um dedo de prosa

16 de agosto de 2011

A Razão Bifurcada

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 1:19 am
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A Razão Bifurcada

Por Luiz Leite

A razão, dádiva que segundo Agostinho de Hipona nos faz superiores, não deveria nos atrapalhar a vida. Fato é, entretanto, que muito conflito nasce por conta dos princípios equivocados utilizados nos processos mentais responsáveis pela formação de argumentos considerados “razoáveis” pelo indivíduo. Como a verdade é a verdade do sujeito, o que significa que cada um tem a sua, a desavença e o conflito são inevitáveis. Os homens se atritam diariamente na disputa para estabelecer por força do argumento ou pela violência das armas, quem está certo.

Esta boa razão supostamente deveria mitigar a tensão nos impasses e trazer harmonia ao caos. Seria bom se fosse assim tão simples. Complicamos tudo quando assumimos a mediação da razão como suficiente para nos assessorar. Erramos trágica e pateticamente ao nos apoiarmos unicamente sobre ela pois comumente é essa mesma razão que freqüentemente acaba emprestando a fagulha que precipitará a combustão

Esmeramo-nos na estruturação dos nossos argumentos para enfrentar nossos problemas e negligenciamos o mais sutil e fundamental elemento: a sabedoria. Entre uma e outra há um abismo imenso. A razão é bastante pragmática, linear, exata. Esse é o seu grande benefício mas também o seu grande problema. Sem o conselho da sabedoria a razão comete loucuras pois segue uma lógica implacável que esmaga impiedosamente a todos os que se lhe opõem.

A lógica adotada pela sabedoria a princípio é estranha à razão. Por essa causa nem sempre se harmonizam.  A sabedoria tem algo de místico e utiliza-se da fé como recurso para se orientar. Fato é que tanto uma como outra dependem de uma teoria da verdade para se sustentar. Como a verdade do homem fragmentou-se em mil cacos e cada um tomou para si um desses fragmentos julgando ter posse da melhor e mais completa porção é evidente que jamais chegarão a um consenso.

Estabelecer o que é a verdade é o ponto de partida para a solução dos problemas. Jesus, quando interrogado por Pilatos disse para aquele que viera ao mundo para dar testemunho da verdade. Pilatos perguntou-lhe:  O que é a verdade? Se o tom foi solene, sincero ou jocoso jamais saberemos. Fato é que o questionamento de Pilatos revela uma dúvida milenar. Foi exatamente em razão dessa dúvida atemporal que muitas teorias da verdade foram desenvolvidas. Quando Jesus veio ao mundo basicamente as maiores e mais importantes teorias já haviam sido concebidas.

Para os empíricos a verdade é apreendida através da experiência prática sendo percebida objetivamente por meio dos sentidos. Os racionalistas por sua vez sustentam que a verdade é alcançada por meio da razão, uma espécie de órgão inato onde estão armazenados todos os conhecimentos necessários para explicar o mundo. Os místicos, entretanto, contrariando os primeiros, apontam para outras fontes que estão além da empeiria (experiência) ou racionalidade humana. A verdade, dizem, só pode ser acessada através da revelação, trazida por uma entidade espiritual procedente daquela dimensão onde reside a realidade e explicação última das coisas.

Ainda que empíricos e racionalistas façam concessão uns aos outros nesse ou naquele aspecto acerca do acesso à verdade, ambos torcem o nariz às razões dos místicos, deixando assim a razão bifurcada. Partindo de pressupostos tão diferentes acerca do mesmo objeto é natural que tenha conclusões também distintas. A religião sempre suspeitando da razão e com um forte discurso sobre a sabedoria está sempre a acenar para a criatura humana convidando-a a abraçar a fé e partir para uma aventura para além dos domínios da razão e da experiência sensual. Uma vive a desdenhar da outra.  A fé ri-se da razão e a razão e esta por sua vez não é menos cruel com aquela.

Assim, a crendice, discursando sabedoria preciosa e oculta arrasta o homem para os domínios da mística; a incredulidade dos ímpios, apoiada sobre a razão, esforça-se para tirá-lo de lá, num movimento constante como se numa disputa de “cabo de guerra”, com a diferença de que neste caso não se trata apenas de um recurso lúdico para passar tempo. Esse é jogo é, literalmente, um jogo de guerra.

Se perguntarmos por que não existe a possibilidade de harmonizar esse binômio conflituoso, encontraremos respostas na velha e boa bíblia. É lógico que esse parágrafo vai fazer o incréu protestar. Existe uma lógica divina e outra satânica. A lógica divina assenta-se sobre princípios que não se adequam aos padrões da razão natural. Desferindo golpe letal a toda forma de materialismo, a lógica divina deposita uma ênfase especial sobre o outro. A lógica diabólica por sua vez busca os seus próprios interesses, princípio sobre o qual se fundamenta todas as versões de violência que aprisionam o homem em cadeias de eterno conflito.

Qualquer observador da trama social pode identificar essa dualidade sem muito esforço. A doutrina do ego (egoísmo) baseada sobre aquela velha e inexorável razão linear, e a doutrina do outro (altruísmo), estabelecida sobre os pilares de uma lógica que não produz as vantagens esperadas numa disputa. Ficam  estabelecidas aí de modo perfeitamente claro o lugar exato onde a razão cindiu-se em dois ramos conflitantes. A razão divina obedece a uma lógica diferente daquela que encontramos regendo as relações humanas de modo geral.

Todos seguem um padrão de comportamento que revelam o fundamento ético que dirige suas ações. No fim das contas, o que vale mesmo não é o discurso, a menos que esse seja revestido de carne e sangue na arena prática da vida diária. Para assegurar consonância entre o discurso e a praxis Jesus orientou: Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. (Mt 7.12) Eis a sabedoria da lógica divina.

22 de junho de 2011

O Vôo Impossível

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 12:15 am
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O Vôo Impossível

Por Luiz Leite

O grande escritor russo Anton Chekhov disse que o homem é aquilo que acredita. Com todo respeito a Chekhov, o que  o que ele fez foi apenas dar eco  a algo que já vinha sendo dito de outras maneiras por outros através dos séculos.

Somos o que acreditamos, guardadas as proporções de sanidade, é claro. Homem algum pode ir além da linha que sua própria capacidade de crer estabelece. De certo modo o edifício do nosso destino é construído por nossas próprias mãos, sendo que a matéria prima utilizada constitui-se em grande parte das crenças que carregamos.

Uma frase de Mary Ash Kay famosa empresária da indústria de cosméticos chama-nos a atenção para uma impossibilidade aparente. Diz ela: “segundo a aerodinâmica o abelhão não poderia voar; sucede que ele não sabe e por isso voa de qualquer modo.”

O  abelhão “acredita” que pode voar. Ainda que as leis da aerodinâmica digam que não pode, o abelhão esforça-se, bate as asas inadequadas e ganha os céus num exercício formidável de superação de limites deixando atônitos e maravilhados os que sustentavam que seu vôo seria impossível.

