Amsterdam
Por Luiz Leite
Cheguei em Amsterdam cansado e com fome. O inverno, apesar de já estar de malas prontas, ainda fazia sentir o seu hálito frio naquele começo de março. Já havia saído de Bruxelas com fome pois o dinheiro andava escasso já há algum tempo. Um casal de amigos que fiz em Atenas, se dispôs a pagar a minha passagem, quando souberam que eu queria mudar para a Holanda e estava sem dinheiro.
Pois bem, lá estava eu em Amsterdam, sem um tostão e sem um amigo a quem recorrer… Como fazia frio, entrei numa estação de metrô e coloquei minha backpack no chão. Ajeitei o violão cudadosamente sobre a mochila e, sentando-me no chão, encostado numa pilastra, começei a tomar minhas primeiras aulas de holandês, observando as placas, letreiros, bem como as pessoas que passavam e a sua fala estranhíssima…
Não tinha a menor idéia do que fazer quando o metrô encerrasse suas operações à meia noite; Teria que sair da estação, disto sabia, mas ir pra onde? Entre um pensamento e outro, enviava ao céu uma pequena oração de vez em quando, dizendo “Senhor, a noite tá ficando fria”.
Já estava quase dando meia noite quando o último trem estacionou na plataforma. Estava tão cansado que nem sequer ligava pras belíssimas holandesas que passavam dando “bola pra mim”. Talvez voce diga, “tadinho, tava sonhando”… pra dizer a verdade, eu não tava sonhando não, tava delirando mesmo…de fome. E a oração subia, fraquinha, tipo, “Senhor…”
Um dos últimos passageiros a descer do metrô se dirigiu a mim em holandês e falou algumas palavras ininteligíveis, pra logo perceber que eu não estava entendendo uma vírgula; de imediato acionou uma tecla misteriosa nos circuitos fascinantes do cérebro e passou a falar em inglês como se aquela operação fosse a coisa mais natural do mundo.
- Posso ver seu violão? Perguntou-me.
- Fique à vontade… respondi
Tirou o violão da capa e começou a cantar um dos meus blues prediletos…
- “summertime when the living is easy, fishes are jumping and cotton is high…”
Cantou como se diante de uma grande audiência. Éramos eu e ele… Depois de cantar o seu blues e uma outra canção que como o blues seria pelo menos trinta anos mais velha que ele, perguntou-me:
- Pra onde voce está indo?
- Pra lugar nenhum – respondi
- Como assim? - perguntou curioso.
- É que não tenho pra onde ir – respondi
- Não se preocupe não – disse - pegue suas coisas e vem comigo.
Nunca havia obedecido tão prontamente a uma ordem como naquele dia. Levantei-me de um salto e, mochila nas costas, lá fui seguindo o holandês. Preocupado com o que poderia acontecer? Não, nem um pouco. Eu sabia de onde vinha aquele “socorro”…
Chegando no apartamento do holandês, percebi que não havia ninguém no lugar. Como um bom anfitrião, o jovem mostrou o sofá pra que eu me sentasse e dirigiu-se para o quarto. Sentei-me no sofá e passei a observar, curioso, os detalhes do ambiente.
Logo o rapaz saiu do quarto carregando uma mochila. Disse-me que ficasse à vontade que iria a certo lugar e que dali a pouco estaria de volta. Despediu-se de mim com um até daqui a pouco e foi-se…Recostei-me no sofá e esperei o quanto pude…vencido pelo cansaço e pelo sono desmaiei para acordar somente por volta das dez horas do dia seguinte.
O holandês deveria aparecer a qualquer momento, pensei. Esperei, esperei e nada. Passou o dia, a noite chegou, esperei um pouco mais e nada…dormi. E assim sucedeu pelos próximos seis dias. Assim foi que o Senhor me recebeu e me acolheu em Amsterdam até que eu arranjasse amigos e um lugar para ficar. E olha que eu achava que estava numa cidade onde não conhecia ninguém e não tinha um amigo a quem recorrer…

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