um dedo de prosa

Kierkegaard

A subjetividade é a verdade”.

Por Luiz C Leite

Uma frase de Kierkegaard me pôs a pensar e também me ajudou a organizar melhor um dos escaninhos no meu sistema de pensamento. Como é óbvio que nenhum de nós poderia desenvolver uma filosofia original, vamos emprestando aqui e ali retalhos de pensamentos com que tecer aquela que será a “nossa” filosofia.

O nosso pensamento deriva do pensamento de outros, que por sua vez emprestaram a base de seus conceitos de outros e assim sucessiva e indefinidamente, mas nem tanto “ad infinitum”, pois alguém em algum lugar pensou primeiro. Esse alguém é a raíz metafísica primordial, ainda que alguns não considerem raíz metafísica alguma.

A frase que me abriu mais uma janela para um horizonte cada dia mais amplo foi, “A subjetividade é a verdade”. A verdade, esse objeto do labor filosófico, é mesmo subjetiva. Nisto concorda Kant com o seu conceito da “coisa em si” ou “noumenos” e sua inacessibilidade. Segundo o pensador alemão, não temos, por mais que tentemos, acesso à essência das coisas. Estamos fadados a viver na esfera do fenômeno.

Os que crêem na existência de Deus, a Grande Conjectura, como colocado por alguns, vivem de uma certeza subjetiva. A verdade da fé é assim. Uma certeza subjetiva, uma vez que o subjetivo não se manifesta conforme o rigor do método científico. É nisto que está o paradoxo da fé cristã segundo Kierkegaard. A fé, e por consequência, o pensamento cristão está assentada inteiramente sobre a certeza (subjetiva) de que existe uma realidade outra por trás do que se vê.

Os céticos por sua vez vivem e experimentam a incerteza objetiva. Objetiva porque tangível, mensurável, enquanto matéria, mas incerta porque a configuaração material do universo não é eterna. Lidando com aquilo que se vê e se permite observar objetivamente, eles estão lidando apenas com o incerto, posto que o que se manifesta é apenas o fenômeno, não consistindo a “coisa em si”, para usar a terminologia kantiana referente à realidade última das coisas.

Uns lavram sobre o terreno da incerteza objetiva, outros sobre as planuras da certeza subjetiva, e todos experimentam, no fundo, a esmagadora sensacão de saber que nada sabem, ainda que escrevam tomos e tomos de filosofia, teologia e tudo mais…

3 Comentários »

  1. [...] Kierkegaard disse de certa feita que Jesus e’ um paradoxo que a historia jamais assimilara’. Acredito que o formidavel pensador nordico acertou na mosca! Parece-me que ainda entendemos muito pouco dele… Fomos atingidos poderosamente por sua mensagem e o impacto da mesma, passados dois mil anos, ainda nos faz sentir atordoados! [...]

    Pingback por Pela porta dos fundos « um dedo de prosa — 18 18UTC Fevereiro 18UTC 2009 @ 5:09 pm

  2. Esse camarada Sören disse algo sobre o desespero da humanidade que concordo.”Apenas uma reflexão pungente, ou, uma grande fé, poderiam resistir à reflexão sobre o nada, ou seja, à reflexão sobre o infinito. Após, essa falação toda ele afirma que o homem comum comete um enorme erro considerando o desespero uma exceção, quando na realidade ele é a regra. Ele acertou sabia?
    AI de mim que hoje faço um ano a menos de vida (54) – Porque pela graça fui salvo, mediante a fé; e disso tenho absoluta certeza, ela não veio de mim, foi um dom de Deus; (colei de Paulo) estudamos junto na EBD de Jesus.

    Comment por José Carlos — 26 26UTC Fevereiro 26UTC 2009 @ 3:33 am

  3. Carlos, seus comentários sao otimos…valeu!!

    Comment por luiz leite — 26 26UTC Fevereiro 26UTC 2009 @ 3:44 pm


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