De algum modo este exemplo da natureza alinha-se ao ensino de Jesus acerca da fé. Jesus disse que tudo é possível ao que crê. Há algo de profundo demais nessa pequena e tão conhecida afirmação. Poucos humanos acessaram esse mistério de modo completo. Se voce crer…

Tudo depende do ponto de partida. A pequena partícula condicional “se” interpõe na cena como um grande divisor de águas. Se acreditamos em Deus, em quem depositamos nossa fé, Ele chamará a responsabilidade para si. Ele cuidará do resto. Se, entretanto, não crermos em Deus, não haverá absolutamente nada mais senão vazio e trevas…

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre disse de certa feita:“Os cristãos partem do princípio ‘Deus existe’; eu parto do postulado: ‘Deus não existe’. “ Este ponto de partida é o fundamento sobre o qual cada um constrói seu destino. Quando ateus como Sartre dizem que deus não existe e que a fé religiosa não faz sentido, o crente não deveria se sentir ofendido. Considerando o ponto do qual partem, a fé em Deus não pode mesmo fazer sentido para eles.

Que o ateu pense que ele não passa de uma cadeia de carbono ambulante errante, vivendo uma existência absurda e sem sentido. Que o crente, por sua vez, prossiga crendo que é ser espiritual criado segundo um propósito divino. Se tão somente conseguirmos respeitar uns aos outros sem nos matarmos já teremos feito um grande avanço.

No fim do ato cada um acabará tendo como resultado aquilo em que acreditou. Se creu numa mentira ou fantasia, restará a frustração e o desencanto. Se creu na verdade conforme as Escrituras, será surpreendido por alegria indizível e se verá perplexo diante do inefável. Quem crê em Jesus (como diz a Escritura) e no céu, vai encontrar-se com Jesus em seu céu; quem crê na dissolução da alma no nada, vai ser lançado no exílio escuro e insondável do nada.

Ainda que ateus e críticos da fé digam que Deus não existe, que o céu é uma fábula esse abelhão aqui continuará batendo suas asas nesse vôo que dizem impossível.

9 de junho de 2011

Religião sem revelação – Uma usina de loucos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Religião sem revelação – Uma usina de loucos

Por Luiz Leite

Caim cabe o título altivo de primeiro apóstata da história da humanidade. Abel, seu irmão, entretanto, parece ter aprendido desde cedo algo que faltava a Caim: a piedade com contentamento. 

Só a revelação pode emprestar à religião o sentido de sacralidade da vida; Sem a revelação a prática religiosa torna-se uma experiência enfadonha, decepcionante, e por isso também  perigosa. Sem a revelação jamais será capaz de providenciar o estofo que o homem precisa para preencher os buracos existenciais de sua alma aflita.

Caim era um homem angustiado. Carregava consigo rancores que lhe amargavam as entranhas e, por mais que praticasse a religião dos seus pais, não conseguia se desvencilhar das garras de um coração sombrio; respirava um ressentimento imenso em relação ao irmão.

Alguns dizem que Caim invejava a graça e prosperidade de Abel. A etimologia da palavra “inveja”, do latim “invidere”, significa basicamente “olhar para” , no sentido de querer “o brilho” do outro; A inveja visa não necessariamente os bens do outro, mas a graça do outro. É sem dúvida uma das enfermidades mais daninhas da alma humana.

Pelo que o texto bíblico indica, Abel atraiu a inveja e o ódio de seu irmão porque “o Senhor aceitou com agrado Abel e sua oferta, mas não aceitou Caim e sua oferta.” (Gn 4:4-5) por isto, continua o texto, “Caim se enfureceu e o seu rosto se transtornou”.

Note-se que o texto trás implícita a idéia de que o Senhor antes de “aceitar” a oferta, precisa aceitar o ofertante. A oferta em si pouco importa. O coração do ofertante, isto sim é tudo. A prática da religião, no que respeita à observação litúrgica dos seus cerimoniais pouco importa se aquele que traz a sua oferta ao altar não tiver o coração aprovado.

Abel tem a sua oferta aceita porque já antes tivera o coração aprovado. Vivia uma espiritualidade refletida, ao passo que Caim transitava na esfera de uma espécie de religiosidade feita de protocolos apenas. Caim tinham a informação, mas não tinha a revelação. Uma vivência religiosa nesses moldes produz um ritualismo marcado por uma  mecanicidade estéril e sem vida.

O coração árido de Caim certamente não entendia de onde procedia a graça, o contentamento, a prosperidade que seu irmão Abel desfrutava. Aquilo provavelmente o incomodava muitíssimo. Por ser o irmão mais velho, ele e o não o caçula deveria desfrutar de tais bênçãos, conjecturava. Deus estava sendo injusto para com ele!

A autocomiseração e desejo por reparação começaram a fermentar em sua alma. Sua religião com todas as práticas cerimoniais afinal não estavam ajudando-o em nada.  Faltava-lhe algo e ele não entendia. Provavelmente faltou-lhe também humildade para perguntar ao irmão qual era o segredo. Em sua frustração e revolta, resolveu seguir a inclinação de seu coração corrompido. Deus, em seu irmão, incomodava muito. Decidiu resolver o problema de Deus. Matou-o.

Esaú, como Caim, também  foi um homem que desprezou a Deus de uma maneira soberba. A sua auto-suficiência foi tão grande a ponto de conduzi-lo a desprezar a bênção de Deus completamente. Como Caim, tem uma diferença com o irmão mais novo. Só não perpetrou o intento de assassinar a Jacó porque publicou o plano.  Ensinados pelo mesmo professor, Esaú e Jacó tomam rumos opostos; A religião de ambos vai resultar nula para um e cheia de significados para outro.

A revelação novamente faz toda  diferença. Esaú desviou-se para sempre. Jamais voltou atrás em suas obstinação; Ainda que depois de velho tenha se reconciliado com o irmão mais novo, jamais conheceu a sublimidade do quebrantamento. Empestiou com sua peçonha  toda a sua descendência. Mesmo depois de morto continuou a perseguir o irmão Jacó, através de seus desdendentes. Desde Amaleque, passando por Hamã, até Herodes, Esaú, o pai dos Edomitas intentou contra Jacó, o pai dos Israelitas.

A religião sem a revelação é uma experiência de finalidade incerta. Ensinar ao homem as verdades de uma moral elevada sem capacitá-lo a vivê-las de modo prático é um experimento perigoso. Colocado numa situação profundamente incômoda, o homem experimentará de contínuo a frustração e a culpa, por não se ver capaz de obedecer às imposições exigidas.

É grande a lista de filhos de crentes que na bíblia se extraviaram e cometeram loucura. Ainda que ensinados na religião de seus pais, perderam-se nas engrenagens frias do cerimonialismo religioso e, levantando-se contra todos os princípios recebidos cometeram torpezas sem que o legado religioso lhes pudesse deter.

Caim fez escola. Sua religião sem revelação fez dele o primeiro dos loucos. Antes de “enfiarmos goela abaixo” dos nossos filhos as nossas convicções espirituais, deveríamos orar muito para que eles sejam contemplados com o clarão que um dia dissipou nossas trevas. Assim, e só assim, poderemos descansar sobre o fato de que não correrão o risco de pirar como muitos nessa imensa e absurda usina de loucos que é a religião sem revelação!

17 de março de 2011

Proposta Sórdida

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 7:37 am
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Proposta Sórdida

Por Luiz Leite

Satanás quando quer tentar a alguém recorre sempre a um velho expediente. Sabendo que o homem é carnal, o que faz dele uma criatura altamente suscetível ao apelo dos sentidos, arma suas armadilhas há milênios sobre o mesmo tripé. Ainda que alguns o tenham como sem  criatividade por usar o mesmo argumento desde sempre, é inacreditável como  tem obtido tanto êxito.

