajado nas tropas do Duque Maximiliano da Baviera, vive uma noite extraordinária. Depois de um período de febril atividade intelectual, o dia transcorrera em meio a grande exaltação e entusiasmo: afinal, parecia ter descoberto os fundamentos de uma ciência admirável. O arrebatamento prossegue durante o sono, atravessado por três sonhos consecutivos cujas imagens o próprio Descartes interpretará como símbolos de iluminação que recebera e, ao mesmo tempo, como indicação da missão a que deveria consagrar a sua vida. Essa missão era a de unificar todos os conhecimentos humanos a partir de bases seguras, construindo um edifício plenamente iluminado pela verdade e, por isso mesmo, todo feito de certezas racionais”.

É curioso que as bases seguras para um  edifício feito só de verdades racionais tem procedência completamente mística! Não é nada convencional a experiência que levou Descartes a esculpir a grande obra que desencadeou uma verdadeira revolução no pensamento filosófico ocidental, e que viria mais tarde repercutir em todas os círculos de pensamento do mundo.

A sua obra pavimenta o caminho para séculos de incredulidade que irão desdenhar o sagrado e colocar a razão no lugar da divindade, produzindo um fenômeno nunca antes registrado da história da raça. O próprio Descartes se refere a sua cruzada como uma “missão”, como nos melhores moldes das religiões em geral. Não seria de se admirar que o pensador ambicioso tenha sido visitado por forças do além na tal experiência mística onde, através de sonhos recebeu a revelação que resultou na obra famosa de sua vida.

Racionalistas do mundo todo, coloquem barbas e madeixas de molho! É muito provável que os postulados de vossa seita não sejam afinal produto da razão coisa nenhuma; É possível que um anjo torto,apesar do desprezo que nutris pela mística, lhes tenha sussurrado tais grandes idéias.

Extraido do livro ELES PROFANARAM O SAGRADO de Luiz Leite (lançamento 2010)

24 de janeiro de 2010

De volta a Nietzsche, aquele louco…

De volta a Nietzsche, aquele louco…

Por Luiz Leite

Nietzsche afirma que a humildade cristã é produto da mentalidade escrava e, portanto, fraca e ridicularizável. Quando se trata de humildade, conceito ausente em seu vocabulário (seguramente um dos egos mais inflados de que se tem notícia), é verdade que algumas pessoas, após serem submetidas a longos períodos de servidão, acabam tornando-se subservientes e pateticamente dóceis, mas é óbvio que não é esse tipo de “virtude” condicionada pelo “tronco e chicote” que o Cristianismo exalta  e exorta seus seguidores a cultivar.

A exegese que Nietzsche faz do Evangelho é equivocada. Interpretou a mensagem de Jesus pela ótica da amargura e não teve o cuidado de limpar as lentes de seu telescópio filosófico antes de lançar o olhar sobre aquele que poderia livrá-lo do fim trágico. Chegou ao resultado antes cogitado por Francis Bacon que disse: “Um pouco de filosofia inclina a mente do homem para o ateísmo, mas profundidade em filosofia traz de volta as mentes das pessoas para a religião.”

A filosofia de Nietzsche não é construtiva. Apoliom e Abadom parecem inspirar sua pena e fazê-la deslizar loucamente em sua sanha anticristã. Isto ele não esconde ao dizer: “Desgarrar muitos do rebanho – foi para isso que eu vim.” Não se pode, todavia, desprezar e despachar a filosofia de Nietzsche como sem graça;  Convenhamos que isto ele faz com uma veia poética que atrai, tornando palatável o que em Espinoza seria intragável.

Determinados desvarios de Nietzsche me fazem rir… Fecho os olhos e vejo um adolescente espumando rebeldia, preconizando a derrubada de governos e hierarquias num idealismo afogueado e desorientado. Concordo com o que foi dito acerca dele por George Santayana, “Blasfêmias pueris… genialidade imbecil.”

