um dedo de prosa

13 de abril de 2012

Telhado de Vidro

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 7:25 am
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Telhado de Vidro

Por Luiz Leite

Durante os dias, semanas e meses em que o escândalo político chamado “Mensalão” roubou a cena e monopolizou as mídias, o Senador da República Demóstenes Torres representou um dos principais papéis de bom moço, figurando como verdadeiro paladino da Ética, bastião da moral, guardião da justiça. Sentíamo-nos seguros ao ouvir seu discurso. Passava-nos a impressão de que nem tudo estava perdido, de que restava em Brasília alguma probidade. A prevaricação se instalara acintosamente pelos palácios do planato afora, o diagnóstico era câncer sim, maligno, mas para nosso alívio não era caso de metástase. Tínhamos Demóstenes. Cobrando intervenção cirúrgica e punição exemplar para todos os envolvidos nas tramóias sórdidas da politicagem execrável que se fazia no Planalto Central do Brasil, o senador não deu trégua aos meliantes de colarinho branco.

Passados alguns poucos anos, para nossa mais profunda decepção, encontramos atolado em lamaçal de catinga não menos fedentina que aquele em que se emporcalharam José Dirceu, Marcos Valério e demais asseclas, o herói que, com discurso enérgico bradou em defesa da democracia e do Estado de direito. Alinhado a um mestre da traficagem, Demóstenes vendeu-se pois, afinal, como sustenta o adágio, todo homem tem seu preço. Exposto, verificou-se que o senador tinha também telhado de vidro. A lama está nos sapatos de fino cromo alemão; O terno fino de grife caríssima também encontra-se manchado… Ainda que afirme com serenidade questionável que provará sua inocência, já se ouve dos seus próprios pares que sua defesa é insustentável.

A prova mais contundente e constrangedora foi apresentada em rede nacional. Ouvir um parlamentar da mais alta categoria dirigir-se a um contraventor como o senhor Carlinhos Cachoeira, como “professor”, é realmente preocupante. Precisei ver o vídeo mais uma vez para checar se de fato tinha ouvido aquilo que julgava inacreditável. Se um senador da república dirige-se a um contraventor como “professor”, então temos as respostas para todas as perguntas; Explica-se como se processa a corrupção neste país. Há uma escola! Vê-se quem são os seus mestres! Se o Sen. Demóstenes, que com sua cara de bom moço convencia a opinião pública, aprende com o “professor” Carlinhos Cachoeira, com quem aprendem os parlamentares barra pesada, quadrilheiros comprovados?

Em meio à esse absurdo e revoltante rosário de casos intermináveis de corrupção, onde senadores receberem favores de bicheiros, deputados abusam de suas prerrogativas e conferem a si mesmos salários além da conta, uma afronta ao contribuinte, surge o Deputado Tiririca lamentando que o partido não tenha aprovado seu nome para candidatura à prefeitura da cidade de São Paulo… Pode parecer engraçado. Alguém pode dizer que é mesmo coisa de palhaço mas, parece que Tiririca tem planos para ir mais longe.  Em mais de um ano de mandato não faltou a uma sessão sequer!!! Como é? Pois é. Atento à cada moção, o palhaço tem se mostrado mais sério do que se esperava. Tomara que tenha se matriculado na escola da boa política e eleja como mentores homens e mulheres de boa fé que lhe ensinem a “graça da garça”. Qual é a graça da garça? A graça da garça é “a arte de viver em meio a lama sem sujar as vestes.”

18 de outubro de 2010

Aula de Ética

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 9:23 pm
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Aula de Ética

Por Luiz Leite

O Ciro Gomes é coordenador da campanha de Dilma para a presidência. Para aceitar tal desafio o “cabra” supostamente teria que estar ideologicamente alinhadinho com a candidata; Qual nada! Veja as opiniões emitidas por Ciro pouco antes de abraçar a nobre causa. A julgar pelos fatos aí apresentados, conclui-se que esses medalhões são contraditórios e seguem um padrão de ética fajuto. Diz-se por aí que cada homem tem seu preço; parece que o Ciro já estipulou o seu. Como um cidadão que faz declarações como as que se ouvem no vídeo tem coragem para assumir posto de lugar-tenente numa campanha que ele mesmo desqualifica com todas as letras? Onde foi parar a ética? ou melhor, onde foi parar a vergonha?

14 de setembro de 2010

Nunca na história desse país…

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 11:52 pm
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Nunca na história desse país…

Por Luiz Leite

Lula lá” – cantávamos nos dias da inocência - “brilha uma estrela…”  – e sonhávamos com o presidente operário. Que o moço tem estrela, já não se questiona. Sua trajetória fala por si. Alcançou, por força de um carisma notável e uma sagacidade política rara, o lugar mais alto, a posição mais ambicionada. 