Quando investiu contra Jesus no deserto, seguiu o mesmo roteiro da conversa que entabulou com Eva no Éden alguns milênios antes. Primeiro atacou o Nazareno na área em que parecia mais vulnerável. Um homem após 40 dias sem comer deveria estar fraco a ponto de se deixar sugestionar. Transformar pedras em pães para saciar uma necessidade premente não deveria ser um ato reprovável. O que Satanás não sabia é que aquele moço fragilizado pela falta de pão orgânico estava tirando sua força de outro tipo de pão.

Entrincheirado na cidadela intransponível da Palavra, o Senhor Jesus rasgou-lhe uma das feias asas de morcego quando respondeu com um torpedo arrasador… “Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca do Senhor.” Após  um recuo estratégico, retornou com força total numa segunda tentativa; mostrou a Jesus todos os reinos do mundo bem como sua glória, e ofereceu sua melhor proposta para tão somente sair temporariamente da arena com a segunda asa quebrada!

O diabo sempre tem uma proposta para homens ambiciosos;  Excelente observador (dispõe de todo o tempo do mundo para bisbilhotar a vida dos outros), sabe quem tem aspirações incomuns não apenas por ser um excelente psicólogo, mas simplesmente porque as pessoas falam de seus sonhos. Jesus tinha uma ambição secreta mas, diferentemente dos outros, jamais falava dela. Sua mãe, bem intencionada, até que tentou dar um empurrão na ”carreira” do filho para ouvir constrangida uma reprimenda inesperada.

Satanás sabia do mistério que envolvia aquele Carpinteiro mas não podia identificar que ambição era aquela. A ambição não é um mal em si mesma. O problema é o coração. Onde ele está. Que tipo de lógica segue. Para explorar o campo das ambições Satanás precisa mostrar alguma coisa ao homem… Além de mostrar a Jesus todos os reinos da terra e glória destes, propõe um pacto inusitado: “tudo isto te darei se prostrado me adorares”.

Por saber quem era Jesus, o inimigo jogou tudo numa só cartada. Para “comprar o passe de Jesus” ele estava disposto a abrir mão de tudo! Incrível como Satanás identificou a Pérola de grande valor e fez o que pôde para comprá-la! É patético como muitos homens agarram-se às quinquilarias de suas posses e status e hesitam em abrir mão de glória efêmera que desfrutam para ter Jesus ao seu lado. Isto certamente acontece porque não têm idéia de quem seja o Jesus que lhes é pregado.

Satanás investiu tudo na tentativa de comprar Jesus mas não faz assim com todos os homens… Sabe bem que a alguns pode seduzir com uma proposta bem menor… Há pessoas que se vendem por uma ninharia. Como um grande embusteiro que é, Satanás oferece aquilo que não é seu… Ele sempre tem um pacote bom aos olhos para propor…  a negociata com o inimigo parece sempre interessante e lucrativa, mas quem fizer acordo com ele vai ter que devolver mais cedo ou mais tarde tudo o que recebeu pois ele oferece aquilo que não é dele. Nada ele tem que possa oferecer a alguém. Tudo foi usurpado. Sabedor disso Jesus recusa veementemente sua proposta sórdida. 

Cuidado com aquele mentiroso! Segundo Jesus além de mentiroso é ladrão. Vem mentindo desde o princípio. Cuidado com suas propostas. São sempre sedutoras. Resista-lhe firme, na Palavra, e ele fugirá de voce! Quando vier com alguma proposta de glória e sucesso, certifique-se de ter sempre uma Palavra demolidora para arrasar com seu argumento. Se lhe mostrar e oferecer os reinos da terra, recuse sua proposta sórdida e lembre-se de orar segundo a intrução de Jesus: “Pai…venha o teu reino!”  Na literatura judaica se faz muita menção ao reino de Deus. É dito na literatura judaica que o homem que não menciona o reino de Deus em suas orações nem ao menos ora. Aquele que busca o reino de Deus certamente não estará aberto a negociações com o pai da mentira!

17 de janeiro de 2011

Teologia Conflitante

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 5:07 pm
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Os Cinco Pontos Do Calvinismo

Por Luiz Leite

Os chamados Cinco Pontos do Calvinismo, contrariamente ao que sugere a fórmula, nada tem a ver, em termos, com João Calvino (1509-1564). O documento foi publicado cerca de 50 anos após a morte de Calvino. Não foi elaborado, tampouco, como julgam alguns, com o intuito de sintetizar a fé reformada, mas para providenciar resposta aos discípulos de Jacob Hermann (Arminius) que haviam lançado um documento denominado os Cinco Pontos do Arminianismo e intentavam com isso influenciar a orientação da igreja reformada na Holanda que esposava fortemente a doutrina da predestinação.

Armínio (1560-1600) contestava a predestinação e a vontade soberana de Deus da forma como se ensinava nos púlpitos e seminários de seus dias; cria no livre arbítrio e na responsabilidade humana de escolher entre obedecer ou não ao chamado de Deus e responder positivamente ao apelo de sua própria consciência. Suas idéias chocavam-se frontalmente com os postulados calvinistas, o que custaria mais tarde aos seus discípulos perseguição e exílio. Hoje, não mais classificada como herege, a teologia arminiana encontrou o seu lugar de expressão em muitíssimas igrejas, mas o debate permanece longe de um possível acordo. Segue os Cinco Pontos Arminianos e Calvinistas:

 Ponto 1. Vontade Livre – O arminianismo afirma que o homem é “livre” para escolher. Esse “livre arbítrio” o coloca como responsável pela sua salvação, ou seja, aquele que está na condição de responder ou a Palavra de Deus, ou a palavra de Satanás. A salvação, portanto, é operação conjunta. Não é um ato unilateral da parte de Deus. O homem tem o papel da escolha.

Ponto 1. Depravação Total – O calvinismo por sua vez sustenta que o homem não regenerado encontra-se completamente incapaz de tomar qualquer decisão uma vez que é escravo de Satanás, e, por isso, é totalmente inapto para exercer sua vontade livremente; O estado de depravação total deixa, portanto, inteiramente dependente da obra de Deus, que deve vivificá-lo de modo que ele possa por fim crer na obra de Jesus na cruz.

Ponto 2. Eleição Condicional – O arminianismo diz que a “eleição é condicional, ou seja, acredita-se que Deus elegeu àqueles a quem “pré-conheceu”, sabendo que aceitariam a salvação, de modo que o pré-conhecimento [de Deus] estava baseado na condição estabelecida pelo homem.

Ponto 2. Eleição Incondicional – O calvinismo sustenta que  a eleição  é um ato que resulta da vontade e soberana e isolada de Deus, segundo seus próprios planos; dessa maneira o homem, espiritualmente morto, nada tem a fazer senão submeter-se àquilo que Deus em seu pré-conhecimento já determinou.

Ponto 3. Expiação Universal – O arminianismo afirma que Cristo morreu para salvar a tantos quantos exercerem sua livre vontade e responderem positivamente ao apelo à salvação feito por Deus através de Seu Filho em sua morte expiatória na cruz. Irão para o inferno apenas aqueles que não querem aceitar a oferta de Deus.