Nietzsche é preciso quando denuncia a fraqueza humana; ora, é absolutamente fácil apontar o dedo para uma nódoa no linho branco e disparar: “Eis que passo a vos mostrar uma nódoa!” Onde está a geniosidade de tal afirmação? Um profeta inclemente do óbvio. Despejou sua fúria contra a cana quebrada e o pavio que fumega…

Tribudiou sobre a miséria dos humanos, sem mesmo considerar-se como um dos tais; em um dos seus muitos espasmos de insanidade teria dito: “Eu não sou homem, sou dinamite.” Não há aí qualquer vestígio de grandeza, nem de força… Destruir é fácil. Os psicopatas o fazem sem qualquer crise de consciência; Difícil é ligar a cana esmagada e reacender o pavio que fumega!

30 de setembro de 2009

Explicando o Inexplicável

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 11:39 pm
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Explicando o Inexplicável

Por Luiz Leite

Texto publicado na Coluna Pastoral da Revista Eclésia, edição Set/09

É imenso o desafio de se dar explicação ao inexplicável. A filosofia, para lidar com esses becos aparentemente sem saída e para colocar uma mordaça na boca da irrequieta razão que quer fazer sentido de tudo, inventou a contingência. Todos os eventos que estão além da nossa capacidade de processamento podem enfim ser enfiados no escaninho da contigência, deixados pra lá… não há por que, nem pra quê… Esquece!

Resta aos pobres e limitados pensadores considerar a contigência, pois há muita coisa para as quais simplesmente não há explicação. Conclui-se que temos que nos resignar diante do fato de que coisas ruins acontecem, que o universo é um sistema aberto em termos de possibilidades e que essas não obedecem a um padrão claro ou lógico. Afinal, diria o existencialista ateu, tudo é absoluta e absurdamente despropositado. Não há nenhum padrão nos acontecimentos. Não há nenhuma inteligência superior e amorosa governando nada!

A inescapável e ardilosa armadilha da contingência permanece com sua boca aberta, pronta a tragar filósofos e teólogos. O acaso nos deixa perplexos quando nos afeta direta e friamente sem consultar a quem quer que seja. As coisas simplesmente acontecem e ponto final. Homens honestos sofrem, pessoas ruins “prosperam”, crianças são abusadas… Estamos sujeitos ao desprazer, ao dissabor, indefesos diante da dor, do abandono… Os existencialistas se irritam e denunciam o mundo como absurdo! Tem hora que dá vontade de fazer coro com eles.

Por duas vezes essa semana fui convidado a olhar para o abismo através de um artigo de Ricardo Gondim, sobre o sinistro da Air France, e uma pregação de Ed Renê, que vim ouvindo no trajeto de São Paulo para Belo Horizonte. Devo concordar com Ed Renê, que se refere ao autor do livro bíblico de Eclesiastes como possivelmente o primeiro dos existencialistas. Ele flagrou o absurdo daquilo que acontece “debaixo do sol”, e pior, para horror dos crentes que tem a mania de querer defender Deus, o publicou!

Para os filósofos é bastante fácil e até mesmo confortável falar sobre a contingência. Para um teólogo crente (qual a razão do espanto? voce acha que todo teólogo é crente?), todavia, a matéria se torna bastante indigesta. Não é fácil conciliar contingência e providência. Fica difícil para o pensador teísta aceitar a contingência porque um dos seus pressupostos mais fundamentais é aquele que afirma que Deus tem o controle sobre todas as coisas e que, como disse Jesus, nem um pardal cai do céu sem o seu consentimento.

Segundo a afirmação de Jesus nada acontece por acontecer. Se “até os cabelos de vossas cabeças estão contados”, então o mundo não foi abandonado pelo Criador como querem os deistas com o seu conceito de um deus indifente e ausente. Por quê o avião caiu no mar? por quê a bomba explodiu no mercado? Por quê…? Ora todas essas ocorrências, funestas ou não, tem uma explicação sim; Nós, entretanto, nos embaraçamos para responde-las, mas o fato de não sabermos como fazê-lo não significa que sejam inexplicáveis.

A contingência é possivelmente um dispositivo esperto forjado pela razão para nos ajudar a eximir a humanidade das responsabilidades que lhe cabem. Indo além, a contingência não apenas absolve o homem da sua participação no sinistro, como também o vitimiza, nutrindo a milenar rebeldia deste contra o Criador; Este sim, é o vilão, responsável pelo caos, afinal tudo não é feitura Dele?

