um dedo de prosa

28 de novembro de 2011

A Caverna De Platão

Caro leitor, segue a continuação do livro inédito aqui publicado em trechos. A Pedagogia do Deserto vai nos levar a descobertas surpreendentes. Boa leitura!

 

A PEDAGOGIA DO DESERTO

Capítulo I (c)

 

A VIDA NO MUNDO

 

O surpreendente filósofo grego Platão (428/348 a.C.) há muito já desconfiava da capacidade da razão para explicar o altamente complexo sistema de coisas ao nosso redor. Suspeitando das verdades superficiais, aquilo que se vê, chegou à conclusão que a percepção dos sentidos é enganosa. O método empírico, que se orienta basicamente pelas informações colhidas pela experiência através dos sentidos, não nos conta a estória toda. Na verdade nos ludibria, deixando-nos vendidos a uma doce, porém, tola ilusão.

 Além do véu – a metáfora da caverna

Para explicar e fundamentar suas idéias quanto à ilusão em que vivem aqueles que se norteiam pelos sentidos, criou a metáfora da caverna. Nessa parábola conta-nos acerca de um grupo de homens que viviam aprisionados dentro de uma caverna. Acorrentados, tudo o que podiam ver era a face de uma rocha desnuda sobre a qual as chamas de uma fogueira projetava suas imagens.

Por muitos anos estudaram aquelas sombras, escreveram tratados sobre as imagens, desenvolveram filosofias, teologias e todo um corpo de “conhecimentos” daquela que era a sua realidade. Um dia, entretanto, um deles conseguiu escapar dos grilhões que o prendiam e, desesperadamente, buscou a saída da caverna. Ao chegar à porta da caverna deparou-se com a luz resplandecente do sol.  Com a visão ofuscada nada podia ver de forma clara, cegado pelo clarão, até que, passado algum tempo pôde por fim começar a apreciar aquele cenário incrivelmente belo. Ficou encantado. Mal podia acreditar no que via!

Resolveu correr o risco de retornar à caverna para compartilhar com os amigos sua grandiosa descoberta da verdade. Ao chegar ao interior da caverna começa a falar com grande entusiasmo aos amigos acerca do que havia encontrado. Diz para os amigos que eles estavam enganados com respeito às coisas e que tudo aquilo que tinham aprendido não correspondia à verdade, não passando de sombras de uma realidade outra. Os amigos, indignados, se recusam a abrir mão do conhecimento acumulado em anos de “estudos” e mais, ameaçam até mesmo matá-lo por tamanhas heresias. Como ele ousava questionar de forma tão irreverente uma tradição milenar e dizer que todos estavam errados?

Com essa metáfora Platão deseja ilustrar aquela que seria a base da sua teoria. A “realidade”, e por extensão todo o conhecimento que obtemos através dos sentidos, não passa de sombras projetadas sobre a face da rocha em nossa caverna. A verdade última acerca dos fatos não se encontra aqui, mas em outra esfera. Precisamos sair da caverna.

 A mística platônica

O que é a verdade? perguntou Pilatos a Jesus quando este lhe disse que havia vindo ao mundo para dar testemunho da verdade. Como se chega à verdade? É possível conhecê-la? Várias teorias tem sido desenvolvidas para responder a tais perguntas. Dentre as teorias da verdade, a teoria mística é possivelmente a mais antiga. Desde há muito o homem tem se visto limitado em sua capacidade de apreensão da verdade a partir das próprias observações e elucubrações da razão. Por causa dessa desalentadora restrição sempre acaba voltando para a crença religiosa.

Diferentemente de seu ilustre discípulo Aristóteles, que cria ser possível provar a existência de Deus a partir da razão, e que atribuía grandíssima importância à empeiria (experiência através do uso dos sentidos), Platão era um místico (do grego mustikós – referente aos mistérios). O místico é aquele que sustenta crença em coisas sobrenaturais sem a necessidade de uma base racional. Cria que existe uma realidade espiritual que não pode ser captada pelos sentidos, nem apreendida pela razão.