O cognome “Sapo barbudo”, a ele dado pelo lendário Leonel Brizola, era profético e nem sequer desconfiamos à época. Não imaginávamos que o Sapo viria a ser transformado em príncipe através dos beijos que lhe demos: nossos votos. O príncipe, que a princípio encantava com sua simplicidade plebéia, começou a inchar, revelando a natureza do verdadeiro sapo-boi que sempre carregou em si. A prepotência foi se tornando sua marca registrada. Foi-se o tempo em que cuidava para reprimir seus arroubos de grandeza.

Hoje começa a amedrontar o discurso desse senhor que goza de um nível de aprovação popular nunca antes visto na estória desse país. Calma, não quis dizer História não, quis dizer mesmo estória, pois parece-me que estamos vivendo um conto, ou caímos num conto? É como se estivéssemos presos na trama de uma crônica sobre a corrupção crônica da desavergonhada alma latina.

É verdade que encontramos corrupção em todos os governos, mas nunca, repito, como ele tanto gosta de falar, na história desse país, se viu algo igual. O Mensalão, de longe o maior escândalo político da república, esquema montado pelo governo para comprar os votos da base aliada para tocar seus projetos, nos deixou ultrajados. Desnudou-se as vísceras do Congresso nos deixando ver a feiúra de sua nudez. Quando todos esperavam (ou pelo menos torciam) que houvesse uma devassa, desratizando o Congresso nacional, a blindagem da malandragem provou-se mais eficaz do que se imaginava. Tivemos apenas três deputados cassados. Dezenas conseguiram, e isto o diabo sabe como, escapar ilesos.

No escândalo dos “sanguessugas” (não poderia haver denominação mais apropriada), mais de 80 senadores e deputados foram investigados, mas ninguem até hoje foi punido; e mais uma vez o desfecho revestiu-se de impunidade, e tudo terminou numa pizza colossal.  Se me desse ao trabalho de mencionar aqui todos os atos da bandidagem com imunidade parlamentar, a prosa seria longa. A corrupção dos chamados governos burgueses que antecederam o PT é arremedada de forma grosseira e o partido que se fez eleger sob o discurso da ética hoje escontra-se desgraçadamente enxovalhado pela mesma lama que tantas vezes denunciou.

Além da corrupção generalizada, corremos também o risco de ter a iniquidade institucionalizada pela lulocracia que aí está; A punição dos dois deputados católicos Luiz Bassuma e Henrique Afonso,  por se posicionarem contra o aborto (fato que levou a CNBB a conclamar cristãos de todas as cores a não votarem em Dilma), revela que o partido além de ferir valores cristãos fundamentais, não tolera aqueles que os cultivam. Estamos diante de um momento político mais crítico do que a maioria imagina.

13 de agosto de 2010

Um Desabafo de Todos Nós

O vídeo que segue apresenta o desabafo que todo brasileiro gostaria de apresentar à classe política. É a indignação de todos nós, um protesto entalado na garganta de cada cidadão(ã) deste país que tanto nos orgulha quanto envergonha. Senti-me incomodado ao ouvir o discurso inflamado dessa senhora. Pensar que poderia ter vindo de um dos muitos “pastores”, “bispos” e até “apóstolos” feitos deputados e senadores, ou qualquer outro membro da tal Bancada Evangélica.

Alguns desses pastores lançam-se na vida pública sob o pretexto de um “chamado de Deus”, como recentemente  li em uma entrevista de Marcos Feliciano que agora é candidato a deputado federal, mas até então não vimos qualquer deles apresentar a coragem de denunciar corrupção e corruptos como faz essa deputada do Rio de Janeiro. Onde estão os profetas de Brasília? Esperamos que surja, mas até então não sabemos de um político evangélico sequer que incomode o sono dos príncipes e poderosos, como fizeram Elias, Hanani e o formidável Micaías (II Cr 18.6-7), entre outros, nos seus dias.

Fiquei perplexo ao receber esse vídeo pois não me recordo de jamais ter ouvido um desabafo tão indignado de um parlamentar. Sou levado a crer que estaríamos melhor representados por gente dessa extirpe. Ela reconhece, e aí tem meu crédito, que a câmara não é uma casa de santos mas não pode se tornar um covil de ladrões, “canalhas consagrados, corruptos , vagabundos…”   Quando me lembrei do fato de que mais de 12 bilhões de reais foram deviados (roubados) somente da Previdência nos cinco últimos anos não pude deixar de concordar com ela… Se os profetas não se levantarem, as pedras clamarão, como parece ser o caso!