Ponto 3. Expiação Limitada – O calvinismo por sua vez sustenta que Jesus se deu em sacrifício para salvar pessoas determinadas, já eleitas pelo Pai desde a eternidade. Sua morte, portanto, culminou com o êxito completo de sua missão: Todos aqueles pelos quais ele se sacrificou, em seu  número exato, serão salvos. Os outros por sua vez por quem ele não  morreu receberão a “justiça” de Deus, sendo lançados no inferno.

Ponto 4. A Graça pode ser Impedida – O arminianismo afirma que, ainda que seja a vontade de Deus que todos os homens sejam salvos, o homem pode resistir ao Espírito Santo,  e por consequencia rejeitar a graça divina. Deus, por sua vez “permite” que o homem obstrua Sua vontade. A graça divina se propõe, não se impõe.

Ponto 4. Graça Irresistível – O calvinismo ensina que a graça de Deus é irresistível, ou seja, uma vez que o espírito humano é regenerado este homem será inevitavelmente conduzido a Deus; aqueles que foram predestinados para a salvação serão alcançados de qualquer modo uma vez que assim que forem alcançados pela graça não poderão fazer qualquer coisa senão se render.

Ponto 5. O Homem pode Cair da Graça – O arminianismo argumenta que o homem, da mesma forma que é salvo por um ato de sua própria escolha e vontade, aceitando a Cristo, pode também perder-se depois de ter sido salvo, se resolver recuar, apostatando-se. Na verdade o próprio conceito da apostasia contempla a idéia de que o que se fez apóstata, participou em algum momento prévio a comunhão dos santos! A possibilidade de perder-se, é denominada de “queda (ou perda) da graça”, pelos seguidores de Arminius.

Ponto 5. Perseverança dos Santos – O calvinismo alterca afirmando que a salvação, uma vez que é operada inteiramente por Deus, e uma vez que o homem não precisa fazer nada “para ser salvo” , também não precisa se esforçar para  “permanecer salvo”, porque isto também é Deus. Os eleitos hão de perseverar porque Deus fez a promessa de terminar  a obra que ele mesmo iniciou na vida do crente.

A teologia cristã, como as demais teologias, quer sejam judaicas, muçulmanas, hinduístas ou budistas, conflitam em muitos aspectos. Esses conflitos são inevitáveis. Cristianismo, Judaismo, Islamismo, para citar apenas os três grandes blocos da fé monoteista, partidos em inúmeras denominações, debatem-se em meio a muitas diferenças de interpretação dos seus livros sagrados. Se tão somente respeitarmos aqueles que pensam diferente, sem condená-los às chamas por heresia, já teremos feitos grande progresso. O problema, entretanto, é insolúvel. Sempre haverá aquele que não lê na cartilha da “nossa” ortodoxia. Parodiando frase famosa de Jesus: Os hereges sempre os tereis convosco!

13 de dezembro de 2010

Natal Cristão, Natal Pagão

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 10:08 pm
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Natal Cristão, Natal Pagão

Por Luiz Leite

Estou absolutamente certo que o verdadeiro “bom velhinho”, Nicolau de Mira (? – 342), crente de boa cepa e de venerável memória, não ficaria à vontade com os festejos que por esta ocasião vão levar milhares de pessoas ao redor do globo a se vestirem com uma fantasia caricaturesca, querendo, à título de galhofa, identificarem-se com ele.

O natal pagão, como todos os anos, será celebrado em praticamente todos os níveis da sociedade, como uma ocasião propícia para reunir família e amigos e comer juntos. É um feriado apenas, ainda que revestido de atmosfera especial. Como num sonho, todos tornam-se gentis e bondosos… vive-se uma espécie de utopia por algumas horas.

O tradicional costume de dar presentes, os cumprimentos calorosos de um “feliz natal” a conhecidos e desconhecidos, a suspensão temporária das animosidades parece o prenúncio da chegada de um novo tempo onde consciências dilatadas e esclarecidas pelo clarão de uma lucidez divina não mais recorrerão à agressão no trato com o outro, reconhecendo finalmente que o outro sou eu!

O natal pagão é uma farsa! A fachada cuidadosamente produzida não resiste ao teste das horas. As belas roupas e finos manjares, as frases de efeito e discursos produzidos com palavras escolhidas desvanecem, fugidios como o éter. Tão logo vira-se a página do calendário,  os corações empedernidos e a motivações rasteiras voltam a ditar as regras.

O natal cristão, todavia, repete-se manhã após manhã, dia após dia, não nas mesas suntuosas das celebrações regadas a vinhos caros, rabanadas e demais ítens próprios da ocasião, mas quando vidas quebrantadas recebem Jesus em seus corações, em meio a lágrimas e, às vezes, muita dor. É quando Jesus nasce no coração dos homens que se dá o verdadeiro natal.

Jesus nasceu na estrebaria do meu coração! Uma estrebaria não é um lugar de confortos, tampouco um lugar aprazível para se estar. Inacreditavelmente o Salvador escolheu nascer ali! Fico maravilhado todas as vezes que penso que Ele escolheu nascer na estrebaria do meu coração! Um lugar rústico e pobre nada digno de receber a visita de um Rei! Fico mais maravilhado ainda ao constatar que o Rei não veio apenas para uma simples visita, veio morar ali!

O natal cristão difere em muito do natal pagão. Não é apenas naquela noite especial, como se dá com o natal pagão, que o coração é arrumado para lembrar que o Salvador nasceu. No natal cristão, o Salvador veio para ficar, razão porque não pode ser lembrado e celebrado apenas na data questionável em que se comemora Seu “aniversário”.

Se voce está cansado do natal pagão, então tenha nesse ano um natal cristão! Ésimples. Basta deixar de fazer pose e convidar a Jesus para nascer na estrebaria do seu coração. Se voce já o reconhece como Salvador, é tempo de entregar sua vida nas mão Dele e confessá-lo como Senhor, porque Senhor Ele é! E assim, tenha veradeiramente um Feliz Natal!

“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.”  (isaias 9.6)

23 de novembro de 2010

Na Calada da Noite

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 4:01 pm
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Na Calada da Noite

Por Luiz Leite

“Quanto mais esperto o homem se julga mais precisa de proteção divina para defender-se de si mesmo.”(Sêneca)

Geralmente Nicodemos é ignorado pelos pregadores que utilizam o evento envolvendo o seu encontro com Jesus. O foco da maioria dos pregadores recai sobre o ensino de Jesus e pouco se fala sobre o que se pode aprender do personagem curioso que procura Jesus na calada da noite. Há tanta coisa boa a aprender com Nicodemos!

Nicodemos buscou a Jesus no meio da noite porque tinha uma motivação básica que o levou a isso. Correu certo risco ao expor-se daquela maneira, mas moveu-se. Nicodemos tinha uma necessidade de conhecer a verdade por trás dos fatos. Foi honesto o suficiente para reconhecer que suas crenças careciam de solidez. Não bastava apenas o que tinha ouvido sobre Jesus. Era-lhe necessário escavar mais, ir mais fundo. Um conhecimento apenas superficial, baseado em versões populares, tantas vezes contraditórias, não lhe servia. Fez aquilo que todos deviam fazer e não fazem, pois ao invés de mergulharem, preferem permanecer na superfície; ao invés de içarem âncoras preferem a segurança relativa do porto e assim vão vivendo à margem da vida e seus desafios.