Sua gnosiologia (teoria de como obtemos o conhecimento e como podemos averiguar a veracidade deste) consistia de uma “escada” onde os degraus mais elementares são aqueles da percepção sensorial e da razão. Em seu esquema, os sentidos nos provêem de um conhecimento rudimentar; a razão, por sua vez nos proporciona acesso a um nível mais seguro da verdade, mas ainda assim não consegue abarcar todas as coisas. Ainda que absolutamente útil, a razão, cria Platão, limita-se a processar o conhecimento de uma esfera inferior. Ajuda, mas não responde a tudo.

Num terceiro degrau, a intuição nos daria condições de compreender coisas que nem os sentidos nem a razão poderiam explicar, e, num quarto degrau estaria o misticismo, como recurso mais elevado. A mística nos tomaria pela mão, e através da revelação, uma espécie de conhecimento trazido por uma entidade espiritual, deuses ou espíritos; sem qualquer relação com o tipo de conhecimento natural a que estamos acostumados, a mística nos daria acesso à uma realidade imaterial inacessível por outros meios.

Para Platão, era imensa e tola a pretensão humana de decifrar a vida a partir dos parcos recursos de que os sentidos e a razão dispõem. Por valorizar a intuição e a mística Platão acabou tornando-se atraente para os pensadores cristãos. Estes, ao encontrarem em sua filosofia tantos pontos de contato com sua doutrina, acabaram por absorvê-lo em sua teologia. Seria cristianizado…

Ps.: Se voce está gostando do texto, recomende aos amigos enquanto estamos apenas no começo da viagem. Até mais!

9 Comentários »

  1. Como assim … ? Eu quero continuar! Não faz isso mais não moço uai! O que seria cristianizado? O Platonismo? (???)
    Até a próxima publicação… Aliás, eu gostaria de saber quando…

    Comentário por Eduardo Miranda — 28 de novembro de 2011 @ 7:32 pm

  2. a mística falada traz mais luz, enquanto a “mística tupiniquim” afasta os cristãos brasileiros de uma vida mais esclarecida;
    alguns evangélicos não saíram da caverna e não tiveram uma experiência com a luz, apenas saíram de uma caverna para outra.
    Triste época, quando um país se torna evangélico mas não fica mais ético e justo.

    Comentário por Jucimar Leite — 29 de novembro de 2011 @ 2:38 pm

  3. É triste e dolorosamente verdadeira sua conclusão Pr. Jucimar!

    Comentário por luiz leite — 29 de novembro de 2011 @ 3:05 pm

  4. Sabendo que o “místico” no remete a uma “comunicação” é duro observar o misticismo permeando o Evangelho. Platão coloca a mão na superfície, afinal, o espiritual é mistico, como mistico não deixa de ser o Sangue de Jesus. Só que o Sangue é uma REALIDADE ESPIRITUAL e sem O qual todos sucumbimos.

    Que pena que os misticos evangélicos dentro ou fora da caverna e se sentem imersos na verdade.

    Aristóteles disse que tudo é potência e só Deus é Ato Puro. Pois é… vamos para as ações. Vamos para os frutos

    Comentário por Rosângela — 29 de novembro de 2011 @ 8:42 pm

  5. Apareceu Rosa… que bom! sempre enriquece.

    Comentário por luiz leite — 29 de novembro de 2011 @ 9:43 pm

  6. Contínua. Estou cheio de duvidas sobre o meio “mistico”.

    Comentário por Renan Garcia — 2 de dezembro de 2011 @ 2:23 am

  7. vamos continuar nessa maravilhosa viagem!!!!!

    Comentário por alvaro — 4 de dezembro de 2011 @ 2:06 am

  8. Místico? Intuição? Sou leiga quando se trata de filosofia … a Fé se encaixa onde ?
    Pr. Luiz , quando sair esse livro me avisa, por favor ! Tenho tirar algumas dúvidas, já que infelizmente não poderá continuar postando trechos do livro …

    Comentário por Priscila — 5 de abril de 2012 @ 12:27 am

  9. voce sem dúvida será informada do lançamento do livro cara Priscila!
    abc

    Comentário por luiz leite — 5 de abril de 2012 @ 5:12 pm


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