2 de novembro de 2009

Religião e Ética

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 4:26 am
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Religião e Ética

Por Luiz Leite

Texto publicado pela revista Eclésia, edição de Outubro 2009


Religião e ética deveriam caminhar juntas como “unha e carne”, inseparáveis, pois o discurso desta utiliza-se dos postulados daquela, numa espécie de apelo à consciência dos homens a que se comportem de maneira ideal. O termo “ética,” em sua base etimológica, partindo do grego ethos, significa costume, hábito, ou ainda, uso, regra. Não foram, todavia, os gregos que inventaram a ética. Todas as civilizações têm um código ético que compila as regras de conduta pelas quais seus membros devem se orientar.

Muito embora a ética tenha suas origens mais remotas na própria religião, há uma forma de relativismo que afirma que a ética não é um ramo da teologia, e que não existe necessariamente tal coisa como conduta ideal que se aplique a todos. Para esta escola, “dois pesos e duas medidas” é uma idéia perfeitamente aceitável. Quando tratamos do relativismo na ética, pensamos, em termos práticos, nos liberais, e mais, nos libertinos. Repreensíveis? Talvez nem tanto quanto o rigorismo ético religioso que, com suas normas estreitas, tantas vezes descamba para uma práxis que destoa escandalosamente do próprio discurso despachado com veemência dos seus púlpitos.

Reza o ditado popular que “o hábito faz o monge.” Os paramentos revestem o homem de uma misteriosa aura de poder, e este exerce sobre os outros certa respeitabilidade que tende a colocar-se acima de qualquer suspeita. As vestes e títulos proporcionam oportunidades sedutoras ao homem de religião. Ao vadiar por este terreno perigoso, muitos têm sucumbido nas lamas fétidas de charcos terríveis, tendo suas almas aprisionadas em cadeias inescapáveis.

A religião sempre envolveu negócios. São negócios do “outro mundo”. Desde tempos imemoriais sacerdotes mancomunados com reis dividiram entre si o espólio das almas. A instituição religiosa, seja igreja, mesquita ou sinagoga, sempre flertou com o Estado. Poder religioso e político operam de forma simbiótica através da história das sociedades. Esta é um lição básica em qualquer curso de sociologia. O sacrobusiness pode até ser aqui apenas como neologismo, o conceito, entretanto, é mais velho do que a Serra da Mantiqueira.

Foi veiculado de forma ostensiva há alguns dias a estratégia utilizada por uma grande organização religiosa para movimentar as cifras bilionárias advindas das contribuições dos seus fiéis. As transações evidenciam, segundo investigação do Ministério Público, as maquinações de uma organização criminosa, e não de uma instituição religiosa, isto porque uma organização que sustenta um discurso com as matizes pesadas da retidão deveria, supostamente, ter suas contas tão transparentes quanto sugere o sermão.

Vivemos um tempo de crise em todas as instâncias. Um taxista amigo meu dia desses me falava da máfia que controla o seu segmento em Belo Horizonte. Tudo devidamente amparado pelos homens de títulos e togas, naturalmente. Sem a canetada dos tais, aprendi com meu amigo taxista, a coreografia complexa da corrupção não seria o espetáculo que é! Muito se tem falado da crise mundial que precipitou o mundo inteiro num pesadelo de medo e incertezas, como se tal coisa fosse uma novidade histórica. Pois o mundo não está em crise. Sempre esteve. A crise não é de agora. Iniciou-se no Éden, há muito, muito tempo atrás. Foi lá que os vermes começaram a decompor a ética que hoje, mais que nunca, carcomida e combalida, cambaleia, com passos trôpegos, escondendo sob a indumentária vistosa as carnes roídas pelos gusanos.

Que ninguém se iluda com o discurso sempre eleitoreiro daqueles que estão no poder e que anunciam que já estamos saindo da crise, expressando o desejo óbvio de administrar a situação em proveito próprio e permanecer ali, de preferência para sempre. Estamos chafurdados numa crise que tem precedentes imemoriais. Não foi precipitada pela ganância desmesurada e o apetite adoecido do sistema financeiro americano ou europeu. Vem, desde há muito, se alastrando como lepra por todos os quadrantes da vida social. Há cerca de três milênios atrás ouviu-se um grito lancinante ante a corrupção generalizada que ia apodrecendo as bases da sociedade judaica. O salmista angustiado exclamou: “Socorro, SENHOR! Porque já não há homens piedosos; desaparecem os fiéis entre os filhos dos homens.” (Sl 12.1)

Já não há esperança; já não dispomos de recursos para debelar a sanha da malignidade que se instalou e se espalhou pelo coração humano como metástase. Não, não sou um existencialista pessimista movido pelo desencanto. Tenho, contudo, que discordar de Leibniz que, não sei exatamente em que mundo vivia, afirmou que vivemos no “melhor dos mundos.” Talvez romântico demais, talvez tomado por uma paixão arrebatadora, disse a frase tão frequentemente contestada na história do pensamento. Não podia estar no melhor do seu juízo.

