um dedo de prosa

Arrogância Homo Sapiens

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Arrogância Homo sapiens

Por Luiz C Leite

Recebi ano passado, em meados de Abril, um email de Dhruba, um amigo que vive no distante Nepal, me desejando Feliz Ano Novo! Pensei, “O meu amiguinho deve ter hibernado no inverno e acordou (a primavera está começando por lá) meio desorientado com o tempo!”

Reconheci depois minha ignorancia (não sabia que o ano novo Nepalês é comemorado em Abril!) e, com mais humildade considerei como nos é difícil aceitar o diferente. O nosso etnocentrismo chega às vezes às raias do ridículo! O diferente não é estranho, ou esquisito, é apenas diferente!

Um dia desses, em um parque, tive minha atenção atraída para um formigueiro de saúvas que trabalhavam com o afinco que lhes é peculiar. Impressionado com a movimentação daquelas criaturinhas formidáveis, fui tomado por um pensamento que me fez perceber com mais clareza a imensa arrogância “homo sapiens”; se há mais de 10 milhões de formigas para cada ser humano no planeta, de quem é mesmo o planeta, nosso ou delas?

Encostei-me numa árvore sábia e majestosa (não sei porque, mas sempre considerei as árvores como criaturas sábias – curti muito aquela parte do filme “O Senhor dos anéis” quando as árvores centenárias se reunem para deliberar se entrariam ou não no conflito, e ao observá-la, tive a impressão de que ela também me observava silenciosa (te garanto que não havia bebido ou fumado nada!!)

Diante de seu tamanho incrível, sua majestade serena e sua profunda humildade, me senti como um anão e me questionei perplexo: “O que seria do mundo sem elas??” (dá pra imaginar um mundo sem árvores??) Apesar do arboricídio (se não havia esse termo, estamos criando aqui) generalizado, ainda há mais árvores do homens…de quem é o planeta??

Logo em seguida meus olhos, agora não tão altivos, começaram a perceber mundos múltiplos, coexistindo simultaneamente no mesmo espaço…criaturinhas as mais diversas, ocupadas com os seus afazeres, iam e vinham em sua lida, completamente avessas às intrigas do conturbado mundo dos homens!

Os crânios da teoria das supercordas conjecturam sobre a existência de mundos vários em dimensões paralelas; gastamos bilhões de doláres em pesquisas espaciais para aprendermos como “funcionamos” no espaço em gravidade zero, sem ainda termos aprendido como funcionamos aqui mesmo! continuamos depredando o nosso próprio domicílio (dá pra entender o que estamos fazendo com os nossos rios e florestas??) e já bebendo os nossos próprios dejetos…(reciclados, é claro! quem já foi a uma estação de tratamento de água, sabe do que eu estou falando)

Cortamos as árvores, destruímos o nosso próprio abrigo, desprezamos as outras crituras que compartilham conosco o mesmo quintal, e chegamos ao cúmulo de achar esquisito o próprio semelhante… Desprezamos preconceituosamente o negro por sua cor (o negro é lindo!), o nordestino por seu sotaque (o nordestino é sobretudo um forte!)

Um pouco mais de humildade (abaixo a arrogância homo sapiens!) poderia nos salvar de catástrofes inenarráveis; se tão somente respeitássemos a individualidade dos seres, humanos ou não, e zelássemos pelo mundo que não é apenas nosso, mas também das formigas, das árvores, das garças… se tão somente honrássemos o semelhante apreciando a beleza de ser, não “esquisito”, mas simplesmente diferente… se tão somente parássemos de transformar nossos rios em esgotos a céu aberto… se tão somente…

Depois dessa reflexão toda, apesar de ser abril para mim, escrevi um email caloroso para o meu amigo Dhruba, desejando-lhe um FELIZ ANO NOVO!!! O Nepal não é “esquisito”, é apenas diferente, e há beleza nisso! Viva pois o diferente!! E que isto valha pra todas as tribos!!!

3 Comentários »

  1. Tens razão! Temos uma tendencia incorrigível
    para a arrogancia. O planeta não é só nosso
    e não podemos nos apoderar dele como se o fosse. Concordo plenamente. Beijos.

    Comment por sarah — 11 11UTC Junho 11UTC 2008 @ 7:21 pm

  2. Apesar de toda consciência aparente de nossa sociedade, dentro de um mundo cada vez mais globalizado e disperso, a realidade fria nos mostra um mundo degradado e cada vez mais difícil de ser o que sempre deveria ser. Abraços…

    Comment por Rodrigo — 14 14UTC Junho 14UTC 2008 @ 11:28 am

  3. Vivíamos em um Universo em que o homem como mordomo do Criador tinha perfeita harmonia com toda a criação. Esta não era agredida e nem agredia ao homem. Basta-nos pensar que Adão poderia acordar de manhã e ordenar ao sol que este adorasse a Deus e o sol obedeceria. Tal harmonia foi quebrada e nenhum movimento ecológico mundial poderá restaurá-la. Somente qaundo o Senhor de tudo implantar seu reino, poderemos voltar a viver harmonicamente com a criação. “o leão passeará com a corça…”

    Comment por Elton Gomes Lucas — 18 18UTC Junho 18UTC 2008 @ 11:23 am


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