Admitamos: Não temos resposta para tudo. Não controlamos todas as variáveis.  Na verdade não temos o controle de nada! Isto nos irrita grandemente, ferindo de morte nossa estúpida e desmedida pretensão. Inoculados com a peçonha da serpente, ainda hoje mantemos uma pose soberba, acreditando na suprema mentira em vez de rendermo-nos humildemente aos pés da Suprema Verdade. A nossa imensa fragilidade e limitação é flagrante. Insistimos, todavia, em manter uma pose que projeta uma imagem enganosa de nós mesmos. Por nos avaliarmos por esta escala equivocada é que cometemos os tantos erros que resultam em tantas expressões de pasmo.

Aviões caem, tetos de igrejas caem, navios afundam, balas perdidas encontram alvos inocentes… a meningite mata, a gripe suína mata, a AIDS mata… morre-se no atacado, em grandes conflitos bélicos, morre-se no varejo, no recesso da família, morre-se a prestação, inalando a fumaça do tabaco, do crack ou dos gases expelidos por automóveis e chaminés… Todas essas ocorrências são em si suficientes para nos deixar prostrados, confusos e infelizes.

Sem respostas para explicar o inexplicável, resumimos o desconforto a um golpe da contingência. Ora, se tudo fosse contingencial não haveria plano algum, e por extensão não haveria também  necessidade de Deus algum. Se não há propósito, como poderíamos dirigir nossas preces a Deus e clamar: Guia-me. Por quê oramos então? Se existe um Deus que guia, então há um propósito por trás da grande trama! Assim cremos. Assim pregamos!

O autor do livro biblico de Eclesiastes diz que “Deus fez todas as coisas perfeitas a seu tempo…” Ainda que os céticos torçam o nariz quando se relaciona o surgimento do mundo a um criador, o que sustentamos é que assim mesmo foi que tudo se fez, por força do ato de vontade Daquele que criou todas as coisas, e isto, com propósito.

São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica afirma:

A criação das coisas por parte de Deus é a melhor, pois é próprio de quem é o Melhor fazer tudo da melhor maneira. Ora, é melhor fazer uma coisa em vista de um fim do que fazê-la sem visar uma finalidade. Por conseguinte, Deus fez as coisas com vistas a uma meta.”


6 de junho de 2009

A Inteligência do Evangelho

Filed under: Livros — luiz leite @ 5:16 pm
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A INTELIGÊNCIA DO EVANGELHO

Por Luiz Leite


Está no prelo o meu novo livro, cujo lançamento está previsto para julho próximo, pela Editora Naós. Este livro nasceu de um profundo desconforto que já há muito me acompanhava. Sempre desconfiei que estávamos perdendo alguma coisa na leitura que fazemos do Evangelho. A desconfiança se traduziu por uma certeza aterradora. Não apenas estávamos fazendo uma leitura equivocada, pior, estávamos distorcendo a grande mensagem… Segue um trecho de abertura do primeiro capítulo.

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Tanto desatino já foi cometido em nome de Deus que não é de admirar que um número cada vez maior de pessoas ao redor do globo mantenha sob suspeita o artigo da religião. Estaria Deus envolvido com tanto morticínio? Foi Ele quem avalizou as cruzadas? Endossou a inquisição? Chancelou a conquista das Américas e subsequente extermínio dos nativos americanos? De que lado ele esteve nos longos e intermináveis conflitos religiosos no Oriente Médio e Europa? Seria o Criador um senhor sanguinário e co-participante das disputas intestinas pelo poder político sob a batuta dos sacerdotes, ou tais ocorridos não passariam de manifestação sintomática das almas doentes dos homens?

Qualquer pessoa com um conhecimento razoável da história sabe bem que as cruzadas jamais foram avalizadas por Deus, como se ele houvesse conclamado os cristãos a uma guerra santa contra os muçulmanos para recapturar Jerusalém e a Terra dita santa. A primeira cruzada, lançada pelo papa Inocêncio II em 1095, foi movida por um espírito que de santo nada tinha! A finalidade não era nem um pouco piedosa.