Mentiras, mentiras, mentiras nos palácios de Brasília, nos púlpitos das catedrais, nos auditórios dos hipnotizadores profissionais que entretêm e narcotizam as massas ignaras, que providenciam “pão e circo” para tornar a vida da plebe mais sentida e menos refletida. Resta o pasmo do salmista acima mencionado que, diante da crise nos seus dias pergunta alarmado: “Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo? (Sl 11.3) Parece que os justos pouco ou nada poderão fazer, mas as rédeas da história estão nas mãos Daquele que se assenta no trono cujas bases são justiça e verdade. Ainda que pareça que tudo esteja perdido, a verdade ainda está de pé. Lembro-me das palavras de G. K. Chesterton: “Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue em pé.”

O Senhor da história não está indiferente ao quadro de acinte e insulto à ética. O poeta sagrado parece ter chegado à mesma conclusão ao escrever: O SENHOR está no seu santo templo; nos céus tem o SENHOR seu trono; os seus olhos estão atentos, as suas pálpebras sondam os filhos dos homens. O SENHOR põe à prova ao justo e ao ímpio; mas, ao que ama a violência, a sua alma o abomina. Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador será a parte do seu cálice. (Sl 11.4-6)

Cabeças vão rolar!

30 de agosto de 2009

Senatus Populusque Romanus

Filed under: Pensamentos — luiz leite @ 5:10 am
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S.P.Q.R

Por Luiz Leite

A sigla emblemática S.P.Q.R (Senatus Populusque Romanus)  é quase onipresente na história do império romano. Expressa a proeminência fundamental do Senado como uma de suas mais importantes  instituições políticas. Remonta os anos iniciais de um pequeno reino na península itálica que mais tarde se transformaria num dos mais  imponentes impérios de que se tem notícia.

Rômulo, primeiro rei do reino que alcançaria o status de imperium teria sido o fundador do senado. Antes mesmo da fundação de Roma (753 BC) já funcionava na terras da Itália  uma espécie de suprema corte, conselho tribal composto por anciãos.  Rômulo adotou a idéia do conselho tribal de ançiãos, oficializando a famosa instituição. O termo “senado” procede do latim “Senex”, significando “homem velho”. Senado significa, portanto, literalmente, “conselho de homens velhos”.

Este Conselho de “homens velhos” era uma instância da mais alta respeitabilidade pois ali supostamente prevalecia a voz da sabedoria e da razão. Os povos podiam entregar o leme da nação ao Senatus. Homens íntegros zelavam pelos rumos do interesse comum obedecendo a um código de honra estrito.

Hoje, o que se vê no Senado brasileiro é absolutamente constrangedor;  Causa profunda indignação saber que se assentam nos lugares de tão grande importância, homens cuja credibilidade está comprovadamente comprometida por mil conchavos. As nódoas em suas fichas falam por si.

A casa que deveria representar o bastião da ética na política tornou-se um covil de salteadores. O Senado brasileiro, tal como hoje se apresenta, guardadas talvez algumas raras exceções, não faz jus ao nome. O “Conselho de homens velhos”, tradução do termo Senado, sugerindo a confiabilidade dos anciãos, poderia ser melhor traduzido, no nosso caso, por “Conselho de homens velhacos”.

Morre de vergonha o cidadão brasileiro que, com alguma consciência política, (milhões não a tem!) tem que engolir como senadores da república em seu país, um elenco que mais se parece com os personagens daquele conto das arábias, “Ali Babá e os quarenta ladrões”! Se as articulações desavergonhadas que ocorrem ali fossem descobertas em outros países, os tais senadores já há muito teriam saído da cena, abrindo mão de seus mandatos, ou até mesmo, como já visto em algumas ocasiões, cometido suicídio!

Brasil, mostra sua cara! Apenas a cara pintada do protesto, entretanto, não resolve. Em algum lugar, no meio da noite, precisamos também de olhos molhados!

 




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