Nicodemos sem dúvida não era um homem raso, que se deixava contentar com rascunhos fajutos de conceitos; tampouco se deixava enredar facilmente por preconceitos de qualquer ordem. Sinto uma profunda simpatia e respeito por esse homem. Naquela noite decisiva, aquele que era um príncipe em Israel julgou imperativo sair da sua mansão e investigar por conta própria o ensino e a pessoa de Jesus. De coração aberto partiu, no meio da noite, de encontro ao Salvador dos homens. A diligência de Nicodemos em conhecer a verdade a respeito de Jesus o salvou!

Um número muito grande de pessoas tem uma tendência fortíssima para a mediocridade. Contentamo-nos em saber apenas superficialmente a respeito das coisas. A maioria de nós tem apenas uma noção desconexa a respeito de determinados assuntos. Poucos de nós podem falar com mais propriedade sobre temas relevantes e que dizem respeito a todos. Se perguntarmos às pessoas se já ouviram falar de alimentos transgênicos, a maioria dirá que sim,  mas poucos sabem alguma coisa de fato, e menos ainda saberão explicar o que realmente é isto.
Desse modo, aqueles que se contentam em saber vagamente acerca dos fatos. Essa é uma posição extremamente perigosa. A ignorância deliberada, gerada no conforto enganoso da comodidade resultará prejudicial a qualquer que se entregar aos seus braços e adormecer ao som do seu acalanto. Nicodemos resolveu sair do conforto questionável. Descobriu que o homem refinado que era, com toda a sua formação, religiosa, moral e intelectual, precisava dar lugar a um novo homem. Ele tinha que lançar fora a capa da religião, as máscaras da tradição e toda a hipocrisia que envolvia as convenções sociais e que o haviam engessado dentro de uma mentalidade que, apesar das aparências de piedade, o colocavam na direção errada. Nicodemos descobriu que estava na contramão.
Não tenha vergonha de admitir que tem dúvidas de seus conceitos… Procure Jesus. Se não tiver coragem de associar-se a Ele no clarão do dia, busque-o mesmo que seja na calada da noite… Uma revelação poderosa destruirá conceitos enganosos e revelará o risco imenso que voce pode estar correndo ao trafegar na contramão.

27 de outubro de 2010

Espetáculo Mambembe

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Espetáculo Mambembe

Por Luiz Leite

Este artigo trata do pastor que ataca o bispo que ataca o pastor… É absolutamente lamentável que façam da cena evangélica o circo que aí está, promovendo esse espetáculo mambembe, onde o nome de Jesus acaba virando mote na boca dos incrédulos. Qual não deve ser a alegria do Diabo ao assistir supostos representantes de Cristo se digladiando, acusando-se mutuamente, representando um papel que sempre foi dele! Creio que esse é um dos raros momentos onde a velha e vaidosa serpente não se ofende quando lhe roubam a cena.

Já não bastava a horrível controvérsia envolvendo Silas e Caio… quem ganhou? quem perdeu? certamente o Reino não foi edificado nem as vidas dos cidadãos do Reino. Na verdade todos perderam, todos sairam derrotados, tristes e envergonhados dessa rinha  insana onde pastores, como galos de briga, afiam seus esporões e se põem a desferir golpes  em seus pares… Estou enojado com tudo isto.

Não, eu não desconheço a história. Sempre houve disputas acaloradas entre líderanças eclesiásticas. As grandes refregas doutrinárias do passado cristão revelam grandes campeões da fé envolvidos em batalhas filosófico teológicas que definiriam mais tarde o perfil doutrinário da igreja cristã. Assim foi que Atanásio defendendo a divindade de Cristo, combateu Ário que em sua heresia afirmava ser Jesus apenas um ser criado. Tertuliano atacou a Marcião, o herege a quem Policarpo de Esmirna chamou de “primogênito de Satanás”.  Agostinho de Hipona combateu Donato de Casa Nigra, ajudando a extinguir a heresia donatista do norte da África…

Enfim, esses homens e muitos outros que se desgastaram no labor de defender a integridade da fé cristã, enfrentaram os heresiárcas como Ário, Marcião, Donato, Sabélio, Montano, entre outros, para garantir o corpo de doutrinas que hoje definem o que é o cristianismo; somos gratos aos saudosos apologetas, guerreiros que batalharam pela fé que foi confiada aos santos.

Diferentemente do teor das pelejas travadas pelos defensores da fé do passado, o que vemos, entretanto, envolvendo os líderes contemporâneos citados, é uma briga de supostos representantes do Reino, refletindo o duelo político entre Dilma e Serra, o que torna a coisa por demais triste…  é deprimente ver pastores se engalfinharem em conflitos desse nível… Até compreendo a atitude de Silas Malafaia que se sente  ultrajado com as insinuações do Bispo Macedo, como se vê no vídeo a seguir, mas é uma lástima que a discussão envolvendo líderes de grande projeção não passe de um bate boca patético que não edifica a ninguém! A briga pessoal que se torna pública, com sua troca de farpas, não serve em definitivo à causa do Reino, pela qual ambos dizem lutar.

24 de agosto de 2010

Em Defesa de Eusébio

Em Defesa de Eusébio

Por Luiz Leite

Como fã de História e admirador de historiadores, fiquei bastante incomodado com o juízo que alguns críticos, segundo o autor que lia (Justo Gonzales), fazem acerca de um dos meus heróis.  Trata-se de Eusébio de Cesaréia (265-339 d.C.), que é simplesmente o responsável por quase tudo que hoje sabemos dos primeiros três séculos da fé cristã.

Gosto tanto de Eusébio que batizei um dos meus primeiros violões em sua homenagem. Eusébio viajou comigo por muitos lugares do mundo, inclusive pela velha Palestina, onde viveu o famoso bispo. Ícone da Igreja oriental, tornou-se figura importantíssima ao abraçar a tarefa de historiar a trajetória da igreja do nascimento aos seus dias. Seu legado é estimado como uma das mais preciosas fontes de informação sobre aqueles dias que as brumas do tempos ameaçam encobrir.

O que me chateia nos críticos de Eusébio é a acusação de que sua obra tenha sido produzida como uma peça de lisonja a Constantino, o todo poderoso Imperador que, apesar de sanguinário e irascível, é retratado de modo inteiramente positivo, quase um santo, um Josué, lutando as batalhas do Senhor. O fato é que assim mesmo se aparenta mas, após tantos anos de perseguição não seria de admirar que muitos nos dias de Eusébio julgassem a mudança de postura do império e o aceno amistoso do imperador como um ato de intervenção de Deus e por isso uma bênção.

É necessário compreender o homem e seu tempo. Intrigas políticas à parte, sua contribuição nos é inestimável. Graças a Eusébio, guiados pela lâmpada que nos legou, sua Historia Ecclesiae (História Eclesiástica), podemos hoje ter acesso a informações preciosas que nos dão  a entender muito que, sem a obra citada, estaria para sempre perdido. Aos historiadores que o criticam eu diria: Deixem o Eusébio em paz seus ingratos!

11 de maio de 2010

A Ocupação da Mente

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 9:29 pm
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A Ocupação da Mente

 Por Luiz Leite

Só há pouco tempo os impérios da terra vieram perceber que a expansão territorial através da ocupação física era um empreendimento por demais trabalhoso. Muito embora o lucro fosse garantido a médio e longo prazo, os custos eram demasiado altos. O século XX assistiu a uma mudança de paradigma, o advento de uma nova forma de imperialismo. A violentação de povos e culturas já não se daria por meio da ocupação brutal de tropas impondo a nova ordem pela força da espada.