Segundo Armstrong:

“Queria (o papa) que os cavaleiros europeus parassem de lutar entre si e de dividir a cristandade ocidental e fossem gastar suas energias numa guerra no Oriente Médio e ampliar o poder da Igreja. No entanto, quando essa expedição militar se misturou com a mitologia popular, textos bíblicos e fantasias apocalípticas, o resultado foi catastrófico do ponto de vista prático, estratégico e moral”. (3)

É sabido também que a inquisição espanhola jamais foi um ato de inspiração divina! Criada em 1483, a instituição da inquisição visava fins políticos e ideológicos e, ainda que analisada no seu contexto sócio-político encontrem-se explicações, o fato é que suas práticas e expedientes tinham mais a ver com os homens e seus demônios do que com Deus no seu trato com estes.

Os homens conseguem classificar as guerras em justas e injustas, sujas e limpas. Não importando qual seja a natureza da guerra, nem qual a nobreza do ofício, preces são elevadas aos céus, por proteção e favor. Nas competições, antes de entrar na arena, seja do futebol, do vôlei, do rodeio, do pugilismo, os oponentes invocam seus santos padroeiros, beijam suas medalhas, rezam o “pai-nosso”…

Cena pitoresca do filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, nos revela o mais inaudito ato de devoção quando uma gangue de malfeitores reza com grande fervor antes de partir para mais uma de suas perigosas empresas. De mãos dadas, com os instrumentos da morte presos às cinturas, ou pendurados nos ombros, as vozes se unem num fervor próprio dos fiéis quando a prece sobe calorosa aos céus, “Pai nosso (…) venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade… e livra-nos do mal, amém…”

Quantos papas, padres e sacerdotes, católicos ou não, benzeram as armas e “abençoaram” reis e seus exércitos antes que estes partissem para os campos de batalha? “Nunc et in hora mortis nostrae. Amem.” Tão logo recitadas as últimas palavras do rosário, liberam-se os demônios para cumprirem o seu sombrio mister. O temível cavalo vermelho dos quatro flagelos do apocalipse partiu, muitas vezes, para a ceifa macabra da guerra, sob a bênção da religião!

“O maravilhoso dessa empresa infernal é que cada chefe dos matadores faz benzer suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de ir exterminar o próximo”. (4)

Tito Lívio, historiador romano, nos conta em sua História Romana (XXIX, 27, 1-4) a prece de Cipião, o Africano, feita em sua nau capitânia, antes de partir da Sicília para atacar Cartago em 204 a.C.:

“Ó deuses e deusas que habitais os mares e as terras, eu vos suplico e vos rogo que tudo quanto tenha sido feito sob o meu comando (…) seja para o meu benefício e para o benefício do povo e da plebe de Roma (…) que vós os ampareis e os auxilieis; que permitais que estejam em segurança e que alcancem vitória sobre o inimigo; que os tragais de volta comigo em triunfo para os nossos lares, carregados de espólios e despojos; que nos concedais o poder de exercer vingança sobre nossos inimigos e adversários…” (5)

É certo que, assim como o grande general romano Cipião invocou o favor dos seus deuses e deusas antes de partir para a empresa funesta onde milhares seriam dizimados, as autoridades Cartaginesas também recorreram aos seus deuses com o fim de obter favor e assim destruírem o máximo possível de soldados romanos.

Estariam os deuses a serviço dos homens em tais empreitadas? É certo que não! Talvez seja mais certo que tais deuses não passem de demônios; demônios da ambição, da violência, da vingança… Tentando compreender a dinâmica do sentimento de vingança, esse combustível por excelência de todos os conflitos, em matéria sobre o tema, Thomaz Favaro sintetiza essa suspeição das religiões dizendo:

“Para entender a origem do desejo de vingança e aprender a domá-lo, o melhor a fazer é trafegar por fora da religião”. (6)

Tratando de um tema tão cortante como a vingança, esse sentimento destrutivo presente nas complexas elaborações da emoção humana, ao invés de recomendar a religião como mediatriz, Favaro alfineta:

“Como instituição a religião é má conselheira nesses casos”.(7)

De que religião estaria falando Favaro? A religião não deveria, supostamente, ser um agente responsável pela sublimação de tais sentimentos, abrandando o furor, a sanha assassina dos homens? As guerras religiosas através dos séculos apresentam um testemunho completamente inverso. O fanatismo religioso tem devorado as carnes de milhões numa espécie de tributo macabro a Hades, o senhor dos infernos na mitologia grega.