Toda aquela metodologia utilizada pelas potências de outros séculos provara-se extremamente trabalhosa, cansativa e cara. O novo método tornou-se mais sutil e eficiente, mas nem por isso menos cruel. Os canhões foram substituídos por armas mais sofisticadas. O seu barulho mostrava-se muito mais agradável aos ouvidos de dominadores e dominados. Depois de séculos de espólio, opressão e carnificina, o homem passou a utilizar-se  eficientemente de outros meios para conseguir sucesso em seu odioso empreendimento de expansão. O imperialismo colonialista, truculento, deu lugar a uma nova forma de tirania: o imperialismo ideológico.

O inimigo não estaria mais presente fisicamente, de modo ostensivo e intimidador, como se fazia à moda antiga. Não mais esbarraríamos em suas forças de ocupação pelas ruas, com seus soldados armados vigiando nossas atividades. O invasor não está em nenhum lugar para ser visto, mas pode-se perceber sua influência em todas as áreas, como uma espécie maligna de onipresença, regulando nossos hábitos, costumes, modificando nossa cultura, descaracterizando nosso legado.

A mídia, que deveria, supostamente, ser fonte de informação torna-se, camufladamente, o mais terrível instrumento de desorientação, distorcendo e confundindo.  Os padrões éticos e estéticos são gradativa e inexoravelmente alterados segundo o gosto de quem ocupa. A música que cantamos, a roupa que vestimos, os filmes que assistimos, os livros que lemos…tudo que se vê, se ouve, se lê, carrega sua marca! De repente tornou-se reprovável ser o que sempre fomos! nossas vestes, linguajar, música, comida e demais elementos que fazem de nós o que somos, já não serve… Quando se tem assegurada a ocupação da mente, já não há necessidade alguma de se tomar a terra.

A propaganda ideológica, essa arma fabulosa que garante o sucesso sem disparar um tiro, antes de ser experimentada nos laboratórios das políticas expansionistas soviéticas ou americanas, já vinha sendo utilizada com maestria em outra dimensão.  Não foram os humanos os responsáveis por conceber este eficientíssimo método de controle. Em verdade todas as atrocidades que os homens têm perpetrado através dos séculos tiveram inspiração direta no diabo. Essa forma sutil e “inteligente” de manipulação e domínio já vem sendo utilizada por satanás há milênios.

A grande arma de satanás sempre foi a sugestão e o homem sempre foi seduzido e vencido por ele na arena das idéias. É absolutamene impossível para o homem comum argumentar contra o pai da mentira, o mestre dos ardis, a artesão mor de todos os sofismas. Se ele convenceu, através de sua capacidade, a um sem número de anjos, criaturas poderosas e inteligentes, o que dizer de mortais tão obtusos no entendimento como os homens. A ocupação por ele exercida é mais completa e desesperadora do que possamos imaginar. Não fazemos idéia do que significa o texto bíblico que diz que “o mundo inteiro jaz no maligno.”   Vivemos em um mundo sob ocupação e nos comportamos como se vivêssemos num enorme play ground!  

Assim reagiram os judeus quando Jesus lhes disse: ” Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”  (Jo 8:32)  Sentindo-se afrontados, retrucaram com veemência: “Jamais fomos escravos de alguém; como dizes tu: sereis livres? (v. 33) Jesus falava-lhes de uma espécie de cativeiro do qual eles não tinham conhecimento. Eis a mais terrível forma de escravidão! Jesus referia-se à cadeias conceituais, algemas invisíveis. A propaganda ideológica ocupa as mentes através de mensagens subliminares emitidas em uma frequência imperceptível. Satanás faz isto com excelência e os que o seguem reproduzem o mesmo padrão.

Como aqueles ouvintes de Jesus naquele dia, hoje, como então, milhões se encontram a ferros. Aprisionados em gaiolas douradas, ignoram completamente a realidade desse poder maligno que os domina.  Suas mentes tem sido tomadas, sistematicamente; Suas almas estão perdidas sob o controle do espírito maligno do “príncipe da potestade do ar;” Resta-lhes como via de escape apenas Jesus Cristo, o Libertador dos homens, Aquele a quem estupidamente teimam rejeitar!

27 de abril de 2010

Jorge de Capadócia, o Santo Guerreiro

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 1:02 am
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Jorge de Capadócia

Por Luiz Leite

A história (ou estória) de Jorge (celebrado no dia 23 de abril) é envolta em mistério. Na verdade, não há registro que possa conferir o mínimo de historicidade à sua vida ou morte. O pouco que se tem, o relato sobre sua Paixão, segundo consta, foi considerado apócrifo já no século VI pelo decreto Gelasiano. Sabe-se, entretanto, que era da Capadócia, região da atual Turquia.

Jorge foi um soldado romano e mártir cristão (A salada sincrética da umbanda o identifica como ogun, no Rio de Janeiro  e oxóssi, na Bahia). Ainda que não se tenha prova histórica de sua existência, é de admirar que até hoje encontrem-se, em tantas partes do mundo, pessoas que, movidas por uma fé equivocada, dirijam-lhe preces e afirmem ter nele um protetor fiel.

Por que razão o túmulo de Jorge passou a ser alvo de peregrinações por volta do sec IV? O que tanto incomodou Saladino, o comandante otomano, que o levou a destruir o tal sepúlcro e a igreja que fora construída em sua honra? Que há com esse Jorge? O que ele fez que deixou essa marca tão impressionante?

A lenda conta que Jorge teria libertado uma cidade  que vivia sob o terror de certo dragão que habitava as profundezas de um lago e que de quando em vez vinha à superfície trazendo morte aos seus habitantes apenas com seu hálito… Os moradores daquele lugar, para aplacar a sanha da fera  resolveram oferecer-lhe, ocasionalmente, uma virgem em sacrifício.  As moças que eram escolhidas por sorte não tinham como escapar.

Foi numa dessas ocasiões que Jorge teria aparecido. Estava sendo oferecida ao monstro uma princesa. Jorge desembainhou sua espada e enfrentou o bicho, que logo foi domado e tornou-se manso como um cordeiro.  A moça, salva, e agora protegida por Jorge, entra na cidade puxando o horrível dragão por uma coleira. Jorge anuncia aos apavorados moradores do lugar que não precisavam mais temer a besta.

O que eu gosto em Jorge? Ele declarou em alta voz que havia vindo em nome de Cristo, para por fim àquela situação, e acrescentou que  tudo o que a população da cidade tinha que fazer era converter-se a Cristo e ser batizada! Esse Jorge era sem dúvida um crente daqueles! É uma pena ver o que os idólatras fizeram com essa figura incrível que foi o irmão Jorge!

Sua morte fechou com chave de ouro o testemunho de fé que Jorge deu durante sua vida abreviada. Por recusar-se a cultuar os deuses do império Jorge foi submetido a suplícios atrozes; Não recuou em sua fé, antes, sustentou sua fidelidade a Cristo até o fim, quando lhe decapitaram. Sua firmeza  inspirou milhares de outros cristãos à darem testemunho de sua fé mesmo em face ao holocausto.

É lamentável que as pessoas, ao invés de se inspirarem em Jorge para desenvolverem uma fé cristã genuína, permaneçam na prática absurda da idolatria, que sem dúvida o próprio Jorge jamais aprovaria, uma vez que ele mesmo morreu por recusar-se a dar culto a outro, senão à Deus! Provavelmente, se pudesse, Jorge desabonaria completamente qualquer culto a si mesmo e bradaria em alta voz pela cidade, como fez na estória referida: Convertam-se a Cristo e sejam batizados!!!

31 de março de 2010

Na contramão da Lógica

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 5:47 pm
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Na contramão da lógica
Por Luiz Leite

Artigo publicado na Revista Eclésia, Mar/2010 (Coluna Pastoral)

Quando acuados, ameaçados, assustados, um incrível fenômeno se processa em nosso corpo; somos invadidos por fortes descargas de adrenalina, famoso neurotransmissor responsável por preparar a criatura para dois cursos de ação especifícos: ataque ou fuga. Sob o efeito da adrenalina, as pupilas dilatam, os coração acelera os batimentos, os músculos se tensionam, antevendo a necessidade da ação… A invasão da chamada molécula da ação torna o homem capaz de feitos fora do comum. Pode expor-se a situações de grande risco e ser consagrado herói, caso tenha um golpe de sorte. Dependendo da situação, poderá matar e também morrer. Pode xingar, agredir, perder o tino… Essa é nossa porção animal regida pelo sistema límbico, o mesmo sistema que gerencia a ação de presas e predadores no reino das feras.

Os homens, ainda que mais sofisticados, são mui comumente movidos pelo instinto. Se ameaçados em qualquer situação, o sistema límbico apresenta logo, antes de qualquer consideração da razão, um programa de ação para controlar a crise. Em se tratando de gestão de crises somos grandes estrategistas. Ser um estrategista não significa, todavia, ter respostas inteligentes para a resolução do conflito. Fato é que sempre temos uma planozinho. Parecem lógicos esses rascunhos mal rabiscados de resposta às polêmicas, entretanto, nem sempre trazem o resultado desejado.

E
m momentos cruciais de sua carreira, quando a vida se achava por um triz, sob ameaça, quando a honra estava sendo aviltada, a reputação enxovalhada, Jesus tomava atitudes de todo estranhas… Transitando na contramão da lógica, Ele reagia, em várias ocasiões, de maneira completamente contrária àquela esperada de homens sob pressão. Não perdeu jamais a clareza nem o equilíbrio, não se deixou desorientar pela sanha da ira que pode conduzir a desatinos de consequências trágicas. Tinha sob controle as comportas da emoção e sabia fechar o torniquete quando a porção animal desarvorada desejava tomar o controle de suas ações.

Era natural que os discípulos se vissem perplexos diante de suas reações e esperassem uma resposta mais vigorosa às provocações gratuitas e maldosas dos seus opositores. Por que Ele não revidava? Por que não dava mostras de seu poder, exercendo um justo juízo sobre os seus perseguidores, simplesmente incinerando-os? Quando, de certa feita, João e Tiago sugeriram que recorresse ao seu poder, autorizando-os a fazer descer fogo do céu e consumir aqueles que o desprezaram, ele respondeu de forma desconcertante ao dizer: “Vós não sabeis de que espírito sois.” Pedro nos informa que, “Quando foi injuriado, não injuriava, e quando padecia não ameaçava. Antes, entregava-se àquele que julga justamente.” (I Pe 2.23)

Em nosso humanismo solidário, chegamos até a justificar os acessos de fúria que acometem a alguns e os levam a medidas extremadas; a própria justiça, em casos, atenua o delito justificando-o como a mais legítima defesa. Geralmente homens ordinários respondem de forma equivocada e desproporcional aos ataques, estímulos e provocações do mundo externo. Isto se dá assim porque existe um descompasso interno que dita suas reações. Somos reféns da lógica das emoções; pagamos quase sempre, com a “mesma moeda”; só não ferimos ou matamos, literalmente, nossos desafetos, porque calculamos as consequências e recuamos diante dos custos. Seríamos, segundo alguns pensadores, assassinos potenciais.

Não adianta nos besuntarmos com os cremes da cosmética mágica da mística espiritualista que a religião vende em seu vasto mercado. Pura fachada. Vende-se por aí, há muitos séculos, métodos e fórmulas que prometem controlar o bicho louco que carregamos escondido debaixo do verniz frágil de uma sociabilidade forçada pelas regras de um jogo que nunca parece suficientemente justo. Esta panacéia de rezas e mantras, de gurus e sadus, sejam eles de que linha for, promete muito mas cumpre pouco. É virtualmente impossível conseguir fazer com que o homem abra mão de sua lógica, quanto mais caminhar contra ela!

Jesus transitou na contramão. Quando diante de ameaças que o colocavam em risco, não lançou mão das prerrogativas que poderiam sustentar seu direito de defesa. Abriu mão da réplica, da tréplica… sofreu o agravo, e isto calado. Sustentou até o fim, com atitudes, a mensagem que pregou; não amarelou na hora da verdade, não destoou, não recorreu a qualquer espécie de subterfúgio que pudesse vir a desabonar seu ensino. Viveu o que pregou. Cabalmente.

Nossas atitudes, em última instância, vão determinar se somos o que pregamos, se introjetamos a mensagem que às vezes queremos empurrar goela abaixo de outros. Temo que meu cristianismo seja mais fajuto do que queira admitir. Ponho-me diante do espelho e me pergunto se poderia negar esta afirmação. Mordo os lábios, suo frio, me contorço diante desta verificação; Encaro os fatos e prossigo. As contrações anunciam um parto difícil. Por vezes faço média. Considero os homens, posições, influências… Ainda me debato, justifico, enceno, manipulo, dissimulo (eufemismo para “minto”)… Esse texto nasce doído, como confissão arrancada à força numa sessão de tortura. Confesso que falta a coragem necessária para caminhar na contramão.

Temos nos ludibriado pelos séculos afora, anunciando-nos como discípulos de um Mestre em cujas pegadas não ousamos caminhar… É lógico que o Diabo falta morrer de rir diante daquilo que classificamos como cristianismo. Triste, todavia, é saber que mesmo depois de refletirmos acerca desse arremedo de cristianismo que temos vivido, muitos permanecerão vivendo exatamente do mesmo modo! O desafio, entretanto, segue inalterado, ou tomamos a cruz, negamos as nossas loucas pretensões e o seguimos, ou não temos parte com Ele.

O discurso da renúncia é talvez hoje um dos mais rejeitados. É ilógico. É um atentado aos anseios mais naturais da criatura humana. Antinatural, versa sobre aquilo que não diz respeito aos interesses de homem algum. A teologia da cruz é absurda aos olhos da lógica. Por não conseguirmos assimilá-la de forma integral, criamos uma espécie de simulacro e parece que temos nos contentado com isto. A julgar por tudo que temos visto, se ousarmos nos perguntar onde é que tudo isso vai dar, eu não  teria tanta certeza em afirmar que seria no céu. Estou mais inclinado a pensar que seja no outro condomínio.

6 de junho de 2009

A Inteligência do Evangelho

Filed under: Livros — luiz leite @ 5:16 pm
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A INTELIGÊNCIA DO EVANGELHO

Por Luiz Leite


Está no prelo o meu novo livro, cujo lançamento está previsto para julho próximo, pela Editora Naós. Este livro nasceu de um profundo desconforto que já há muito me acompanhava. Sempre desconfiei que estávamos perdendo alguma coisa na leitura que fazemos do Evangelho. A desconfiança se traduziu por uma certeza aterradora. Não apenas estávamos fazendo uma leitura equivocada, pior, estávamos distorcendo a grande mensagem… Segue um trecho de abertura do primeiro capítulo.