Escrevendo a respeito do assunto Voltaire disse:

“Quando uma vez o fanatismo tendo gangrenado um cérebro, a doença é quase incurável; (…) A religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados.”(8)

Muito embora o termo fanatismo se aplique a qualquer espécie de paixão desmesurada, é nos domínios da religião que fez carreira e granjeou maior fama. A adesão cega e irrefletida à qualquer coisa, seja doutrina filosófica, política ou religiosa, conduzirá a extremos horripilantes. A história o atesta.

Por tão grandes incongruências o mundo pós-moderno, despreza a religião instituída e relativiza os valores absolutos que ela ensina. Já não há, conclui-se, nenhuma garantia que possa servir de lastro àquilo que pregam os líderes da religião. Qualquer observador honesto concluirá que tal desconfiança não é sem razão.

Por causa de tanto descalabro, o cristianismo autêntico foi sendo maculado e distorcido ao ponto de as sociedades mais esclarecidas não só passarem a desconfiar da validade dos postulados da religião, como também a atacá-los de uma maneira cada vez mais aberta, tão logo a Igreja Romana perdeu o monopólio que exercia sobre as almas através de toda a Idade Média. A partir de então ninguém seria poupado. Tanto a instituição desvirtuada quanto a espiritualidade verdadeira seriam pesadamente atacadas.

(…)

O livro prossegue numa reflexão estonteante mas absolutamente fecunda para, por fim, demonstrar a graça e beleza da proposta mais inteligente já feita à raça humana! Vale a pensa conferir.

12 de março de 2009

Moinhos de Vento

Filed under: Diários I — luiz leite @ 6:07 am
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Poema Existencialista

Por Luiz Leite

Fiz 45 anos ontem. Caramba! Alguns colegas impiedosos dizem que já vou descendo a ladeira… Fato é que já não sou nem jovem (no sentido cronólogico) nem velho. Estou no meio do caminho. Não estou, entretanto, sentado à beira do caminho… estou ativo, andando NELE!

Estou mudado. Diferente. O corpo e a mente mudaram. Tenho rugas ao redor dos olhos, os cabelos estão grisalhos… a barba, outrora farta e negra como as penas da graúna, hoje resume-se a uma barbicha comportada, tomada de fios de prata ( pra não dizer brancos… é mais bonito dizer: fios de prata) Uma barriguinha que já vai exibindo um relevo saliente tomou o lugar do antigo tanquinho…

Minha mente, por sua vez, vai descrevendo um trajeto quase oposto; ao passo que o corpo vai perdendo a graciosidade da juventude, a mente vai tornando-se mais bonita, mais potente, mais interessante em todos os aspectos… Isso me alegra bastante! A mente não tem que envelhecer, a menos que o indivíduo permita; o espírito não tem que se submeter à marcha inexorável do tempo nem ao peso insuportável (para o corpo) dos anos! Essas descobertas são preciosas.

O tempo passa e os homens mudam… Ou, o tempo passa e muda os homens? Talvez ambos, ainda que alguns homens teimem em permanecer aferrados ao sistema neurótico que levantaram ao redor de si como artifícios de proteção. Os obsessivos fazem assim. Sistemáticos, eles não mudam facilmente. Eu, apesar de algo obsessivo, vou mudando… Venho mudando, à medida que prossigo, num processo ininterrupto de construção e descontrução de ideias. Aprendendo sempre, como um menino, curioso, perguntando sempre…

Minha filosofia incorporou muitas coisas “novas” através dos anos, mas de alguma forma, preservo as bases que esposei já há muito. Se voce tem alguma curiosidade acerca do lugar onde me situo hoje em meio a esse confuso universo de escolas filosóficas e, se não estiver suficientemente bem familiarizado com a sopa de letrinhas das muitas escolas de pensamento, saiba, sou um existencialista teísta da velha e boa escola Kierkegaardiana.

O poema que segue foi escrito há mais de vinte anos, quando o absurdo da existência humana em um mundo entregue ao caos começava a me chocar… O meu existencialismo angustiado revela-se na letra… Naqueles dias não tinha respostas para essa dor.