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Tanto desatino já foi cometido em nome de Deus que não é de admirar que um número cada vez maior de pessoas ao redor do globo mantenha sob suspeita o artigo da religião. Estaria Deus envolvido com tanto morticínio? Foi Ele quem avalizou as cruzadas? Endossou a inquisição? Chancelou a conquista das Américas e subsequente extermínio dos nativos americanos? De que lado ele esteve nos longos e intermináveis conflitos religiosos no Oriente Médio e Europa? Seria o Criador um senhor sanguinário e co-participante das disputas intestinas pelo poder político sob a batuta dos sacerdotes, ou tais ocorridos não passariam de manifestação sintomática das almas doentes dos homens?

Qualquer pessoa com um conhecimento razoável da história sabe bem que as cruzadas jamais foram avalizadas por Deus, como se ele houvesse conclamado os cristãos a uma guerra santa contra os muçulmanos para recapturar Jerusalém e a Terra dita santa. A primeira cruzada, lançada pelo papa Inocêncio II em 1095, foi movida por um espírito que de santo nada tinha! A finalidade não era nem um pouco piedosa.

Segundo Armstrong:

“Queria (o papa) que os cavaleiros europeus parassem de lutar entre si e de dividir a cristandade ocidental e fossem gastar suas energias numa guerra no Oriente Médio e ampliar o poder da Igreja. No entanto, quando essa expedição militar se misturou com a mitologia popular, textos bíblicos e fantasias apocalípticas, o resultado foi catastrófico do ponto de vista prático, estratégico e moral”. (3)

É sabido também que a inquisição espanhola jamais foi um ato de inspiração divina! Criada em 1483, a instituição da inquisição visava fins políticos e ideológicos e, ainda que analisada no seu contexto sócio-político encontrem-se explicações, o fato é que suas práticas e expedientes tinham mais a ver com os homens e seus demônios do que com Deus no seu trato com estes.

Os homens conseguem classificar as guerras em justas e injustas, sujas e limpas. Não importando qual seja a natureza da guerra, nem qual a nobreza do ofício, preces são elevadas aos céus, por proteção e favor. Nas competições, antes de entrar na arena, seja do futebol, do vôlei, do rodeio, do pugilismo, os oponentes invocam seus santos padroeiros, beijam suas medalhas, rezam o “pai-nosso”…

Cena pitoresca do filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, nos revela o mais inaudito ato de devoção quando uma gangue de malfeitores reza com grande fervor antes de partir para mais uma de suas perigosas empresas. De mãos dadas, com os instrumentos da morte presos às cinturas, ou pendurados nos ombros, as vozes se unem num fervor próprio dos fiéis quando a prece sobe calorosa aos céus, “Pai nosso (…) venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade… e livra-nos do mal, amém…”

Quantos papas, padres e sacerdotes, católicos ou não, benzeram as armas e “abençoaram” reis e seus exércitos antes que estes partissem para os campos de batalha? “Nunc et in hora mortis nostrae. Amem.” Tão logo recitadas as últimas palavras do rosário, liberam-se os demônios para cumprirem o seu sombrio mister. O temível cavalo vermelho dos quatro flagelos do apocalipse partiu, muitas vezes, para a ceifa macabra da guerra, sob a bênção da religião!

“O maravilhoso dessa empresa infernal é que cada chefe dos matadores faz benzer suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de ir exterminar o próximo”. (4)

Tito Lívio, historiador romano, nos conta em sua História Romana (XXIX, 27, 1-4) a prece de Cipião, o Africano, feita em sua nau capitânia, antes de partir da Sicília para atacar Cartago em 204 a.C.:

“Ó deuses e deusas que habitais os mares e as terras, eu vos suplico e vos rogo que tudo quanto tenha sido feito sob o meu comando (…) seja para o meu benefício e para o benefício do povo e da plebe de Roma (…) que vós os ampareis e os auxilieis; que permitais que estejam em segurança e que alcancem vitória sobre o inimigo; que os tragais de volta comigo em triunfo para os nossos lares, carregados de espólios e despojos; que nos concedais o poder de exercer vingança sobre nossos inimigos e adversários…” (5)

É certo que, assim como o grande general romano Cipião invocou o favor dos seus deuses e deusas antes de partir para a empresa funesta onde milhares seriam dizimados, as autoridades Cartaginesas também recorreram aos seus deuses com o fim de obter favor e assim destruírem o máximo possível de soldados romanos.

Estariam os deuses a serviço dos homens em tais empreitadas? É certo que não! Talvez seja mais certo que tais deuses não passem de demônios; demônios da ambição, da violência, da vingança… Tentando compreender a dinâmica do sentimento de vingança, esse combustível por excelência de todos os conflitos, em matéria sobre o tema, Thomaz Favaro sintetiza essa suspeição das religiões dizendo:

“Para entender a origem do desejo de vingança e aprender a domá-lo, o melhor a fazer é trafegar por fora da religião”. (6)

Tratando de um tema tão cortante como a vingança, esse sentimento destrutivo presente nas complexas elaborações da emoção humana, ao invés de recomendar a religião como mediatriz, Favaro alfineta:

“Como instituição a religião é má conselheira nesses casos”.(7)

De que religião estaria falando Favaro? A religião não deveria, supostamente, ser um agente responsável pela sublimação de tais sentimentos, abrandando o furor, a sanha assassina dos homens? As guerras religiosas através dos séculos apresentam um testemunho completamente inverso. O fanatismo religioso tem devorado as carnes de milhões numa espécie de tributo macabro a Hades, o senhor dos infernos na mitologia grega.

Escrevendo a respeito do assunto Voltaire disse:

“Quando uma vez o fanatismo tendo gangrenado um cérebro, a doença é quase incurável; (…) A religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados.”(8)

Muito embora o termo fanatismo se aplique a qualquer espécie de paixão desmesurada, é nos domínios da religião que fez carreira e granjeou maior fama. A adesão cega e irrefletida à qualquer coisa, seja doutrina filosófica, política ou religiosa, conduzirá a extremos horripilantes. A história o atesta.

Por tão grandes incongruências o mundo pós-moderno, despreza a religião instituída e relativiza os valores absolutos que ela ensina. Já não há, conclui-se, nenhuma garantia que possa servir de lastro àquilo que pregam os líderes da religião. Qualquer observador honesto concluirá que tal desconfiança não é sem razão.

Por causa de tanto descalabro, o cristianismo autêntico foi sendo maculado e distorcido ao ponto de as sociedades mais esclarecidas não só passarem a desconfiar da validade dos postulados da religião, como também a atacá-los de uma maneira cada vez mais aberta, tão logo a Igreja Romana perdeu o monopólio que exercia sobre as almas através de toda a Idade Média. A partir de então ninguém seria poupado. Tanto a instituição desvirtuada quanto a espiritualidade verdadeira seriam pesadamente atacadas.

(…)

O livro prossegue numa reflexão estonteante mas absolutamente fecunda para, por fim, demonstrar a graça e beleza da proposta mais inteligente já feita à raça humana! Vale a pensa conferir.

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