Tem certos momentos na vida

Em que fico a olhar ao redor

E vejo o homem sem saída

Vejo sua face caída

Olhar embaçado, sem brilho e sem cor

No peito calado um grito

Da mente apagada a lembrança

De quem por cuja semelhança

Do barro e de um sopro veio a existir

Vêem-se nos rostos opacos, nas rugas

Em alto relevo a expressão do medo

Foge-se de monstros, moinhos de vento

Produtos mentais de falsos pensamentos

Almas doentias, existências vazias

Áridos desertos de dor e aflição

(…)

Encontrar Jesus foi fundamental para dar “sentido” ao absurdo e decifrar o caos. É uma afronta grave para alguns essa volumosa pretensão de se conferir sentido ao absurdo da existência humana. Eu sei que isso irrita profundamente os existencialistas sartreanos em seu ateísmo mórbido; honestamente, gostaria que todos eles fossem inundados pela alegria indizível que hoje tenho.

Envelhecer filosoficamente sem amadurecer espiritualmente é trágico. Vou ficando velho, esperando, como diz Quintana, pelo momento de finalmente poder deitar de sapatos, mas sem qualquer receio… Sou um existencialista sem crise, se é que tal coisa é possível!

Essa paz de espírito e essa confiança no desfecho do drama só podem ser encontradas em Jesus. Nele, por ele e para ele existo. Glória pois a Ele! E quanto às rugas… na verdade são apenas marcas de expressão!

23 de setembro de 2008

Nietzsche, esse louco…

Filed under: Diários I — luiz leite @ 3:36 pm
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Nietzsche, esse louco…

Por Luiz Leite

A última coisa que eu haveria de prometer seria “melhorar” a humanidade. Eu não haverei de erigir nenhuns novos ídolos…derribar ídolos (a minha palavra para ideais), isso sim é que faz parte do meu ofício”.

Ler Nietzsche é perigoso para os despreparados. Poucos ultrajaram o sistema, e em particular, a sociedade cristã de forma tão agressiva e sangrenta quanto ele. Sua filosofia demolidora pode despertar aquele que sonha, e pior, conduzí-lo a um pesadelo. Segundo Freud, Nietzsche alcançou um grau de introspecção anímica jamais alcançado por alguém e que dificilmente alguém voltará a alcançar um dia.

Esse olhar para dentro, que faz com que os homens despertem da doce ilusão com a qual seus muitos ídolos os envolvem, é ao mesmo tempo um exercício desejável e assustador. Quantos de nós estão preparados para a desilusão de um encontro frontal com sua alma desnuda? Quantos estariam preparados para encontrarem-se com o homenzinho encarquilhado e, humildemente reconhecer: “Esse sou eu!”

A natureza humana tenta esconder por todos os meios o homenzinho encarquilhado, mas de que adianta negá-lo, escondê-lo, se ele teimosamente permanece lá? Nietzsche encontrou-se com a verdade a respeito de si mesmo, o homem caído, e fez questão de publicar as misérias e mazelas da espécie. Não considerou que essa criatura falida poderia nascer de novo para uma realidade outra. Que pena que não tenha ido, na calada da noite, às escondidas, se encontrar com Jesus, como fez Nicodemos, para ouvir a respeito da possibilidade fantástica do novo nascimento!

Por mais trágico que pareça, o homem não é um caso perdido. Nietzsche infelizmente falhou em reconhecer no Cristo a salvação dos homens e tentou aniquilar a única esperança que resta à humanidade, investindo enlouquecidamente contra o mesmo… Perseguiu a Jesus e a seus seguidores como um Saulo enraivecido…Resultado? Morreu louco!

Será que, como Saulo de Tarso, teve a oportunidade de ouvir o som da voz majestosa que despedaça os cedros do Líbano a dizer-lhe: “Nietzsche, NIetzsche, por que me persegues? Dura coisa é para ti recalcitrar contra os aguilhões?” Espero que sim, e mais, espero que tenha feito as pazes com o Crucificado antes do rompimento do fio de prata, antes do último suspiro…

Filho e neto de pastores protestantes, quem sabe não voltou pra casa, como um pródigo mulambento, mas salvo? Agora imagine, que surpresa seria encontrarmos esse maluco nas mansões celestiais! Pois é, só aguardando…


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